domingo, 24 de fevereiro de 2008

Alcachofra

Ao contrário de toda sexta-feira a noite, quando o Márcio chegava em casa todo feliz depois da já tradicional ida no bar com os amigos, dessa vez ele estava meio esquisito: quieto, desanimado... Mais reflexivo que o comum. A Luiza estranhou:

-Aconteceu alguma coisa, Márcio? Você está estranho desde que chegou. Não disse uma palavra!

-Aconteceu sim!

-O que houve homem de Deus?

-A alcachofra Luiza, a alcachofra!

O Márcio explicou o ocorrido: é de conhecimento público que toda conversa de bar entre homens tem quatro fases distintas que se sobrepõe à medida que o número de garrafas vazias sobre a mesa aumenta. A primeira diz respeito aos assuntos do trabalho. A segunda, que só é alcançada depois de umas duas doses de cerveja, trata do futebol. Na terceira, as mulheres passam a ser o assunto principal na mesa, quando, finalmente, depois de uma dúzia de chopps somadas a intervenção de algumas generosas doses de whisky e vodca, chegamos até a quarta fase, conhecida como a das “filosofias de botequim”. Nesse estágio, tudo pode virar assunto (e geralmente vira): desde a política econômica do governo até a cor do cabelo do garçom.

Foi mais ou menos nesse período que os amigos do Márcio começaram a falar de um tema relativamente inusitado: as alcachofras.

O Daniel comentou, meio ao acaso, que sua mulher tinha cozinhado uma dúzia de alcachofras, todas maravilhosas, no dia anterior. Já o Fábio reclamou que sua esposa não preparava alcachofras a pelo menos um ano. O Tavares por sua vez, descreveu com “requintes de crueldade” uma alcachofra com molho de manteiga, divina, que tinha degustado certa vez num restaurante em São Paulo. Comoção geral. O testemunho do Tavares arrancou suspiros de toda a mesa, exceto do Márcio. De uma hora para outra, tinha se dado conta: jamais tinha comido uma alcachofra na vida!

-Tá... Mas por que diabos você está triste? Isso eu ainda não entendi!

-E não é óbvio, Luiza?

-Não!

-Ora: você não vê? Eu tenho quase 40 anos e nunca pus uma alcachofra na boca!

-Tá, e daí?

-Que tipo de pessoa tem a minha idade e ainda não comeu uma alcachofra? Entende? Isso mostra como minha vida é vazia! Como eu perdi tempo com coisas inúteis! Como eu deixei de aproveitar os prazeres mais básicos da minha existência!

-Mas...

-E tem mais Luiza: as alcachofras precisam ser comidas rápido, você sabia? Eu andei pesquisando. Elas têm toxinas! Quer um simbolismo maior do que esse? Se a gente não aproveita a vida rápido, se a gente não come logo a alcachofra, ela perde o sentido, fica imprópria para o consumo... Se torna venenosa!

-Mas se esse é o problema, eu posso comprar umas alcachofras amanhã e preparar para você!

-Não é isso! A alcachofra é só uma metáfora! Um símbolo do vazio que a minha vida se tornou!

-Sua vida não é vazia, Márcio!

-É vazia sim, Luiza!

-Você está exageran...

-É VAZIA LUIZA!!!

A Luiza demorou um pouco para dissuadir o marido da idéia de largar tudo para ir morar em uma chácara qualquer, no meio do nada, lá no interior. Segundo ele, iriam “viver de amor”. Disse que os filhos já estavam grandes, tinham 17 e 13 anos, podiam se virar sozinhos na cidade grande.

Só quando Márcio já estava colocando uma placa de “vende-se” no quintal, foi que sua esposa conseguiu convencê-lo a permanecer ali, alegando que “não teriam TV a cabo no meio do mato”.

No dia seguinte, só por garantia, a Luiza escondeu o caderno de culinária do jornal que trazia uma receita de “Couve-de-Bruxelas ao Fricassê”.

Sabem como é: melhor prevenir!

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Frescuras

A história a seguir parece ser engraçada. Só parece. Ela relata a trajetória de um homem normal, assim como eu e você. Um homem normal, com uma característica incomum. Algo que algumas pessoas podem classificar simplesmente como uma mera frescura, mas que no fundo não é.

