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terça-feira, 26 de agosto de 2008

Danilinho

No começo ele chegou a pensar que era um assalto. Caminhava pela rua quando foi agarrado pelo pescoço numa chave de braço digna de medalha olímpica se estivsse na disputa de luta greco-romana. Quando finalmente conseguiu se desvencilhar do ataque, se deu conta que quem tinha lhe agarrado não era um bandido. Pelo menos não um bandido qualquer: tratava-se de uma loira alta, esguia, que exibia um sorriso de felicidade escancarado. Uma visão tão deslumbrante que lhe fez engolir seco as dúzias de impropérios que iria desferir assim que fosse solto.

-Danilinho!!! Eu não acredito que é você! – Gritou a moça, visivelmente comovida com o encontro.

Mas nem ele acreditou, já que o seu nome era Felipe, não Danilo. Aliás, numa rápida análise de memória, se deu conta de que nem ao menos conhecia alguém com aquele nome. Também nunca tinha visto antes aquela loira de atributos generosos, tinha certeza. Era bom fisionomista. Jamais esqueceria um rosto (e um corpo) como aquele.

Obviamente tratava-se de um engano. Devia ser parecido com o tal de Danilinho, que provavelmente era um velho amigo dela do passado. Quer dizer: não deveria ser só um "velho amigo", e sim um "grande amigo". Dava para ver em seu rosto. Sua empolgação era tamanha, que parecia estar diante de um tesouro recém descoberto.

Era uma pena, mas teria que explicar que não, ele não era o Danilinho. E olha que, naquelas circunstâncias, ele bem que queria ser. Praguejou em pensamento: “Se não bastasse eu estar sozinho, ainda tenho que dispensar uma obra de arte dessas. É muita ironia do destino!”

No entanto, quando ia desfazer o equívoco foi contido por outro abraço da loira sorridente. Ficou sem ação. Sua cabeça pedindo para explicar a situação de uma vez, mas seu corpo estagnado.

-Caramba! Eu não acredito que é você! – Disse a moça, com os olhos marejados.

-Na verdade acho que a senhorita está...

-Você lembra-se de mim, né?

Ele ainda tentava assimilar a situação. Não era todo dia que uma mulher daquelas se atirava, literalmente, no seu pescoço. Duas vezes. Pior ainda: ela lhe observava com cara de criança pidona à espera de um “sim, eu lembro de você”.

Aqueles olhos verdes, esperançosos por uma resposta positiva, e ele ali, prestes a acabar com tudo.

Talvez fosse o Sol forte na nuca, ou aqueles lábios reluzentes trêmulos de expectativa, mas ele não conseguiu dizer não.

-Mas é claro que eu lembro de você!

Foi pego de surpresa com a própria resposta. Não era homem de enganar ninguém, muito menos de ficar flertando com uma moça que jamais tinha visto antes. “Ai meu Deus, o que foi que eu fiz?”, pensou ele já meio arrependido.

-Aiiii Danilinho! Que bom! Você não sabe da saudade que eu sentia de você. – Disse ela, abraçando-o novamente.

Mais um abraço daqueles e ele admitiria ser até a Cleópatra se ela pedisse. Aqueles braços delicados em volta de seu pescoço, os seios fartos repousados contra seu peito, aquele corpo voluptuoso e macio como seda junto ao dele, o perfume doce que inundava seu olfato... Não dava para resistir. Os sentidos sucumbiram à razão. Era seu dever cívico levar a conversa adiante.

Ainda empolgada, ela carregou-o pela mão até a mesa de uma cafeteria que ficava do outro lado da rua. Um encontro daqueles, mesmo inesperado, merecia um diálogo de verdade.

Sentaram-se. Ela pediu um cappuccino, só para ter um álibi para usar a mesa. Ele, para acompanha-la, um café.

-Quanto tempo, né? – Disse ela, sem tirar o enorme sorriso da cara.

-Ô! Bota tempo nisso. – Respondeu ele ainda meio sem jeito.

-Fazem o quê? 15 anos?

-É... É... Acho que fazem sim.

-Nossa! O que a gente aprontou naquele colégio, né?

-É... No colégio! Aprontamos horrores.

-Você sempre metido em confusão e eu sempre salvando a sua pele.

-É, né?

-Eu era santinha, até conhecer você.

-Pois é.

Não tinha o que dizer. Como dialogar sobre o passado com alguém que não se conhece? Usava apenas respostas evasivas, tentando fazer com que ela soltasse alguma pista com que pudesse trabalhar.

-Lembra daquela vez em que a gente botou chiclete na cadeira da professora?

-Acho que lembro, sim!

-Lógico que lembra. Tem que lembrar. Foi você que insistiu pra gente fazer aquilo. Aliás, você sempre me convencia com aquela sua lábia.

-É, né? Eu era... Terrível!

-Como era mesmo o nome daquela professora? Só sei que era bem engraçado.

-Bozolina?

-Não... Não era isso! Mas você devia lembrar. Você tinha fama de ter memória de elefante.

-Eu? Imagina.

-Tinha sim... – Neste instante o garçom trouxe os pedidos: o cappuccino dela e o café dele. Ela questionou. – Aliás, se bem me lembro, você não bebia café.

Sentiu que estava prestes a ser desmascarado. Desconversou.

-Muita coisa mudou de lá pra cá.

-Discordo. Você, pelo menos por fora, não mudou nadinha. Tá a cópia exata do cara que era da última vez que te vi. Até parece que o tempo não passou para você.

-O que é isso, imagina! Você sim está ótima. Linda como sempre.

Parecia impossível, mas ela conseguiu sorrir com ainda mais intensidade depois do elogio, fazendo o Felipe concluir que tinha tomado a decisão certa ao dizer ser quem não era. Só aquele sorriso já tinha recompensado com sobras sua ousadia.

-A gente era tão amigo, lembra?

-Claro que lembro... Éramos... Sei lá... Inseparáveis.

-Eu te contei todos os meus segredos. Era a única pessoa em quem eu confiava. Você era o meu porto seguro.

-Pois é. Mas eu também te contava meus segredos.

-Contava nada. Dizia que eram coisas pesadas demais pra compartilhar comigo. Típica desculpinha esfarrapada.

-Ah, é? Tinha esquecido disso.

-Lembra daquelas tardes em que passamos embaixo daquele pé de ipê no quintal de minha casa, papeando sem parar?

-Lembro.

-Lembra como a gente gostava de ficar deitado na grama até bem tarde para contar as estrelas?

-Lembro.

-Lembra daquele esconderijo secreto que a gente tinha lá perto da sua casa, onde volta e meia a gente visitava só pra poder ficar sozinho e conversar?

-Lembro.

-Pois é. Fazíamos uma bela dupla.

-É... Uma dupla do Barulho.

-“Danilinho e Sandrinha, os terríveis!”, era assim que chamavam a gente, tá lembrado?

Sandra, vulgo Sandrinha. Finalmente tinha descoberto o seu nome. Se bem que o diminutivo não tinha qualquer validade. Não existia nada de “inho” nela. A Sandra era “ão”, dos pés à cabeça.

-Como é que eu poderia me esquecer? Foi uma época tão feliz.

-Para mim também, sabia? Juro pra você que eu acho que foi uma das melhores da minha vida. Mas o mundo da voltas. A gente cresce, e perde contato com as pessoas.

-Pois é.

-Mas agora o destino nos pôs de volta um no caminho do outro. Não vou te perder mais de vista. – Neste instante, ela delicadamente pegou em suas mãos e olhou no fundo de seus olhos.

-Nem eu, nem eu... – Disse o Felipe, tentando retomar os próprios batimentos cardíacos.

-Sabe... Quando eu te vi... Sei lá! Não me controlei. Tinha certeza que era você, por isso te agarrei daquele jeito, pelo pescoço. Percebi que você ficou meio sem jeito. Desculpe se te dei um susto.

-Não tem problema. Admito que me assustei um pouco na hora. Mas foi um susto bacana. O mais lindo que eu já tive. – Retrucou ele, deixando-a visivelmente encabulada com a frase.

Ele vibrou com o próprio flerte. Podia ser só coisa da sua cabeça, mas sentia que existia mais do que nostalgia na voz da moça que lhe confundira com outro homem. Ela parecia fascinada. Era como se tivesse algum tipo de sentimento mal resolvido entre ela e o velho amigo que ele fingia ser.

-Você, hein? Sempre um galanteador, né Danilinho?

-O que eu posso fazer? Você causa isso nas pessoas. Só estou relatando o que vejo.

-Não foi o que você me disse há 15 anos, lembra?

-Como?

-Você sabe que eu era louca por você.

-Sei??

-Claro que sabe... Lembra que poucos dias antes da gente terminar o colégio, eu te pedi em namoro?

-Pediu??

-Até cheguei a pensar que você ficou meio bravo comigo, na época. Fiquei mal e tudo mais. Foi um peso na consciência que carreguei comigo por todos estes anos. Você não ficou bravo, ficou?

O Felipe mal podia acreditar. Estava diante de uma das mulheres mais deslumbrantes que tinha visto em toda vida, e ela tinha acabado de admitir que era apaixonada por ele desde menina. Quer dizer: por ele não. Por um cara muito parecido com ele. Mas isso era só um detalhe.

-Claro que não. Por que iria ficar chateado com você?

-É que, sei lá. Na época você pareceu ter ficado. Disse que não queria namorar comigo, que não queria estragar nossa amizade. Você foi gentil, mas achei que tinha se zangado por eu ter tomado a iniciativa de tentar algo mais sério.

O Felipe não pôde deixar de praguejar o Danilinho em pensamento. Como é que um homem em sã consciência poderia negar um pedido de namoro de uma mulher daquelas?

-Eu jamais faria isso. Você sempre foi importante para mim. – Disse ele, modulando sua voz para o estilo “cantor de bolero”, deixando-a ainda mais sem jeito.

-Ai, Danilinho!

“Dane-se o bom senso”, pensou o Felipe. Aquílo não era coincidência, aquílo era o destino! Sim, o destino. Situações como aquela não aconteciam à toa. Alguma coisa deveria ter colocado ele ali para corrigir aquela injustiça, para saldar a dívida que o frouxo do Danilinho não tinha quitado no passado. Era seu dever terminar o que um dia aquele canalha tinha começado. Era questão de justiça fazer a Sandrinha feliz... Pelo menos era o que ele diria a si mesmo se sua consciência ficasse pesada.

-Mas, olha: quer saber? Você fez a coisa certa quando não aceitou o meu pedido. – Disse ela, tentando desconversar.

-Não. Eu estava errado.

-Errado? Como assim?

-Eu errei. Ficar com você teria sido a coisa certa.

-Sério, Danilinho?

-Não teve um só dia durante todos estes anos em que eu não tivesse me arrependido daquela decisão, Sandrinha.

-Ai, Danilo! Não brinque com uma coisa dessas. Você não sabe como foi difícil para mim te esquecer e...

-Pois a partir de hoje você não precisará mais me esquecer. Poderá me guardar para sempre em seu coração. – Disse o Felipe, para em seguida tomar a Sandrinha nos braços e beijá-la longamente.

***

Horas mais tarde, no apartamento da Sandrinha, o Felipe se distraía fazendo planos para o futuro enquanto observava a loira deslumbrante que tinha lhe agarrado na calçada dormindo nua na cama do quarto, com um inconfundível sorriso de felicidade entre os lábios.

No dia seguinte, durante o café, explicaria para ela a situação. Diria que não era o Danilinho, e sim o Felipe, um leonino de 27 anos que trabalha como contador. Um paranista, solteiro, que gosta de ler revistas em quadrinhos e jogar vídeo-game nas horas vagas. Em síntese: um partidão.

Se ela por ventura não gostasse da revelação (hipótese bastante improvável na visão dele), explicaria que ficou comovido com a situação da moça, e que iria se sentir um canalha se tivesse que lhe dizer que não era seu amigo dos tempos de adolescência. Diria que era um cara altruísta, do tipo que não pode ver ninguém sofrendo, que já quer ajudar. Além do mais, iria fazê-la feliz, como o tapado do antigo colega (que segundo ele era um safado de marca maior por ter “‘enganado’ ela durante todos aqueles anos de convívio, lhe dando falsas esperanças”) jamais faria.

Ela certamente haveria de entender a situação e perdoá-lo.

Naquele instante, a Sandrinha acordou. Com muito custo, abriu discretamente os olhos, se espreguiçou, e com um sorriso nos lábios perguntou:

-Você não vem dormir? Está tão gostoso aqui...

-Já vou meu anjo, já vou.

Ainda reflexivo, cochichou baixinho, para si mesmo:

-Danilinho, Danilinho... Você deveria me agradecer!

E foi deitar.

domingo, 27 de julho de 2008

Estômago

O Everson era uma espécie de lenda entre os amigos. Quando se reuniam em busca de diversão, era ele quem comandava as hordas bárbaras de beberrões com a autoridade de um general em combate. Dava ordens aos garçons, administrava e distribuía os aperitivos, e bebia tal qual um possante de oito cilindros num posto de gasolina. Um “Genghis Khan” do boteco, como era conhecido informalmente.

Ninguém ali era capaz de fazer frente ao espírito kamikaze do rapaz, que tinha em seu currículo boêmio comas alcoólicos suficientes para registrar em catálogo. Alguns, inclusive, dignos de admiração pelos demais colegas.

-Lembra daquele porre do Everson?

-Se eu lembro? Fui eu quem tive que levar ele pra casa, tá lembrado?

-Como será que ele conseguiu, hein? Nunca tinha visto ninguém beber tanto.

-Vai por mim... O Everson é um fenômeno. As cervejarias deveriam construir estátuas a ele em praça pública como forma de agradecimento.

Mas um dia tudo mudou.

O Everson mal tinha consumido a primeira dúzia de garrafas de cerveja quando sentiu uma fisgada no estômago. À medida que o tempo passava a sensação ruim piorava. Uma ânsia cada vez mais incontrolável ia, sorrateira, vencendo seu autocontrole. Não demorou muito para que a situação ficasse insustentável. Sem alternativa, correu para o banheiro, onde, segundo ele próprio, só não vomitou a própria alma porque felizmente ela não era liquida.

Mesmo a contragosto aceitou a sugestão de passar alguns dias afastado dos eventos etílicos promovidos pela galera. Afinal de contas, tanto abuso no decorrer dos anos certamente teria seu preço, nem que esse fosse o de passar algum tempo longe do bar.

Na semana seguinte, já aparentemente recuperado, foi ao encontro dos colegas. Mas a tão aguardada volta triunfal parou nos primeiros goles. A sensação ruim não só voltou, como dessa vez as conseqüências foram ainda mais vorazes. Foi levado para casa às pressas, antes que a situação ficasse pior, e que o banheiro do local fosse permanentemente interditado.

Inconformado, perguntou a si mesmo o que estava acontecendo. Nunca tivera tido aquele tipo de “frescura” antes.

Insistente, continuou tentando sistematicamente reassumir o controle sobre o seu estômago... Em vão. A coisa piorara a tal ponto, que até o cheiro de uma bebida qualquer lhe causava asco.

Depois de algumas semanas de golfadas persistentes e incontroláveis, contrariou seus próprios princípios e resolveu ir a um médico.

Exames e mais exames chegaram ao mesmo diagnóstico: ele estava absolutamente saudável.

-Mas doutor... Eu nem posso chegar perto de uma bebida com um pouquinho de álcool que eu começo a passar mal. Tem que ter alguma coisa fora do lugar!

-Acredite: você está mais saudável do que a maioria das pessoas por aí.

-Não tem de errado nada mesmo?

-Nada!

-Nem no estômago, no fígado... Sei lá!

-Não, tudo em ordem.

-Nem uma cirrosezinha?

-Olha: pelo que você me descreve, isso é absolutamente psicológico.

-Mas não tem sentido.

-Pois é. Mas só pode ser isso. Fisicamente você está em perfeitas condições.

A coisa era pior do que ele imaginava. Se um beberão que não conseguia nem ao menos ser repreendido pelo médico era motivo de vergonha, que dirá então um que era classificado como “saudável”... Era a humilhação suprema.

Desesperado, partiu em busca de uma cura para sua insólita “maldição”.

Psicólogos, psiquiatras, gastroenterologistas, videntes, pais-de-santo... Todas as alternativas possíveis de melhora foram buscadas, fossem elas ortodoxas ou não. No entanto, nenhuma surtiu resultado.

Resignado, concluiu que seu estômago tinha se tornado uma espécie de “chacota divina”, uma prova inexorável que Deus não só tinha um senso de humor bastante peculiar, como adorava fazer uma piada. Afinal de contas, quer algo mais irônico do que um boêmio de pedigree que não consegue mais beber, por mais saudável que ele estivesse?

O Todo Poderoso deveria estar lá em cima, rindo pra valer da própria anedota.

Vez por outra ele ainda comparece aos encontros promovidos pelos colegas, apenas como espectador. Mas não é a mesma coisa. Descobriu que ser o único são numa mesa de bar tira toda a graça da brincadeira.

Hoje o Everson é um outro homem: vive uma vida regrada, só toma água, come apenas alimentos saudáveis, perdeu peso, arranjou uma bela namorada, passou a aproveitar melhor seu tempo, prosperou profissionalmente e etc, etc, etc...

Mesmo assim, há quem diga que às vezes é possível encontrá-lo num canto qualquer, chorando feito criança, com saudades de seus tempos de boêmio.

Pobre Everson... Que mundo cruel!

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Ódio

Conheceu-a numa festa. Tinham uma amiga em comum que lhes apresentou um ao outro, achando que a dupla combinava. Mas ele não achou. Não era feia, mas tinha algo nela (nem ele sabia dizer o que) que tinha lhe despertado uma intolerância ímpar. Não era nem antipatia. Odiou-a de uma vez.

Semanas mais tarde, por uma dessas ironias do destino, descobriu que não só trabalhavam na mesma empresa, como dividiriam o mesmo setor. Os cargos eram parecidos, e exigiam colaboração mútua.

A convivência diária só fez aflorar ainda mais repugnância de sua parte para com ela.

Odiava o jeito que ela lhe dizia “bom dia” pela manhã. Odiava a forma como sua voz esganiçada tomava conta de todo o ambiente inundando seus ouvidos. Odiava seus comentários a respeito de qualquer coisa, fosse um assunto ligado ao trabalho ou não. Odiava sua pretensiosidade oculta, seu ego inflado que fazia questão de esconder de todos com falsos sorrisos inocentes. Odiava a maneira paciente com que lhe dava conselhos técnicos sobre a empresa, tratando-o como um ignorante qualquer. Odiava o seu olhar moralista que parecia sempre fazer questão de analisá-lo após cada atitude. Odiava a simpatia complacente e consoladora que manifestava, quase que por pena, após suas falhas. Odiava suas congratulações efusivas, obviamente falsas, após cada um de seus acertos. Odiava a maneira com que ela agia nas negociações do trabalho, dando sempre a entender que não confiava nele. Mas, acima de tudo, odiava ouvir dos demais colegas que eles faziam uma grande dupla, e que a empresa tinha conseguido ótimos resultados graças ao esforço conjunto deles. Odiava ter que dividir os seus méritos com aquela mulher.