O Samuel, vulgo Samuca, era um cara comum. Bem apessoado, inteligente, articulado... Um típico exemplar daqueles que as mulheres em geral costumam chamar de “bom partido”. Mas do alto de todas as suas virtudes, o pobre rapaz tinha um ponto fraco. Uma excentricidade específica que já tinha feito com que ele terminasse inúmeros relacionamentos, todos pelo mesmo motivo: o “ai guria!”.

Para quem nunca ouviu a expressão, o “ai guria” geralmente é dito durante um diálogo protagonizado por duas mulheres. Uma espécie de recurso lingüístico usado como prenúncio de “grandes acontecimentos”. Um exemplo? Lá vão três:

-Ai Guria! Você não sabe com quem eu falei hoje!

-Ai Guria! Estou tão feliz!

-Ai guria! O que eu faço?

Para o Samuca o “ai guria”, mais do que uma simples frase, era a representação lingüística da futilidade de todo o hemisfério ocidental. Era praticamente impossível ele ouvir o “ai guria” sem sentir um calafrio subir sorrateiro por sua espinha e uma vontade incontrolável de arrancar os próprios cabelos. Inclusive, o “ai guria” não só podia, como já tinha destruído alguns de seus relacionamentos.

O momento em que o “trauma” começou, nem ele sabe dizer. Lembra-se apenas das conseqüências iniciais de sua intolerância à frase.

A primeira vez que algo grave aconteceu foi com a Marcinha. Moça alegre, sorridente. Meiga do dedão do pé ao último fio de cabelo. Começaram a namorar meio que ao acaso, depois de uma festa de fim de ano. Parecia ser um romance com boas chances de prosperar. Por coincidência foi logo depois de outra festa que tudo acabou. O Samuca escoltava a Marcinha enquanto ela levava um bate-papo animado com algumas amigas. Foi então que, meio distraída, disparou:

-Ai guria! Você tinha que ter visto a cara que ela fez!

Vocês tinham que ter visto a cara que o Samuca fez, isso sim. Aquílo tinha doído na sua alma. Sentia-se do lado de um monstro.

Alguns minutos depois ele deu um jeito de levar a Marcinha num canto isolado para, nem ele sabia explicar direito o por quê, terminar tudo. Foi a primeira vez que o “ai guria” tinha acabado com um de seus namoros.

Na segunda vez, o processo foi ainda mais traumático. O Samuca tinha conhecido uma garota fantástica, a Flávia. Ambos eram quase feitos um para o outro. A empolgação com era tanta que ele próprio tinha tomado a iniciativa de pedir sua mão em noivado.

Mas tinha uma coisa que atormentava o Samuel. Será que a Flávia poderia dizer um “ai guria” uma hora ou outra? Gostava dela. Gostava muito. Deus era testemunha do tamanho do carinho que sentia por ela. Mesmo assim não sabia dizer a si próprio como reagiria se tivesse que ouvir da boca da Flávia a expressão que mais abominava no mundo.

Resolveu arriscar. Convenceu a si próprio que a Flávia não seria capaz de tal ato, e resolveu levar adiante o noivado.

O desfecho desse relacionamento ocorreu numa noite em que o Samuca decidiu levar sua futura noiva e o resto de suas famílias para um jantar de confraternização num restaurante da cidade. A Flávia conversava com a irmã do Samuel. Animação total.

-E então Flávia? Muito assustada com o noivado?

-Aaiiiiiii guria! To ansiosa demais!

O Samuca quase caiu da cadeira. Aquílo não tinha sido um “ai guria” comum, tinha sido um “Aaiiiiiii guria”, que tinha um potencial de destruição significativamente maior para seus ouvidos.

Ainda perdido, pediu licença da mesa de jantar e, para surpresa de todos, não voltou mais. Alguns chegaram a cogitar que o motivo do abandono do recinto tinha sido um purê de batatas meio suspeito. Só mais tarde descobriram que o Samuel tinha resolvido terminar tudo... De novo.