Um dia (por pura formalidade, deduziu) ela o convidou para um encontro com alguns conhecidos. Sentiu náuseas quando ouviu o convite. Odiava pensar na hipótese de ter que transformar sua noite de descanso numa tortura semelhante a que tinha todos os dias durante o horário de trabalho. No entanto, odiava ainda mais dar a ela a oportunidade de classificá-lo como um chato que vivia enclausurado em casa.

Aceitou o convite.

Encontraram-se num bar ele, ela e uns conhecidos. Pediram umas cervejas e começaram a conversar. Odiava ter de escutar seus comentários fúteis. Odiava a forma irônica com que defendia seus argumentos, quase que desmoralizando seus parceiros de conversa. Odiava o sorriso entreaberto de satisfação que manifestava após cada colocação bem sucedida.

Entediado, tentou puxar assunto com os outros colegas de mesa, mas não conseguiu. Odiava a forma como ela falava alto e monopolizava as atenções. Tentou deixa-la sem argumentos, ousou questiona-la. Foi vencido. Odiava admitir que ela tinha se mostrado mais esperta que ele. Lhe odiava ainda mais por isso.

Sem ter o que fazer, passou a observá-la, como que tentando encontrar alguma coisa digna de empatia, mesmo apostando com si mesmo que isso era impossível.

Não encontrou.

Odiava o seu cabelo: liso, bicolor e cheio de pontas duplas. Tão opaco quanto os seus olhos negros. Odiava a geometria de seu rosto, que era plano, quase que esquadrinhado numa prancheta. Odiava seu corpo esguio, sem grandes atrativos exceto os seios, cujo tamanho avantajado destoava do resto de seu corpo. Gostava de seios, mas odiava corpos desproporcionais. Odiava a forma com que caminhava, quase que rebolando, numa marcha semi-ritmada que se fosse de outra pessoa talvez que despertasse risos, mas que no caso dela só lhe gerava ainda mais antipatia. Odiava também a forma com que usava as mãos de forma expansiva e escandalosa para gesticular enquanto falava. Só não odiou o fato de constatar que não existia nada nela que não lhe irritasse. Odiaria descobrir que estava errado.

Já em casa, tentou dormir, mas o sono não vinha. A voz chata da colega de trabalho ecoava em sua cabeça como um arranhar de unhas num quadro negro. Odiava lembrar do dia horrível e humilhante que tinha tido graças a ela. Odiava imaginar que teria que encontrá-la novamente pela manhã.

Ódio. Puro e simples ódio.

Perguntou a si mesmo porque ela o incomodava tanto. Sua intolerância transcendia os limites normais que conhecia. Odiava sua personalidade, sua aparência, seus conhecimentos... Sentia-se fraco diante de tanta repulsa.

Refletiu, refletiu e refletiu.

Concluiu que nunca tinha tido um sentimento tão forte, mesmo ruim, por ninguém antes. Odiá-la, de certa forma, dava um sentido a sua vida.

Devia ser amor.

Namoraram, casaram-se e tiveram três filhos... Mas ele continuou odiando-a secretamente durante todos aqueles anos. Odiava sua comida, odiava o sexo com ela, odiava acordar ao seu lado todos os dias, odiava ver a forma como ela educava os filhos, odiava ouvir suas histórias, odiava dividir um mesmo teto com ela...

E, acima de tudo: odiava admitir, mas faziam um belo casal.

domingo, 8 de junho de 2008

Histórias insólitas de um dia dos namorados qualquer

Depois de muito refletir, a Tânia chegou a uma decisão: não daria nenhum presente pro Josué no dia dos namorados.

Não, eles não estavam brigados. Explica-se:

A Tânia foi arrebatada pelas opiniões polêmicas e o jeitão sério de falar do Josué. O Josué ficou fascinado pelo olhar atento e a candura inocente da Tânia. Não demorou muito, e eles engataram um romance que os amigos de ambos classificaram como “improvável”. Ela, uma consumista desenfreada. Ele, um idealista, com fortes inclinações ao socialismo.

Mas contrariando todas as apostas, três anos já tinham se passado, e nada do romance enfraquecer. Era uma dupla estranha, mas feliz.

No primeiro dia dos namorados que passaram juntos, ela fez questão de comprar-lhe um belo presente: um relógio, lindíssimo, que tinha lhe consumido quase quatro meses de economia do salário. Era caro, mas segundo ela o investimento valia a pena. Amava o Josué de verdade.

Ele não lhe deu absolutamente nada. Agradeceu, mas argumentou que o dia dos namorados não passava de uma data feita para os comerciantes lucrarem. Que toda aquela aura de romantismo espalhada pela mídia nada mais era do que uma forma deslavada de manipular a classe trabalhadora, obrigando-a a consumir ainda mais. Amava ela, mas não poderia ir contra seus próprios pontos de vista.

A Tânia, apesar de um pouco desapontada, entendeu. Sabia que estava sujeita a situações como aquela. Mesmo assim, no ano seguinte, repetiu o gesto de lhe dar um presente na data. Ele novamente agradeceu, e fez o mesmo discurso, desculpando-se por não lhe dar nada e justificando sua atitude como uma forma de protesto.

No ano seguinte a Tânia resolveu aderir. Era no mínimo um desrespeito de sua parte ir contra os preceitos filosóficos do homem que amava. Se ele achava o dia dos namorados uma data criada com o único objetivo de influenciar o consumismo, teria o seu apoio naquele ano. Ia provar de uma vez por todas que ela entendia o seu namorado.

Mas, ele não entendeu. Quando a Tânia disse que naquele ano não lhe daria nenhum presente, o Josué protestou.

-Poxa amor... Eu achei que você gostava de mim!

-Ué... Você sempre me falou que o dia dos namorados era uma besteira, uma data criada pelos capitalistas para influenciar o consumismo. Só resolvi seguir os seus pontos de vista.

-Mas esses são os meus pontos de vista, não os seus.

-Mas Josué...

-Me deixa sozinho, vai. Por favor.

A Tânia, completamente perdida com a situação, atendeu o pedido do namorado. Quem sabe depois de um tempo a sós ele colocasse a cabeça o lugar.

O Josué, sozinho, cochichava para si mesmo, reflexivo:

-Que traição meu Deus, que traição!

Homens... Quem entende?


***

25 anos de casamento e eles, a Nilma e o Haroldo, nunca tinham deixado de se presentear no dia dos namorados. É verdade que a paixão tinha esfriado um pouco (para não dizer muito) nos últimos tempos, mas aquele gesto de carinho continuava sagrado.

Só que naquele ano algo deu errado.

-Toma amor... É pouquinho mas é de coração.

-Ô Haroldo... Brigada.

-O que é isso, imagina!

Enquanto a Nilma abria o presente, um pacote vermelho cuidadosamente embrulhado, o Haroldo se deu conta do erro terrível que tinha cometido. Aquele não era o embrulho do suéter tamanho GG que tinha comprado no brechó da esquina, mas era...

-Amor?! Uma lingerie??

-Éééé... Sim! Uma lingerie! Gostou?

-Mas Haroldo... Faz quase 15 anos que eu não uso uma dessas.

-Pois é. Mas eu... Eu... Eu achei que seria legal fazer isso, sabe? Para relembrar os velhos tempos!

-Mas ela é muito... Sei lá... Ousada! Isso daqui é totalmente transparente, e faz pelo menos cinco anos em que a gente só transa no escuro, que é para não termos, segundo você mesmo, uma visão desagradável. E o que são esses zíperes aqui? É no mínimo estranho uma mulher da minha idade usar uma coisa dessas.

-Não diga isso. Você está... Super em forma!

A Nilma estava desconfiada.

-Tá, ok. Mas você não acha que ela vai ficar um pouquinho apertada?

-Ah... Imagina! Acho que serve sim.

-Haroldo: eu não conseguiria entrar numa dessas nem antes da gente ter se cassado, quanto mais agora. É muito pequena para mim...

-Lógico que não. É que o... O... O modelo dela é assim mesmo, é feita pra ficar bem colada no corpo. Para realçar suas “curvas”.

-Curvas? Eu vou ficar parecendo uma ogiva nuclear. Não dá pra entrar! É fisicamente impossível.

-Sério? Bem, devo ter me confundido com o tamanho. Você sabe como eu sou ruim com essas coisas.

-Haroldo, fala a verdade: esse presente não era para mim, não é?

Ele fez cara de ofendido.

-Como assim? Como é que você tem coragem de insinuar uma coisa dessas Nilma? Ô Nilma... É esse o juízo que você faz de mim?

-Não sei. Sinceramente não sei. Eu achei que o homem que estava casado comigo a tanto tempo iria no mínimo deduzir que eu não entraria numa lingerie vermelha tamanho M desde a década de 80.

-Ok, eu errei. Desculpe. Deve ter sido um lapso momentâneo.

-Sei...

-Um homem apaixonado não pode se confundir de vez em quando, hein? É crime querer agradar a própria esposa, tentar reascender a chama do amor que está se apagando cada dia mais?