Tais acontecimentos fizeram-no reavaliar seus conceitos de seleção. A partir daquele dia ele resolveu fazer uma pré-triagem de todas as suas possíveis futuras namoradas. Tão importante quanto ter bons modos, ser bonita e inteligente uma pretendente não podia dizer, sob hipótese alguma, o “ai guria”. Descobriu que a tarefa era mais difícil do que pensava. O mundo estava tomado pelo “ai guria”. O “ai guria” era dito por todas as faixas de idade femininas (e algumas masculinas também). O “ai guria” era como um daqueles vírus de filmes de zumbis que já tinham contaminado praticamente todos os habitantes do mundo. Achar uma “sobrevivente” ao “ai guria”, não seria fácil.

Foi então que o Samuca conheceu a Joana. Moça fina, inteligente e muito, muito bonita. Mas o melhor nem era isso. Mais do que todas as suas grandes virtudes a Joana se destacava para o Samuel em função do seu repúdio declarado ao “ai guria”. Parecia mentira, mas não era. Logo que soube dos seus problemas com o termo ela não só apoiou o Samuca como se disse atormentada pelo mesmo problema. Só podia ser o destino. Quem diria que existiam duas pessoas nesse mundo que partilhavam do mesmo inconformismo, e, mais improvável ainda: quem diria que elas iriam se encontrar.

As coisas iam tão bem que quando se deram conta, já eram noivos. Agora só faltava o casamento.

Mas a vida... Bem... A vida é irônica.

No dia do enlace, o Samuel e Joana acertavam os últimos detalhes para a cerimônia que aconteceria à noite.

-Está tudo certo então?

-Certíssimo! Já liguei pros meus parentes lá do interior e parece que eles logo chegam!

-Que bom, que bom! E o vestido?

-Prontinho!

-Ufa... Finalmente está chegando a hora! Parece mentira! Mal consigo esperar o momento de ver você dentro dele! Como é mesmo que se diz? “Ai guria! Estou tão feliz!” Hahahaha

-Hahahaha... Não abusa, não abusa!

-Hahaha... Ok, ok! Agora seja uma garota boazinha e venha cá me dar um beijo!

-Vou sim!

-Opa! Peraí... Telefone!

-Tá!

-Alô? ... Tudo bem sim! ... Ah tá, pode deixar! Fique tranqüilo! ... Firmeza mano, firmeza! ... Eu sei, tô ligado! ... Ok, beleza! ... Um abraço!

Silêncio. Enquanto ouvia o Samuel no Telefone a Joana não conseguiu controlar algumas caretas esquisitas.

-Quem era?

-O Beto! Disse que talvez ele se atrase pro casamento!

-Ah tá!

-Que foi? Você parece nervosa!

-Não! Não é nada! Só estou meio... Meio... Sei lá! Esquisita!

-Sei! Tem alguma coisa que eu possa fazer?

-Não! É só eu ficar um pouco sozinha, já passa!

-Então tá! Vou trabalhar nos últimos preparativos e mais tarde a gente se fala, ok?

-Está bem!

Mais tarde, já no altar, o Samuca descobriu que a Joana, a mulher de sua vida, não iria aparecer.

Dias depois ela explicou que descobriu que o relacionamento não daria certo, no dia do casamento. Segundo a Joana, ela não suportava o “firmeza mano”, muito menos o “tô ligado” que para ela significavam a decadência dos bons costumes verbais de toda a sociedade. Como viver todos os dias da vida com uma pessoa que a qualquer momento poderia soltar um “firmeza mano”? Como morar num mesmo teto com alguém que ao invés de dizer “eu sei” poderia optar por um “tô ligado”? E ter filhos então? Como correr o risco de ter os próprios primogênitos usando esses tipos de expressão?

Ele ainda tentou reverter a situação, mas não teve jeito. A Joana estava irredutível.

O Samuca ficou se perguntando que tipo de pessoa teria a coragem de por fim a um lindo futuro só por causa de duas expressões bobas. Chegou à conclusão de que a sociedade estava em decadência, e que ele era uma dos únicos e solitários modelos de conduta que ainda restavam. Uma voz de coerência em meio a tantas frescuras que assolavam o mundo.

Os amigos tentaram consolar:

-Que puta mundo injusto, hein Samuca?

-Tô ligado... Tô ligado!

Comentário inútil do blogueiro 2

A mamata acabou. Ou melhor: acabaram-se as férias da faculdade. O que isso significa? Basicamente terei pouquíssimo tempo livre para escrever aqui, e provavelmente, quando tiver um tempo livre, tudo o que eu não vou querer vai ser topar com um computador.

Sendo assim, espero que vossas senhorias mantenham a paciência. Favor não entrar em pânico nem tentar o suicídio. Sei que é quase impossível viver em plenitude sem ter acesso aos meus fabulosos (e acima de tudo modestos) escritos, mas peço que façam um esforço.

É isso!

Caso tenham alguma sugestão, crítica ou queiram atentar contra a minha ilibada moral, favor entrar em contato.

Beijo no cérebro!

sábado, 9 de fevereiro de 2008

God Bless América

Não sou daqueles que faz questão de ler o caderno de economia todos os dias. Aliás, pensando bem, acho que não conheço quase ninguém que se dedique a ler as páginas desta injustiçada vertente do jornalismo. De qualquer forma, foi inevitável acompanhar nas últimas semanas as dúzias de notícias divulgadas pelos veículos de imprensa falando sobre a recessão na economia americana. Tal fato gerou uma reação em cadeia nas bolsas de valores ao redor do mundo, que tiveram que rebolar para não sofrerem as conseqüências do verdadeiro abalo sísmico monetário provocado.

Quem diria... Até eles passam por isso!

A verdade é que chega a ser difícil de acreditar que os americanos também podem ter crises econômicas semelhantes à de qualquer outro país deste planetinha mixuruca. Fomos “ensinados” desde cedo a compreender e aceitar a posição de superioridade dos herdeiros do Tio Sam em relação ao restante do mundo. Talvez isso explique tamanha surpresa por parte de todos com as notícias dos últimos dias.

Tais acontecimentos me levaram a conceber uma hipótese bastante improvável, mas que não deixaria de ser relativamente interessante (pelo menos do ponto de vista sociológico): já pensaram se daqui a alguns anos a toda poderosa América se tornasse um país pobre? Eu sei que tal insinuação é absurda, mas tentem pensar nisso. Em como teríamos que explicar para nossos filhos e netos qual era o grau de importância daquele país para o resto do mundo.

Vocês podem até discordar, mas eu acho que seria divertido...

***

-Pai: que país é esse?

O garoto estava ajoelhado no meio do Atlas recém comprado por seu pai. Tinha passado a tarde inteira ali, fuçando os continentes à procura de algum país que ainda não tinha ouvido falar. Tarefa difícil. O menino era craque em geografia, sobretudo se comparado a alguém na sua idade. Manjava quase tudo do assunto. Mas, para sua surpresa, tinha se deparado com uma bandeira meio esquisita, de listras vermelhas e brancas com um retângulo azul repleto de estrelas que remetia para uma nação meio encolhida, situada ao norte do continente americano, da qual nunca tinha se dado conta. Ficou curioso. Afinal de contas, que lugar era aquele?

-Ah filho... Esses são os Estados Unidos!

-Estados o quê?

-Unidos!

-Hum... Legal! Nunca tinha ouvido falar!

-Pois é: faz tempo que ninguém dá muita importância para eles.

-E eles já tiveram alguma importância?

-Acredite filho: esse já foi o país mais poderoso do mundo!

O garoto deu uma gargalhada gostosa, daquelas típicas de quem acabou de ouvir uma boa piada.

-Fala sério pai!

-Estou falando! Os americanos já foram importantíssimos pro planeta!

-Ahhh... Conta outra!

-É verdade!

A incredulidade do menino estava irredutível.

-Se é assim, como é que eu nunca tinha ouvido falar desses caras?

-É que eles tiveram uma crise econômica bem feia lá pelos anos de 2007, 2008... Depois disso foram caindo, perdendo importância!

-Sério?

-Sim. Sabe o George Bush?

-Aquele líder do Talibã?

-Esse mesmo! Ele era o presidente dos Estados Unidos naquela época! Uns dizem que ele só chegou ao governo pra sabotar a economia deles!

-E porque ele faria isso?

-É que muita gente não ia com a cara dos americanos, sabe? Eles eram conhecidos por serem muito metidos, prepotentes... Sua cultura e seus hábitos influenciavam o mundo inteiro! É mais ou menos o que acontece hoje com a China!