A Nilma resolveu relevar a situação. Afinal de contas, o Haroldo era o Haroldo.

-Ok Haroldo, ok. Obrigado pelo presente. Mas eu vou ter que ir trocar isso na loja.

-Tá bom. Sem problemas amor.

O Haroldo suspirou aliviado, mas agora tinha novos problemas. Teria que explicar pra Manoela, a verdadeira dona da lingerie, que ela teria que esperar um pouco mais para receber o seu presente. Isso sem contar que a partir de agora, todas as suas supostas saídas com os amigos seriam supervisionadas de perto pela dona Nilma. Todo cuidado seria pouco.

Mas o pior nem era isso. Chato mesmo seria ter que observar a patroa na lingerie que ele tinha lhe dado por engano. Mas ele ainda tinha esperança:

-Quem sabe, se eu sugerir, eu convença ela a trocar a lingerie por um chambre ou umas pantufas?

***

-Uma batedeira?

-Ué, não gostou?

-Claro que não!

-Mas a vendedora me garantiu que era a melhor que tinha. Ela tem quatro velocidades diferentes e...

-Eu lá tenho cara de quem gosta de receber eletrodomésticos num dia dos namorados, Armando?

-Mas veja bem: é um item doméstico importante.

-Essa não é uma data pra isso. E nós somos namorados. A gente nem vive junto. Pra que cargas d’água eu vou usar uma batedeira? Eu nem pudim de caixinha sei preparar!

-Eu ia te comprar um vestido, mas sei lá... Achei que você ia gostar da batedeira!

-Pelo amor de Deus, né Armando? Vê lá se isso é coisa que se dê de presente.

-Mas dá pra trocar. Se você quiser, a moça falou que você pode pegar um liquidificador, um ferro de passar ou um espremedor de laranjas em troca.

-Puta que pariu Armando!

-Que foi que disse?

-Você não tem noção nenhuma, não é?

-Desculpe. É que eu fiquei nervoso. É o nosso primeiro dia dos namorados juntos. Eu sou péssimo em dar presentes. Fiquei inseguro. Achei que você ia gostar.

-Ok, desculpe. Eu sei que você não fez por mal. Homem sempre é, sem ofensa, meio ignorante pra presentear mulher.

-É, eu sei. Desculpe. Prometo que vou comprar alguma coisa do seu agrado.

-Não precisa.

-Precisa sim, eu insisto. É o nosso primeiro dia dos namorados juntos, tenho que caprichar.

-Você que sabe.

-Imagina, faço questão. A batedeira eu dou pra mim mãe, sei lá.

-Então tá... Ah sim: toma o seu presente. Feliz dia dos namorados!

-Ô amor, não precisava...

-Lógico que precisava.

-Hehehe. Obrigado mesmo. Vamos ver o que é...

-Algum palpite?

-Não sei. Pelo tamanho do pacote, pequenininho, deve ser alguma coisa cara.

-Mais ou menos.

-Deve ser um... Um... Ah... Puxa... Um par de meias...

-E então? Gostou??

-Ô!

-Pois é... Tinha certeza que você ia gostar. É de lycra.

-Sério? Bacana...

-E então? Não vai experimentar?

-Não precisa não... Tenho certeza que vai servir.

-Que foi? Você parece tão desanimado.

-Não, não... Impressão sua.

-Já sei: deve estar chateado por não ter acertado o presente para mim. Não fica assim amor... Nem todo mundo sabe escolher algo bacana. Mas isso não quer dizer nada. Nem todos são tão bons nisso quanto eu.

O Arnaldo deu um sorriso amarelo. Pensou em dizer o que sentia, mas deu de ombros, afinal de contas, coitada, ela certamente não agüentaria a verdade. É como dizem: "os grandes romances não são feitos pelas declarações de amor proclamadas aos quatro ventos, e sim pelos impropérios guardados a sete chaves."

-Pois é amor... Pois é!

E viveram felizes para sempre.

domingo, 13 de abril de 2008

Status

Abre aspas. Uma das melhores definições não oficiais que eu já li sobre uma determinada coisa é a da palavra status, feita por algum anônimo. Ele é mais ou menos assim: “Status é comprar uma coisa que você não quer, com um dinheiro que você não tem, para mostrar para gente que você não gosta, uma pessoa que você não é”. Se alguém descobrir quem escreveu isso, favor avisar que eu dei-lhe os cumprimentos pela frase. Posto isso, vamos à história propriamente dita.

***

Escritório. Amigos reunidos. Celulares em punho. Assunto em discussão: toques dos aparelhinhos e o eventual sucesso que fazem com quem por ventura ouvisse o som.

-O meu toca Funk. Sabe o “Créu”? Então... A mulherada gosta!

-Bacana...

-O meu é Beatles. “Love Me Do”. Sabem qual? É só tocar, que o pessoal pede para repetir.

-Ah... Beatles é Beatles, né?

-É sim! Não tem quem não goste.

-Já o meu toca Beethoven. A nona sinfonia. Já deixei de atender a ligação uma porção de vezes porque tenho dó de interromper.

-Faz bem. Música assim a gente não pode parar.

-Concordo.

-O meu tem punk, hardcore, metal... Toca de tudo! Mudo o toque de acordo com o meu humor.

-Ah é? E hoje? Que toque você escolheu?

-Wando!

-Xiiii...

-Eu coloco uma música diferente para cada pessoa. Assim já sei quem está ligando, antes de olhar pro identificador de chamadas.

-Sério? Então me esclareça uma coisa: ontem eu ouvi que o seu celular tocou a música tema daquele filme... “Jurassic Park”! Desculpe perguntar, mas quem era?

-Minha sogra!

-Ah Sim! Faz todo sentido!

-E você Jadilson? Seu celular toca o quê?

-Ah, vocês sabem: aquele tradicional!

-Como assim “tradicional”? Qual é?

-Aquele... “trim, trim”!

-“Trim, trim”?

-É! Igual todo telefone antigo fazia!

O pessoal se entreolhou.

-Porra Jadilson! Isso lá é celular que se apresente?

-Ué? Porque?

-Ah Jadilson! Faça-me o favor! Vê se toma vergonha nessa cara e compra um aparelho decente!

O Jadilson não entendeu a súbita mudança do comportamento dos colegas para com ele. Tentou esclarecer os motivos, mas tudo o que ouviu foi que seu status dentro do grupo estava em baixa.

Também, quem mandou não caprichar no celular?

Nomes

Certo dia alguém olhou para sua cara, na época diminuta, e concluiu que você, aquele joelho com olhos, se chamaria...

Sim, o nome é uma das muitas coisas da vida que nós simplesmente não podemos escolher. Pelo menos não, sem um bom advogado. De fato, se houvesse justiça, jamais teríamos nossas alcunhas escolhidas por nossos pais. Eles nos chamariam por codinomes como “Filho Número 1”, “Fulaninho”, “Coisinha”, ou, em último caso, o já tradicional “Ei, você!”, até que tivéssemos discernimento e sabedoria suficientes para que pudéssemos escolher nossas próprias denominações. Ou seja: lá pelos 50 anos de idade.

Que fique claro: não digo isso por insatisfação própria. Sou um feliz proprietário de um nome composto: José Luiz , vulgo Zé. Não poderia existir melhor alcunha para me definir. Afinal de contas, apesar de eu ser fisicamente parecido com o rapaz, acho que “Brad Pitt” não tem muito a ver com o meu estilo.

Mas volto a minha defesa original: existem nomes que simplesmente não deveriam existir. Não sem o consentimento do dono, o pobre infeliz que tem que sofrer com a conseqüência da mente inventiva dos pais. Sim, eu disse sofrer.

Acreditem ou não (se eu fosse vocês, não acreditaria), existem estudiosos ao redor do mundo que analisam o papel social e a influência psicossomática que um determinado nome tem sobre seu dono. Para facilitar o entendimento do grau de influência de cada tipo de estirpe, estes cientistas criaram categorias específicas, as quais tentarei exemplificar adiante.

Vou apresentar apenas alguns dos gêneros existentes. A variedade é infinita, não teria como esmiuçar tudo. Mesmo assim, dá pra ter uma idéia das principais.

Para começar, vamos tratar daquele que é considerado o caso mais típico de todos: o nome feio, ou, na denominação cientifica, a “nomenclatura exótica”.

***

A Joana estava em polvorosa com a novidade. Para conta-la, reuniu as duas facções da família (a dela e a do recém adquirido marido) e declarou:

-Estou grávida!

A emoção foi enorme. A família inteira entrou em festa com a notícia. O Célio, marido da Joana, chorava copiosamente de felicidade em função da novidade recém contata pela esposa. O novo rebento estava à caminho.

Depois que os ânimos já estavam mais controlados, uma pergunta foi inevitável:

-E qual o nome que vocês pretendem dar à criança?

-Se for menina, vai ser Marina!

Todos suspiraram. Era uma bela escolha, um lindo nome.

-Adorei! – Disse a vó.

-Pois é... E se for Menino será Nabucodonosor!

Silêncio. Boa parte dos presentes ficou sem reação diante da revelação. Um tio da Joana chegou a gargalhar, achando que tratava-se de uma piada.

-Hahahaha... Essa minha sobrinha é uma piadista!

Mas não era gozação. A Joana estava falando sério, e parecia ter o consentimento do marido. O resto da família, escandalizada, tentou intervir... Com jeitinho:

-Ahhhh... Bacana! Mas, assim, só para garantir, você não acha que esse vai ser um nome meio... Como é que eu posso dizer? Meio exótico demais para uma criança?

A Joana pensou um pouco.

-Não... Acho que não!

-Mas Joaninha, pense bem: como é que você acha que os coleguinhas vão chama-lo no colégio? Nabuconodosor é um nome meio difícil pra uma criança pronunciar. Eu mesma estou me enrolando!

-Imagina tia! Já pensei em tudo. Eles vão chama-lo de “Nabu”! Vai ser o apelido dele!

O vô, que até então observava a tudo sem se manifestar protestou pela primeira vez:

-Ótimo! Meu neto agora vai ter apelido de raiz comestível!

-Vai ser “Nabu”, não “Nabo”!

-E você acha que alguém vai notar a diferença? Vocês não vão botar esse nome na criança de jeito nenhum!

-Mas vô: é um nome bíblico!

-Pedro, José e João também são... É só mudar!

A Joana protestou:

-O filho é meu, sendo assim, ponho o nome que eu quiser!

Guerra na família. Protestos por todos os lados. No fim da briga chegou-se a conclusão de que ninguém iria interferir na escolha dos pais, desde que eles tivessem o bom senso de tornar o nome composto, acrescentando mais uma alcunha para popularizar mais o nome do menino. Algo como “João Nabuconodosor” ou “Júlio Nabuconodosor”.

Mesmo assim, depois daquele dia, a torcida geral foi pelo nascimento de uma menina.

***

Outra categoria são a dos pais que resolveram homenagear seus ídolos.

***

O rapaz chega na portaria de um prédio qualquer. Vai visitar alguém no 3º andar. O porteiro pede para ele preencher uma ficha.

-Preciso do seu nome, por favor.

-Martin Luther King de Almeida!

-Hahahahaha... Muito bom! O Senhor é um cara bem humorado, né? Deu pra perceber...

-Acho que sim! Hehehe

-Pois é! Gosto de gente assim, gente que costuma fazer piada.

-Ah... Legal! Eu também!

-Bacana... Mas falando sério agora: qual seu nome?

-Martin Luther King de Almeida.

O porteiro, repentinamente, fica sem ação.

-Você estava falando sério? Esse é o seu nome?

-Sim!

-Pelo amor de Deus, me desculpe! Achei que...

-Não, imagina! Não precisa se desculpar! Acontece o tempo todo. Eu não ligo. Até acho engraçado, sabe? Meu pai é muito fã daquele período histórico. Resolveu homenagear o Martin no nome do filho.

-Entendo!

-No fim das contas não deixa de ser um orgulho ter o nome dele, né? Foi um grande homem!

-Poxa vida! Mesmo assim, me perdôe...

-O que é isso! Tá perdoado.

-Que bom, que bom. Mas, assine aqui, por favor!

-Ok!

-Ótimo! Pode ir...

-Muito obrigado senhor... Senhor...

-Pode me chamar de você! Me chamo Tonico... Tonico Tinoco da Silva!

-Ah... Muito prazer!

-O prazer é meu senhor Martin!

-Seu pai gostava de música sertaneja?

-Como é que você adivinhou?

***

Outra categoria é a dos nomes constrangedores... Nem tanto para o dono, mas principalmente para quem é obrigado a pronunciá-lo.

***

O chefe do Luiz chama-se André. André Paixão. Como já existiam outras dúzias de André’s na empresa, habituaram-se a chama-lo de Paixão.

Pegava mal, todo mundo sabia. Mas com o tempo ficaram tão acostumados que passaram a ignorar o duplo sentido intrínseco existente.

Mesmo assim, o Luiz não contava com o mal entendido:

-Alô? ... Fala Paixão! ... Ah, ok! Pode deixar que eu passo lá! ... Meu carro tá na oficina, mas eu pego o da minha esposa! ... Ok, paixão! ... Deixa comigo paixão! ... Até daqui a pouco! Tchau!

Maria, a esposa do Luiz, que ouvia a tudo num cantinho escondida, interpretou errado o conteúdo da ligação.

-Seu pilantra!

-Oi amo...

-Amor o cacete, desgraçado! Pensa que eu não ouvi você conversando com uma vadia no telefone?!

-Não é nada disso que você está pensando...

-Pensa que eu sou burra? E o pior é que você estava chamando ela de “paixão”! Como é que você teve coragem? E ia levar a piranha pra passear no meu carro!

-Você está enganada!

-Eu não sou burra, Luiz! Burro é você que achou que ia me enganar por muito tempo!

O Luiz tentou se explicar:

-Escuta amor... Você não está entendendo! O Paixão é homem!

Depois disso a Maria, que quase desmaiou com a revelação, pegou as malas e saiu de casa antes que o Luiz conseguisse desfazer o equívoco.

O assunto foi esclarecido, mas a história acabou se espalhando, inclusive dentro da empresa. Antes de conhecer todos os detalhes, o Paixão, chefe do Luiz, chegou a dar uma bronca:

-Porra Luiz! Como é que você apronta uma dessa com sua mulher? Aqui a gente valoriza a família!

***

E, para terminar com esta analise científica semi-pormenorizada da influência social das alcunhas pessoais na vida dos seres humanos, abordaremos uma das categorias mais interessantes: os nomes perigosos. Sim, perigosos. Aquele cujos portadores correm riscos apenas por pronunciá-los.

Esse é o caso do Abuda.

***

O Abuda voltava para casa, altas horas da noite, quando percebeu uma confusão próxima dali. Ouviu discussão, xingamentos, e logo viu uma correria. Não demorou muito e uma viatura policial chegou ao local.

Os policiais foram informados que um baderneiro puxou briga com alguns transeuntes, agrediu um deles, e logo depois tentou fugir. A descrição era de um rapaz jovem, com cerca de 25 anos, alto, cabelos negros trajando uma camisa branca e uma calça verde. Por ironia do destino, essa descrição batia exatamente com a do Abuda, que não tinha nada a ver com a história, mesmo passando ali por perto.

Vendo que a descrição do suspeito era exatamente igual com a do rapaz que perambulava pela rua, o policial não teve dúvidas: desceu correndo da viatura e mandou o rapaz levar as mãos à cabeça.

-Ei, você! Mão na cabeça, mão na cabeça!

O pobre Abuda, assustado, atendeu prontamente a ordem.

-Ok, ok. Vamos com calma.

-Calma o cacete vagabundo, calma o cacete!

-Desculpe... Foi mal!

-Cale a boca! Só fala quando eu mandar!

Nessas alturas o pobre rapaz já estava apavorado. Sabia que não tinha feito nada de errado, mas era óbvio que tinha sido confundido com alguém. O policial estava sendo truculento demais se não tivesse algum motivo específico que o levasse a crer que ele tinha feito alguma coisa errada.

-Qual que é o teu nome?

-O quê?

-Teu nome!

-Nome? Abuda! Abuda senhor!

-Como é que é? Minha bunda? Tá me xingando vagabundo?

-Não! Meu nome é Abu...

-Tu tá preso engraçadinho!

-Mas eu...

-Cale a sua boca suja ou vai tomar bordoada.

Na delegacia, o Abuda foi indiciado e preso. A acusação: desacato a autoridade. Segundo o relato do policial ele teria dito palavras obscenas ao ser questionado sobre seu nome.

No fim das contas, tudo acabou bem. A situação foi esclarecida depois da chegada dos advogados.

Mesmo assim, o Abuda estava inconformado:

-Puta que pariu! Meu nome ainda me mata!

domingo, 16 de março de 2008

Nogueira, o mito

Ninguém tinha entendido como o Nogueira, justo o Nogueira, tinha conseguido conquistar o coração da Helena. Ele, que nunca tinha sequer completado o ensino fundamental, estava namorando uma mulher que já era quase doutora.

Não que escolaridade sirva de parâmetro para regular “quem pode namorar quem”, mas a união dos dois era no mínimo improvável, sobretudo se levarmos em conta que o rapaz era um verdadeiro troglodita com pedigree. Nem a própria Helena sabia explicar direito como tinha se deixado conquistar pelo Nogueira:

-Sei lá... Ele é engraçado!

Mas, engraçado mesmo foi observar o exercício intelectual do Nogueira num almoço de confraternização promovido pela família de sua namorada.

Ao redor da churrasqueira, tios, primos, pai e demais familiares da Helena, todos mestres e especialistas em alguma área de estudo específica, conversavam animadamente sobre todo tipo de assunto: economia, filosofia, história, sociologia, física... Em alguns momentos, o debate ficava tão acirrado que uma pequena força tarefa composta pelos debatedores menos exaltados tinha que intervir para evitar que alguns deles saíssem no tapa em defesa de seus pontos de vista.

Apesar da “rivalidade”, os encontros daquele tipo já eram tradicionais na família, bem como os diálogos acalorados que, apesar de tudo, sempre terminavam em boas risadas.

O Nogueira assistia a tudo quieto, com um sorriso amarelo. Sentia-se como um peixe fora d’água. No fundo, ainda mantinha a esperança de que hora ou outra alguém entrasse em um assunto que ele tivesse alguma intimidade.

No entanto, o tempo passava, e nada do Nogueira conseguir destilar seu conhecimento sobre os assuntos que lhe eram familiares.