-Como assim?

-É simples... Tá vendo esse chapéu que você está usando?

-O que tem ele?

-Esse é um chapéu típico da China!

-Mas ele está na moda!

-Pois é: influência dos chineses! O mundo inteiro tem usado isso, porque está na moda lá! Quer ver outro exemplo? Qual é sua banda favorita?

-Os “Ling-Lings Dragons”, é claro!

-Eles são chineses, não são? É mais ou menos isso que acontecia com os Estados Unidos: tinha muita gente que adotava os hábitos culturais deles, justamente por eles serem a nação mais poderosa do mundo! Para você ter uma idéia, quando eu tinha sua idade, minha banda favorita era americana!

-Credo! Que estranho!

-No cinema também era assim! A maioria dos filmes que passavam nos cinemas era dos Estados Unidos!

-Eca! Até isso eles faziam? E eu que sempre achei que isso é coisa só de indiano!

Dessa vez quem riu foi o pai do garoto. Nem ele acreditava direito no que dizia! Quanta nostalgia. Quem diria que aquela super nação, uma potência econômica que dominava o mundo, se tornaria um país mequetrefe que foi obrigado a vender metade de seu território para os mexicanos a fim de pagar a própria divida externa.

Era até engraçado observar seu filho ali, com cara de incrédulo. Ah se ele soubesse que nos tempos do seu velho pai não existia “Bambu Cola”, nem espetinhos de gafanhoto no “Mc’Lee”. Que o super-herói de quadrinhos mais famoso não era o “Panda-Alado” e sim o “Super-Homem”. Que naqueles tempos o que existia eram protestos contra o “capitalismo selvagem”, e não contra o “comunismo imperialista”.

-Se você tivesse visto o que eu vi, não iria acreditar!

-Mas eu não estou acreditando mesmo! Isso é estranho! Os caras praticamente copiaram a bandeira de Porto Rico, e o senhor que eu acredite que eles já foram um grande país?

-O mais poderoso de todos, filho!

-Hunf... Daqui a pouco você vai me dizer que o Haiti já foi pobre!

-Hahahaha! Filho, filho: as coisas mudaram muito!

-Mudaram muito? Então o Brasil já foi um país rico e sem corrupção? Com educação, segurança e saúde de qualidade para todos?

-Não... As coisas mudaram, mas nem tanto! Isso ainda continua igual!

Caminho certo

Sorte do meu Orkut de ontem: “Todos os seus planos para esse ano vão se realizar.”

Sorte do meu Orkut de hoje: “Você nunca mais vai precisar se preocupar em ter uma renda estável.”

Lembram das minhas metas nesse ano?

Me aguarde Jolie... Me agurade!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

80 centavos

O Felipe estava no ponto de ônibus, meio distraído, esperando pela condução que o levaria de volta para casa depois de um dia inteiro de trabalho. Nesse meio tempo, um rapaz meio maltrapilho se aproximou, e pedindo licença começou a contar sua triste (e bem ensaiada) história.

O homem, que se identificou como Adelino, narrou emocionado sua infeliz jornada. O pobre coitado mal tinha chegado na capital, vindo de Queijadinha do Oeste (ou alguma outra cidade do interior com nome parecido) e fora informado que de sua velha mãe tinha sido internada em sua terra natal. Estava, segundo seus parentes, à beira do fim. Em função disso, o pobre Adelino teria que deixar seu sonho de conseguir um bom emprego na cidade grande para outra hora, já que tinha decidido ir ao encontro de sua progenitora. O problema era que, coitadinho, não tinha como pagar a passagem de volta. Sendo assim, explicou que não teve outra alternativa a não ser a de sair pelas ruas pedindo o auxílio de desconhecidos como o Felipe, a quem ele gentilmente solicitou, se não fosse muito incomodo, que lhe doasse míseros 80 centavos, a quantia específica de que precisava para completar o valor de seu retorno à aprazível Queijadinha do Oeste.

O Felipe sabia que a história cheirava à golpe, mas não teve outra escolha a não ser tatear os bolsos e retirar os trocados pedidos pelo Adelino, que quase chorando de alegria agradeceu e se despediu afirmando que, graças ao auxílio do nobre transeunte, ele poderia voltar para casa rever sua velha mãe doente.

Ao se afastar, o Felipe suspirou inconformado com seu próprio coração de açúcar, incapaz de dizer não mesmo quando sua razão dizia para não atender os pedidos daquele que obviamente era um charlatão. Conformado com sua própria covardia, deu de ombros, afirmando mesmo sem muita convicção para si mesmo que ele só tinha “se feito de trouxa” por estar de bom humor. Em outras circunstâncias, não seria assim.

Dias depois, o mesmo Felipe caminhava pela rua meio displicente a tudo quando, para sua surpresa, o mesmo Adelino (aquele que teoricamente ele tinha ajudado a voltar para casa) se aproximou para lhe contar a mesma triste história de antes.

Indignado com tamanha cara de pau (e com a falta de memória) do pilantra, o Felipe decidiu que daquela vez não se faria de besta. Iria reagir. Para se certificar da “escala richeter” de safadeza do Adelino, fez questão de ouvir a história até o fim, para ver se algum detalhe específico destoava do discurso anterior. Tudo igual: Queijadinha do Oeste, mãe doente, pouco dinheiro e 80 centavos para completar a passagem. Até os suspiros e os trejeitos de quem está prestes a cair no choro ele repetiu.

-E então? O senhor pode me ajudar a voltar para casa?

-Escuta Adelino... Posso te chamar assim?

-Pode sim senhor!

-Então tá! Me diz uma coisa Adelino: você não lembra de mim, não?

-Não senhor!

-Pois eu lembro de você! Faz umas duas semanas, mais ou menos, eu estava aqui perto esperando ônibus e você veio me contar essa mesma história.

O Adelino arregalou os olhos surpreso, como se tivessem lhe relatado a existência de um irmão gêmeo desconhecido.

-O senhor tem certeza? Você deve estar se confundindo!

-Não, absolutamente. Era você!

O Adelino reagiu como se tivesse sido ofendido.

-Eu?? O senhor está enganado!

-Não, não estou!

-Escuta: a minha mãe tá doente e...

-Me poupe da balela! Eu sei qual é a tua!

-O senhor está insinuando que eu estou fazendo isso só para enganar as pessoas?

-E não é por isso? Pelo que seria então?

-Para poder voltar pra casa ver minha mãe doen...

-Já disse que a mim você não engana mais!

O Adelino parou, pensou, e com cara de quem acaba de descobrir uma conspiração das mais cabeludas disparou:

-Já sei! Deve ter alguém mal intencionado que soube que eu estou por aqui e está tentando se aproveitar dos meus problemas. Alguém que está se fazendo passar por mim! Deve ter sido ele que o senhor viu esses dias atrás!

-Ué... Você não disse que tinha chegado hoje na cidade?

-Vai ver que descobriram que eu viria pra cá!

-E eles sabiam também que sua mãe ia adoecer?

-Ah... Bem... Ééé... Ela já estava meio fraquinha quando eu saí de lá!

-Você disse que ela era forte como uma pedra, lembra? Que você estava até duvidando do tal internamento dela!

-Bem... É que...

-Já chega amigo! Você é persistente, eu admito, mas a mim você não engana mais!

O Adelino se indignou.

-É por gente como você que o país não vai pra frente! Fica aí negando ajuda pra um pobre coitado que não tem como voltar pra casa! Você deveria se envergonhar. Se eu tivesse pedido uma quantia alta... Mas são só 80 centavos. Pra eu rever a minha mãe. Que tá doente. Ah... Quer saber? Faça o que bem entender, ouviu? Seu desalmado!

Dito isso, ele se virou e foi embora, bradando protestos para todos os lados, fazendo com que o Felipe virasse alvo de dúzias de olhares desaprovadores dirigidos pelos demais transeuntes que se indignaram com a falta de compaixão do rapaz para com o pobre homem desafortunado de Queijadinha do Oeste.

Ao longe ainda dava para se ouvir os protestos indignados do Adelino:

-Que povo desalmado! Isso é uma vergonha! Esse mundo tá perdido!