Foi logo depois de uma explanação de um tio da Helena, mestre em história, sobre os motivos do declínio do Império Romano que o Nogueira, já cansado do papel de figurante na conversa, resolveu entrar no papo com estilo:

-Pois é... Falando nisso, vocês sabiam que o Nero botou fogo em Roma enquanto fazia um churrasco? Ouvi dizer que ele exagerou no carvão, e, quando viu, já tinha pegado fogo em metade do lugar!

Ninguém entendeu ao certo se o Nogueira tinha feito uma piada ou não. Por via das dúvidas, todos riram. A Helena, desesperada com a demonstração dos conhecimentos históricos do namorado, fez questão de tirá-lo imediatamente da roda antes que alguém procurasse interrogá-lo a fim de descobrir maiores detalhes sobre a sua exótica teoria.

O Nogueira protestou:

-Pô, amor! Agora que eu estava começando a me enturmar você me tira de lá?! Pré-história é o meu forte!

A Helena permitiu que o Nogueira voltasse para a roda de conversa, mas apenas depois dele prometer que não abriria mais a boca sob hipótese alguma.

No fim das contas, depois de cada assunto debatido, o Nogueira apenas fazia uma cara reflexiva e balançava a cabeça afirmativamente, ou não. Os tios da Helena ficaram impressionados com a capacidade de análise do rapaz que, mesmo sem dizer nenhuma palavra, aparentava, só pela fisionomia, estar interado sobre todos os assuntos debatidos pelos doutores presentes. Chegou a virar uma espécie de oráculo:

-Então você realmente acha que a deriva genética, aquela que controla a freqüência alélica dos indivíduos, teve um papel fundamental na teoria da evolução humana?

O Nogueira fez uma careta, pensou, pensou, e, com um ar de superioridade balançou a cabeça afirmativamente como quem diz: “é evidente que sim!”

Sensação ao redor da churrasqueira. De uma hora para outra tinham descoberto que estavam diante de um intelectual dos mais conceituados, um Charles Darwin do século XXI. Para eles o Nogueira era polêmico, ousado e questionador... Mesmo sem abrir a boca.

Ao fim do evento, todos os parentes da Helena fizeram questão de apertar a mão do Nogueira e convidá-lo para fazer uma visita a fim de “conversar” melhor sobre algumas das tantas teorias debatidas.

A Helena mal podia acreditar no que estava vendo. O namorado, de figurante, tinha virado protagonista do bate papo.

-Ei! Amor?! Já posso falar agora?

O Nogueira, quem diria, virou mito.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Alcachofra

Ao contrário de toda sexta-feira a noite, quando o Márcio chegava em casa todo feliz depois da já tradicional ida no bar com os amigos, dessa vez ele estava meio esquisito: quieto, desanimado... Mais reflexivo que o comum. A Luiza estranhou:

-Aconteceu alguma coisa, Márcio? Você está estranho desde que chegou. Não disse uma palavra!

-Aconteceu sim!

-O que houve homem de Deus?

-A alcachofra Luiza, a alcachofra!

O Márcio explicou o ocorrido: é de conhecimento público que toda conversa de bar entre homens tem quatro fases distintas que se sobrepõe à medida que o número de garrafas vazias sobre a mesa aumenta. A primeira diz respeito aos assuntos do trabalho. A segunda, que só é alcançada depois de umas duas doses de cerveja, trata do futebol. Na terceira, as mulheres passam a ser o assunto principal na mesa, quando, finalmente, depois de uma dúzia de chopps somadas a intervenção de algumas generosas doses de whisky e vodca, chegamos até a quarta fase, conhecida como a das “filosofias de botequim”. Nesse estágio, tudo pode virar assunto (e geralmente vira): desde a política econômica do governo até a cor do cabelo do garçom.

Foi mais ou menos nesse período que os amigos do Márcio começaram a falar de um tema relativamente inusitado: as alcachofras.

O Daniel comentou, meio ao acaso, que sua mulher tinha cozinhado uma dúzia de alcachofras, todas maravilhosas, no dia anterior. Já o Fábio reclamou que sua esposa não preparava alcachofras a pelo menos um ano. O Tavares por sua vez, descreveu com “requintes de crueldade” uma alcachofra com molho de manteiga, divina, que tinha degustado certa vez num restaurante em São Paulo. Comoção geral. O testemunho do Tavares arrancou suspiros de toda a mesa, exceto do Márcio. De uma hora para outra, tinha se dado conta: jamais tinha comido uma alcachofra na vida!

-Tá... Mas por que diabos você está triste? Isso eu ainda não entendi!

-E não é óbvio, Luiza?

-Não!

-Ora: você não vê? Eu tenho quase 40 anos e nunca pus uma alcachofra na boca!

-Tá, e daí?

-Que tipo de pessoa tem a minha idade e ainda não comeu uma alcachofra? Entende? Isso mostra como minha vida é vazia! Como eu perdi tempo com coisas inúteis! Como eu deixei de aproveitar os prazeres mais básicos da minha existência!

-Mas...

-E tem mais Luiza: as alcachofras precisam ser comidas rápido, você sabia? Eu andei pesquisando. Elas têm toxinas! Quer um simbolismo maior do que esse? Se a gente não aproveita a vida rápido, se a gente não come logo a alcachofra, ela perde o sentido, fica imprópria para o consumo... Se torna venenosa!

-Mas se esse é o problema, eu posso comprar umas alcachofras amanhã e preparar para você!

-Não é isso! A alcachofra é só uma metáfora! Um símbolo do vazio que a minha vida se tornou!

-Sua vida não é vazia, Márcio!

-É vazia sim, Luiza!

-Você está exageran...

-É VAZIA LUIZA!!!

A Luiza demorou um pouco para dissuadir o marido da idéia de largar tudo para ir morar em uma chácara qualquer, no meio do nada, lá no interior. Segundo ele, iriam “viver de amor”. Disse que os filhos já estavam grandes, tinham 17 e 13 anos, podiam se virar sozinhos na cidade grande.

Só quando Márcio já estava colocando uma placa de “vende-se” no quintal, foi que sua esposa conseguiu convencê-lo a permanecer ali, alegando que “não teriam TV a cabo no meio do mato”.

No dia seguinte, só por garantia, a Luiza escondeu o caderno de culinária do jornal que trazia uma receita de “Couve-de-Bruxelas ao Fricassê”.

Sabem como é: melhor prevenir!

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Frescuras

A história a seguir parece ser engraçada. Só parece. Ela relata a trajetória de um homem normal, assim como eu e você. Um homem normal, com uma característica incomum. Algo que algumas pessoas podem classificar simplesmente como uma mera frescura, mas que no fundo não é.

O Samuel, vulgo Samuca, era um cara comum. Bem apessoado, inteligente, articulado... Um típico exemplar daqueles que as mulheres em geral costumam chamar de “bom partido”. Mas do alto de todas as suas virtudes, o pobre rapaz tinha um ponto fraco. Uma excentricidade específica que já tinha feito com que ele terminasse inúmeros relacionamentos, todos pelo mesmo motivo: o “ai guria!”.

Para quem nunca ouviu a expressão, o “ai guria” geralmente é dito durante um diálogo protagonizado por duas mulheres. Uma espécie de recurso lingüístico usado como prenúncio de “grandes acontecimentos”. Um exemplo? Lá vão três:

-Ai Guria! Você não sabe com quem eu falei hoje!

-Ai Guria! Estou tão feliz!

-Ai guria! O que eu faço?

Para o Samuca o “ai guria”, mais do que uma simples frase, era a representação lingüística da futilidade de todo o hemisfério ocidental. Era praticamente impossível ele ouvir o “ai guria” sem sentir um calafrio subir sorrateiro por sua espinha e uma vontade incontrolável de arrancar os próprios cabelos. Inclusive, o “ai guria” não só podia, como já tinha destruído alguns de seus relacionamentos.

O momento em que o “trauma” começou, nem ele sabe dizer. Lembra-se apenas das conseqüências iniciais de sua intolerância à frase.

A primeira vez que algo grave aconteceu foi com a Marcinha. Moça alegre, sorridente. Meiga do dedão do pé ao último fio de cabelo. Começaram a namorar meio que ao acaso, depois de uma festa de fim de ano. Parecia ser um romance com boas chances de prosperar. Por coincidência foi logo depois de outra festa que tudo acabou. O Samuca escoltava a Marcinha enquanto ela levava um bate-papo animado com algumas amigas. Foi então que, meio distraída, disparou:

-Ai guria! Você tinha que ter visto a cara que ela fez!

Vocês tinham que ter visto a cara que o Samuca fez, isso sim. Aquílo tinha doído na sua alma. Sentia-se do lado de um monstro.

Alguns minutos depois ele deu um jeito de levar a Marcinha num canto isolado para, nem ele sabia explicar direito o por quê, terminar tudo. Foi a primeira vez que o “ai guria” tinha acabado com um de seus namoros.

Na segunda vez, o processo foi ainda mais traumático. O Samuca tinha conhecido uma garota fantástica, a Flávia. Ambos eram quase feitos um para o outro. A empolgação com era tanta que ele próprio tinha tomado a iniciativa de pedir sua mão em noivado.

Mas tinha uma coisa que atormentava o Samuel. Será que a Flávia poderia dizer um “ai guria” uma hora ou outra? Gostava dela. Gostava muito. Deus era testemunha do tamanho do carinho que sentia por ela. Mesmo assim não sabia dizer a si próprio como reagiria se tivesse que ouvir da boca da Flávia a expressão que mais abominava no mundo.