Ao Felipe, sem graça, só restou suspirar e concluir que, apesar dos pesares, o Adelino era insistente. Tinha lá os seus méritos:

-É... Brasileiro não desiste nunca... Nunca mesmo!

domingo, 27 de janeiro de 2008

Um ano depois

Caríssimos visitantes: acreditem ou não, há exatamente 365 dias atrás, entrava no ar o “Eu Não Sei Fazer Poesia”, esta porcaria que vossas senhorias estão lendo nesse exato instante. Para quem imaginava que largaria tudo um ou dois meses depois do início do “projeto”, completar um ano de existência é uma conquista e tanto. Afinal de contas, entre erros e acertos, aprendi muita coisa nova que levarei adiante em minha vida.

Analisando os fatos, posso afirmar com convicção que foi uma ótima idéia a de criar esta espelunca. Não digo isso em função de meu suposto “talento” literário, pelo contrário: acho que eu deveria ter vergonha (como de fato tenho), de muitas das coisas que eu publiquei aqui. O que me motiva a dizer que a experiência foi válida, são outros fatores, muito mais valiosos.

Entre as vantagens que constatei, destaco a criação de uma via de escape interessante para minhas frustrações pessoais. Sabe aquele momento em que você não tem absolutamente nada pra fazer? Pois é... Apesar de terem sido raros os momentos em que tive a oportunidade de me classificar como um cara “sem nada para fazer”, pude tirar proveito dessas ocasiões de uma forma mais vantajosa do que meramente ficar sentado em casa vendo TV ou coçando o saco (perdão pelo palavreado chulo, senhoras). Além disso, sempre que me vejo “puto” com alguma coisa ao meu redor, procuro tirar o foco de meu problema e transferi-lo para a criação de alguma história cretina. Por vezes isso me ajudou bastante.

Mas sem dúvidas, o mais importante nessa brincadeira foram as amizades que fiz e que fortaleci graças ao blog. Não parece, mas ter um espaço para escrever serviu como uma luva para me reaproximar de velhos conhecidos que só se manifestavam eventualmente. Além disso, os novos visitantes que passaram a manter contato também são outros dos presentes que recebi. Pessoas que mesmo sem me conhecer direito passaram a me dedicar atenção e carinho.

Eu andei pensando em bolar alguma coisa especial, algo que servisse simbolicamente para representar a postagem de um ano. As idéias, no entanto, foram bem menos originais do que eu supunha. No fim das contas, cheguei à conclusão de que iria fazer um áudio, uma espécie de podcast onde eu agradeceria a todos os meus visitantes “pessoalmente”. Cheguei a gravar e a editar o conteúdo inclusive... Mas sabe quando você faz alguma coisa que sente que não ficou legal? Quer dizer: isso sempre acontece quando eu termino de escrever um texto, mas dessa vez a sensação foi forte demais. Sendo assim, acabei de decidir que vou poupar-lhes de ouvir minha voz naquela porcaria que gravei. Quem sabe daqui a algum tempo eu faça um negócio mais caprichado. Por hora é melhor eu ficar quieto, só escrevendo.

Para não dizer que a data passou em branco, resovi fazer um cabeçalho novo para o blog, como vocês devem ter percebido. Pra variar, achei que ficou ruim. Mas como eu gastei horas e mais horas no Photoshop, resolvi ser cara de pau o bastante pra prosseguir com a baixaria. Seja o que Deus quiser.

É isso pessoal: peço perdão por não ter conseguido bolar nada mais original do que isso, mas definitivamente não sou o melhor cara do mundo para pensar nesse tipo de coisa! Apenas gostaria de agradecer, e muito, o carinho e as palavras de apoio que vocês gentilmente me dedicaram nesse ano. Sem dúvida nenhuma, é graças ao seu apoio caro leitor, que eu continuo destruindo o bom senso literário e a concordância lingüística aqui nesta espelunca. Não me atreverei a citar nomes com medo de esquecer de alguém e cometer alguma injustiça. De qualquer forma, tenho certeza que você (é, você mesmo) sabe do valor que teve para mim e para a continuidade deste blog. Sendo assim, sinta-se formalmente homenageado por este charlatão.

A todos vocês o meu humilde, porém sincero, muito obrigado.

Beijos no cérebro!

Até mais!