Resolveu arriscar. Convenceu a si próprio que a Flávia não seria capaz de tal ato, e resolveu levar adiante o noivado.

O desfecho desse relacionamento ocorreu numa noite em que o Samuca decidiu levar sua futura noiva e o resto de suas famílias para um jantar de confraternização num restaurante da cidade. A Flávia conversava com a irmã do Samuel. Animação total.

-E então Flávia? Muito assustada com o noivado?

-Aaiiiiiii guria! To ansiosa demais!

O Samuca quase caiu da cadeira. Aquílo não tinha sido um “ai guria” comum, tinha sido um “Aaiiiiiii guria”, que tinha um potencial de destruição significativamente maior para seus ouvidos.

Ainda perdido, pediu licença da mesa de jantar e, para surpresa de todos, não voltou mais. Alguns chegaram a cogitar que o motivo do abandono do recinto tinha sido um purê de batatas meio suspeito. Só mais tarde descobriram que o Samuel tinha resolvido terminar tudo... De novo.

Tais acontecimentos fizeram-no reavaliar seus conceitos de seleção. A partir daquele dia ele resolveu fazer uma pré-triagem de todas as suas possíveis futuras namoradas. Tão importante quanto ter bons modos, ser bonita e inteligente uma pretendente não podia dizer, sob hipótese alguma, o “ai guria”. Descobriu que a tarefa era mais difícil do que pensava. O mundo estava tomado pelo “ai guria”. O “ai guria” era dito por todas as faixas de idade femininas (e algumas masculinas também). O “ai guria” era como um daqueles vírus de filmes de zumbis que já tinham contaminado praticamente todos os habitantes do mundo. Achar uma “sobrevivente” ao “ai guria”, não seria fácil.

Foi então que o Samuca conheceu a Joana. Moça fina, inteligente e muito, muito bonita. Mas o melhor nem era isso. Mais do que todas as suas grandes virtudes a Joana se destacava para o Samuel em função do seu repúdio declarado ao “ai guria”. Parecia mentira, mas não era. Logo que soube dos seus problemas com o termo ela não só apoiou o Samuca como se disse atormentada pelo mesmo problema. Só podia ser o destino. Quem diria que existiam duas pessoas nesse mundo que partilhavam do mesmo inconformismo, e, mais improvável ainda: quem diria que elas iriam se encontrar.

As coisas iam tão bem que quando se deram conta, já eram noivos. Agora só faltava o casamento.

Mas a vida... Bem... A vida é irônica.

No dia do enlace, o Samuel e Joana acertavam os últimos detalhes para a cerimônia que aconteceria à noite.

-Está tudo certo então?

-Certíssimo! Já liguei pros meus parentes lá do interior e parece que eles logo chegam!

-Que bom, que bom! E o vestido?

-Prontinho!

-Ufa... Finalmente está chegando a hora! Parece mentira! Mal consigo esperar o momento de ver você dentro dele! Como é mesmo que se diz? “Ai guria! Estou tão feliz!” Hahahaha

-Hahahaha... Não abusa, não abusa!

-Hahaha... Ok, ok! Agora seja uma garota boazinha e venha cá me dar um beijo!

-Vou sim!

-Opa! Peraí... Telefone!

-Tá!

-Alô? ... Tudo bem sim! ... Ah tá, pode deixar! Fique tranqüilo! ... Firmeza mano, firmeza! ... Eu sei, tô ligado! ... Ok, beleza! ... Um abraço!

Silêncio. Enquanto ouvia o Samuel no Telefone a Joana não conseguiu controlar algumas caretas esquisitas.

-Quem era?

-O Beto! Disse que talvez ele se atrase pro casamento!

-Ah tá!

-Que foi? Você parece nervosa!

-Não! Não é nada! Só estou meio... Meio... Sei lá! Esquisita!

-Sei! Tem alguma coisa que eu possa fazer?

-Não! É só eu ficar um pouco sozinha, já passa!

-Então tá! Vou trabalhar nos últimos preparativos e mais tarde a gente se fala, ok?

-Está bem!

Mais tarde, já no altar, o Samuca descobriu que a Joana, a mulher de sua vida, não iria aparecer.

Dias depois ela explicou que descobriu que o relacionamento não daria certo, no dia do casamento. Segundo a Joana, ela não suportava o “firmeza mano”, muito menos o “tô ligado” que para ela significavam a decadência dos bons costumes verbais de toda a sociedade. Como viver todos os dias da vida com uma pessoa que a qualquer momento poderia soltar um “firmeza mano”? Como morar num mesmo teto com alguém que ao invés de dizer “eu sei” poderia optar por um “tô ligado”? E ter filhos então? Como correr o risco de ter os próprios primogênitos usando esses tipos de expressão?

Ele ainda tentou reverter a situação, mas não teve jeito. A Joana estava irredutível.

O Samuca ficou se perguntando que tipo de pessoa teria a coragem de por fim a um lindo futuro só por causa de duas expressões bobas. Chegou à conclusão de que a sociedade estava em decadência, e que ele era uma dos únicos e solitários modelos de conduta que ainda restavam. Uma voz de coerência em meio a tantas frescuras que assolavam o mundo.

Os amigos tentaram consolar:

-Que puta mundo injusto, hein Samuca?

-Tô ligado... Tô ligado!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

80 centavos

O Felipe estava no ponto de ônibus, meio distraído, esperando pela condução que o levaria de volta para casa depois de um dia inteiro de trabalho. Nesse meio tempo, um rapaz meio maltrapilho se aproximou, e pedindo licença começou a contar sua triste (e bem ensaiada) história.

O homem, que se identificou como Adelino, narrou emocionado sua infeliz jornada. O pobre coitado mal tinha chegado na capital, vindo de Queijadinha do Oeste (ou alguma outra cidade do interior com nome parecido) e fora informado que de sua velha mãe tinha sido internada em sua terra natal. Estava, segundo seus parentes, à beira do fim. Em função disso, o pobre Adelino teria que deixar seu sonho de conseguir um bom emprego na cidade grande para outra hora, já que tinha decidido ir ao encontro de sua progenitora. O problema era que, coitadinho, não tinha como pagar a passagem de volta. Sendo assim, explicou que não teve outra alternativa a não ser a de sair pelas ruas pedindo o auxílio de desconhecidos como o Felipe, a quem ele gentilmente solicitou, se não fosse muito incomodo, que lhe doasse míseros 80 centavos, a quantia específica de que precisava para completar o valor de seu retorno à aprazível Queijadinha do Oeste.

O Felipe sabia que a história cheirava à golpe, mas não teve outra escolha a não ser tatear os bolsos e retirar os trocados pedidos pelo Adelino, que quase chorando de alegria agradeceu e se despediu afirmando que, graças ao auxílio do nobre transeunte, ele poderia voltar para casa rever sua velha mãe doente.

Ao se afastar, o Felipe suspirou inconformado com seu próprio coração de açúcar, incapaz de dizer não mesmo quando sua razão dizia para não atender os pedidos daquele que obviamente era um charlatão. Conformado com sua própria covardia, deu de ombros, afirmando mesmo sem muita convicção para si mesmo que ele só tinha “se feito de trouxa” por estar de bom humor. Em outras circunstâncias, não seria assim.

Dias depois, o mesmo Felipe caminhava pela rua meio displicente a tudo quando, para sua surpresa, o mesmo Adelino (aquele que teoricamente ele tinha ajudado a voltar para casa) se aproximou para lhe contar a mesma triste história de antes.

Indignado com tamanha cara de pau (e com a falta de memória) do pilantra, o Felipe decidiu que daquela vez não se faria de besta. Iria reagir. Para se certificar da “escala richeter” de safadeza do Adelino, fez questão de ouvir a história até o fim, para ver se algum detalhe específico destoava do discurso anterior. Tudo igual: Queijadinha do Oeste, mãe doente, pouco dinheiro e 80 centavos para completar a passagem. Até os suspiros e os trejeitos de quem está prestes a cair no choro ele repetiu.

-E então? O senhor pode me ajudar a voltar para casa?

-Escuta Adelino... Posso te chamar assim?

-Pode sim senhor!

-Então tá! Me diz uma coisa Adelino: você não lembra de mim, não?

-Não senhor!

-Pois eu lembro de você! Faz umas duas semanas, mais ou menos, eu estava aqui perto esperando ônibus e você veio me contar essa mesma história.

O Adelino arregalou os olhos surpreso, como se tivessem lhe relatado a existência de um irmão gêmeo desconhecido.

-O senhor tem certeza? Você deve estar se confundindo!

-Não, absolutamente. Era você!

O Adelino reagiu como se tivesse sido ofendido.

-Eu?? O senhor está enganado!

-Não, não estou!

-Escuta: a minha mãe tá doente e...

-Me poupe da balela! Eu sei qual é a tua!

-O senhor está insinuando que eu estou fazendo isso só para enganar as pessoas?

-E não é por isso? Pelo que seria então?

-Para poder voltar pra casa ver minha mãe doen...

-Já disse que a mim você não engana mais!

O Adelino parou, pensou, e com cara de quem acaba de descobrir uma conspiração das mais cabeludas disparou:

-Já sei! Deve ter alguém mal intencionado que soube que eu estou por aqui e está tentando se aproveitar dos meus problemas. Alguém que está se fazendo passar por mim! Deve ter sido ele que o senhor viu esses dias atrás!

-Ué... Você não disse que tinha chegado hoje na cidade?

-Vai ver que descobriram que eu viria pra cá!

-E eles sabiam também que sua mãe ia adoecer?

-Ah... Bem... Ééé... Ela já estava meio fraquinha quando eu saí de lá!

-Você disse que ela era forte como uma pedra, lembra? Que você estava até duvidando do tal internamento dela!

-Bem... É que...

-Já chega amigo! Você é persistente, eu admito, mas a mim você não engana mais!

O Adelino se indignou.

-É por gente como você que o país não vai pra frente! Fica aí negando ajuda pra um pobre coitado que não tem como voltar pra casa! Você deveria se envergonhar. Se eu tivesse pedido uma quantia alta... Mas são só 80 centavos. Pra eu rever a minha mãe. Que tá doente. Ah... Quer saber? Faça o que bem entender, ouviu? Seu desalmado!

Dito isso, ele se virou e foi embora, bradando protestos para todos os lados, fazendo com que o Felipe virasse alvo de dúzias de olhares desaprovadores dirigidos pelos demais transeuntes que se indignaram com a falta de compaixão do rapaz para com o pobre homem desafortunado de Queijadinha do Oeste.

Ao longe ainda dava para se ouvir os protestos indignados do Adelino:

-Que povo desalmado! Isso é uma vergonha! Esse mundo tá perdido!

Ao Felipe, sem graça, só restou suspirar e concluir que, apesar dos pesares, o Adelino era insistente. Tinha lá os seus méritos:

-É... Brasileiro não desiste nunca... Nunca mesmo!

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Congresso Anual

No auditório, balidos, guinchos, berros, latidos, um Deus nos acuda. Ê bicharada incivilizada! Até que das caixinhas de som ecoou um rugido longo e violento. Silêncio. Nem um piu. Todos atentos à mesa principal.

Pomposo, o rei Juba Ruiva, o Impiedoso (filho de Juba Negra, o Tirano, e Juba Pastel, a Indolente) abriu os serviços do dia:

- Crraam... bem-v fuiiiiiiiiiiiiiiin – microfonia. Continuou o leão: – Bem-vindos à 2346ª Conferência Anual das Espécies Inteligentes Eleitas por Noé, neste ano realizado em terra firme conforme decisão do Conselho Mundial das Espécies Inteligentes. Para iniciar nosso encontro, convido à mesa o companheiro tubarão Branco, diretor da comissão Habitat e Nicho Marinho desse Conselho.

Nhequenhequenheque. Dentro de um aquário mínimo em cima de um carrinho empurrado custosamente por um símio de quepe vermelho, subiu ao palco a austera fera marinha, conhecido oposicionista de Juba Ruiva. Nenhuma palma; em partes por medo de zangar o rei, em partes por pavor: e se o vidro estourar? Danou-se!

Enquanto o macaco desembaçava o vidro, Juba Ruiva continuou:

- Convido a vir à mesa também o pelicano Cicone, diretor da comissão Habitat e Nicho Aéreo e vice-presidente do Conselho Mundial das Espécies Inteligentes.

Aí sim muitas palmas! O pelicano tinha aparecido há duas semanas na revista mais famosa do mundo animal mostrando a gruta onde sobrevivia, o ninho aveludado e os ovos que prometiam dar vida àquele lar. Corriam boatos de que ele seria candidato à presidência do Conselho.

Visivelmente enjoado daquele cerimonial todo, Juba Ruiva prosseguiu:

- Convido a toupeira Topero a compor a mesa, diretor da comissão Habitat e Nicho Subterrâneo do Conselho Mundial das Espécies Inteligentes.

Aí sim a casa caiu: a vaia encheu o salão, ergueram-se faixas de protesto que atestavam que desde o dilúvio não se via apadrinhagem como esta, os suricates que estavam logo na segunda fila viraram-se para a plenária, dando as costas à mesa, ao que foram aplaudidas fervorosamente. As ovelhas até imitaram o gesto. Os lagartos gritaram “baba ovo.” As hienas se acabaram de rir, eram mestras naquela história de criticar por escárnio.

Mas nada disso se mostrou muito problemático. Uns gritos de “ordem nesta casa”, uns rugidos, um olhar mais severo às zebras que insistiam em animar a balbúrdia e o silêncio se restabeleceu.

Ao leitor desinformado ou com memória de galinha, lembro que no 2343º Conferência o Juba Ruiva criou e homologou essa comissão no Conselho provando com testes humanos – ou seja, de procedência sabidamente ilegítima –, que as toupeiras tinham QI superior a 50, o que dar-lhes-ia o direito de compor o Conselho Mundial das Espécias Inteligentes. Juba Ruiva veio ainda com um discurso fajuto de reconhecimento de serviços à natureza e uma balela de direito natural que ninguém entendeu. O que a bicharada entendia e muito bem é que estavam perdendo representatividade, e perder cadeiras no Conselho era perigosíssimo para a sobrevivência da espécie. Curiosamente, desde aquela época a toupeira Topero votava sempre com o Juba Ruiva.

O leão seguiu, impondo a voz firme:

– Lembro a todos que a comissão Habitat e Nicho Terrestre da Comissão Mundial das Espécies Inteligentes é dirigida por mim, que também presido a instituição. E por fim convido à mesa ainda o diretor da comissão temática permanente Atenção ao Humano.

Juba Ruiva sequer citou o nome do diretor, talvez por não saber mesmo. Totalmente indiferentes, o bichos permaneceram impassíveis. Um dos porcos de camisa vermelha se reconheceu totalmente violentado por ter um predador sentado à mesa e guinchou uma reclamação vazia, mas não conseguir atenção. Calou-se.

Quem continuou foi a fuinha Helena, primeira-secretária do Conselho, lendo a pauta de deliberações do dia:

– Leitura das atas e das moções de apoio e de repúdio da 2345ª Conferência (só os golfinhos escreveram 550). A seguir atividades livres nos wokshops: os pandas e o movimento anti-comunista; experimentos genéticos em espécies inteligentes de roedores (tapa na cara das toupeiras que não entenderam a provocação); comentários básicos da teoria darwinista em aves consangüíneas; evidências de vida extra-terrena inteligente; participação animal: a vez e a voz das espécies inteligentes do mundo; os bisões e o aquecimento global; ovíparos, ovovivíparos: novas diretrizes para a classificação, taxonomia e nomenclatura da biologia... Seguindo na programação, temos a Reunião Geral do Conselho Mundial das Espécies Inteligentes. A seguir, apresentação dos trabalhos de grupo. E por fim Plenária Geral do dia.

Mais calmos, os bichos todos seguiram em blocos (por espécie) para as salas de trabalho relativas à sua espécie. Somente a fuinha Helena que lia cansada e os elefantes ficaram para ouvir a ata e as moções, porque eram os únicos que lembravam do começo das recomendações. A sala que deliberaria sobre os alienígenas ficou praticamente vazia: participavam somente três ou quatro corujas de olhos opacos que se interessaram pelo tema e o ofegante macaquinho de quepe vermelho, que supunha ser menos requisitado ali.

O dia correu bem, senão pelo almoço. Sempre dava problema. Era uma questão ética tradicional: durante a Conferência, comia-se apenas vegetais e insetos ou trazia-se para o evento refeição pronta, embalada e picada ao ponto de não se identificar qual o animal abatido. Mas o bafafá era sagrado. Dessa vez, foi uma capivara que disse reconhecer o cheiro de um tio recém-sumido no prato de um jacaré que comia despreocupado e jurava ser frango ao molho madeira. Os frangos, indignados, fizeram imediatamente uma moção de repúdio ao jacaré exigindo retratação formal por parte deste. Mas esqueceram o que ele tinha dito ao certo, só lembravam que era grave, e deixaram incompleto o formulário, e as chinchilas que cuidavam da parte jurídica negaram o pedido.

À tarde outro quiprocó, dessa vez mais sério. Sumiu um carneirinho. A capivara ressentida gritou: “foi o jacaré!” As zebras só se olharam: estavam certas que tinha sido o Juba Ruiva, mas quem é que provaria? E a sra.Carneiro chorava, desmaiou mais de uma vez. Ô, meu Deus, cadê o carneirinho!? Procura, procura. Nada. Até que ouviram um barulho do lado de fora.

Descobriram o carneirinho estirado na grama ao lado do auditório principal tremendo, jurando espontaneamente que não vira quem o atacou. Um sapo com a boca costurada negava coma cabeça que tivesse visto algo. Juba Ruiva exigiu que o autor daquele ato hediondo se apresentasse, que aquilo era selvageria e sei lá mais o que é que era, que nunca isso tinha acontecido antes ali. O culpado não teve a decência de se apresentar. O pelicano ficou publicamente escandalizado mas disse que estava certo de que Juba Ruiva encontraria o desleal causador desse horrível transtorno.

A noite ganhou tom solene. Graças ao Juba Ruiva, a família carneiro recobrara a paz. Uma cobra havia sido apanhada e encontrada já morta – a pauladas –, provavelmente de remorso. Jogaram-na num canto visível. As outras cobras não levantavam a cabeça do chão, tamanha a vergonha. E aumentaram a segurança do evento. Dobrou o número de gorilas a rondar por aí.

No dia seguinte, tudo bem novamente. Apenas os elefantes não se contentavam com a história de uma cobra daquele tamanho não ter conseguido dar o bote em um carneiro tão novinho; os demais sequer lembravam-se do incidente. E sem ninguém ver, o homem foi embora. Saiu à francesa. Não conseguiu ficar sem comer carne.


Carlos Pegurski