segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Ligação de réveillon

-Alô? ... É você Elisângela? ... Ai minha filha! Graças a Deus! Você não sabe a aflição que a gente estava! Você saiu no Natal pra ir à praia e não deu mais notícias! Seu pai estava quase chamando a polícia e... Onde é que você está? ... Como? ... No aeroporto? ... Fazendo o que no aeroporto Elisângela? ... Indo pra sua casa nova?! ... Que casa nova? ... Não brinca com isso Elisângela! Eu já estou velha. Meu coração não agüenta mais esse tipo de brincadeira! ... Como assim está falando sério? ... Conheceu um cara? ... Amor à primeira vista? ... Você casou Elisângela? ... Não brinque com isso minha filha! ... Falando sério porra nenhuma!! Você não pode estar falando sério! ... Minha filha... Ô minha filha! Como é que você me faz isso? Todos esses anos de educação pra você me aprontar uma dessas! Eu vou morrer de desgosto Elisângela!! ... Vá pra Puta que pariu com esse papinho de “ano novo, vida nova”! Vida nova é o cacete! ... Fica quieta menina, não fale abobrinha! ... Você vai voltar pra casa agora, ou eu mando a polícia ir aí prender esse cretino que te está te iludindo! ... Bom moço? Ele casa contigo em menos de uma semana, te seqüestra, está te levando pra morar em algum barraco por aí sem nem sequer vir aqui pra pedir sua mão e você quer que eu engula que ele é um bom moço? ... Tavinho é o nome dele, é? Ele está aí perto? ... Então fala pro Tavinho que se ele não te trazer de volta agora, a coisa vai ficar preta pro lado dele! ... Deixa de ser burra Elisângela! Como é que ele vai te sustentar? Garanto que ele não tem nem onde cair morto. Aliás, nem você tem! Você nunca lavou uma peça de roupa na sua vida Elisângela! Como é que você vai querer ser dona de casa agora? ... Quem não está entendendo a situação é você! Você é uma burra, uma tonta! Esse Zé Mané vai te passar pra trás e te botar pra trabalhar! ... Como é que você não quer que eu fique nervosa? Você tem idéia da besteira que você está cometendo Elisângela? ... Rapaz direito é o cacete! Se ele tivesse um pingo de caráter tinha aparecido aqui antes pra pedir tua mão em namoro. Casamento então, ele só pediria depois de um bom tempo. Mas é claro: ele só faria isso se ele não fosse um picareta que ilude moças tontas que nem você! Bem que dizem que Deus dá peito grande ou cérebro, nunca os dois! ... Não deu pra esperar? Porque, hein? Por acaso o cartório ia explodir? O Padre ia ser excomungado? Como é que não dava pra esperar pra se casar então menina de Deus? ... Nem tente vir me explicar! Isso não se justifica por nada nesse mundo e... Como? ... Herança? ... Pai falecido dono de multinacional? ... Milionário? ... Comunhão de bens? ... Morar em Paris? ... Ô minha filha! ... Tadinho do Tavinho! ... É claro que agora eu entendo a situação! ... Você está certa. Amor sincero assim a gente não pode desprezar! ... Imagina, nem precisa se preocupar com seu pai. Eu explico tudo pra ele! ...Vai com Deus Elisângela! ... E por favor, cuida bem do Tavinho! Essas viagens intercontinentais devem cansar bastante! Um rapaz direito e sério assim a gente não encontra todo dia! ... Está quase se atrasando? Então corre filha! Você não pode perder esse vôo por nada nesse mundo! ... Feliz ano Novo pra você também minha filha amada! Pra você e pro Tavinho! ... E mande noticias assim que chegar lá, ok? ... Mamãe te ama minha princesa! ... Beijos!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Conto rápido pós Natal

A Maristela tinha acordado cedo pra arrumar a casa após os “festejos” natalinos da noite anterior. Depois de anos de insistência, a família finalmente tinha aceitado passar a ceia de Natal em sua casa. Para não fazer feio, ela caprichou nos preparativos. Muita comida, bebida à vontade e uma limpeza impecável estavam no pacote de melhorias implementadas na casa durante a semana.

Estava tudo perfeito. Tudo mesmo. Cada detalhe tinha sido milimetricamente checado por ela. Queria ver suas irmãs, famosas por suas críticas vorazes, morrendo de inveja. Nada poderia dar errado. Mas deu.

Maristela não contava com um detalhe: seu esposo, o Farias.

Depois de ter enchido a cara de cerveja e caipirinha, o dono da casa protagonizou momentos não muito agradáveis: passou a mão na bunda da sogra, quebrou o carrinho de controle remoto recém ganho pelo sobrinho, chamou o Almeidinha (primo depressivo da Maristela, recém saído do hospital após tentativa de suicídio) de “viadinho covarde e insignificante”, e, naquele que seria conhecido como o grande momento da noite, vomitou sobre a mesa de jantar minutos antes da ceia acontecer, inutilizando boa parte dos alimentos postos sobre a toalha de seda branca que tinha sido herdada pela família de sua esposa.

O estrago foi tão grande, que boa parte dos presentes preferiu voltar para casa sem comer. No fim das contas, o evento natalino tinha sido um total fracasso. A Maristela, furiosa, jurou que diria poucas e boas para o Farias assim que ele estivesse são o bastante para tomar uma surra.

No dia seguinte, o Farias acordou tarde, com o barulho da Maristela limpando a casa com o aspirador de pó. Mesmo não lembrando de praticamente nada do que tinha acontecido, algo lhe dizia que ele não tinha sido um bom anfitrião na noite anterior.

Foi só passar pela sala, para perceber a cara de maníaca homicida da esposa. Ficou em silêncio. Sabia que se abrisse a boca naquele momento, provavelmente não fecharia ela tão cedo. A Maristela se segurava para não voar em seu pescoço, mas ficou quieta também. Iria segurar sua fúria o máximo possível.

O Farias, para tentar fazer um agrado, resolveu colaborar com a faxina. Muitos dos pratos da festa (aqueles que não tinham sido atingidos por ele), ainda estavam encima da mesa. Resolveu guarda-los. De quebra, tentou fazer o primeiro contato verbal com a esposa.

-Amor... Sobrou bastante comida aqui. Onde é que eu enfio esse peru?

A Maristela parou, pensou, refletiu bastante, mas achou melhor não dar a sugestão que lhe veio à mente de onde o Farias deveria “enfiar o peru”. Apesar dos pesares, aquela ainda era uma época natalina. Tudo pela paz.

-Na geladeira Farias... Põe na geladeira.

Pois é. O amor é lindo.

Comentário inútil do blogueiro

PQP! Um dia eu ainda eu ainda vou dar uma festa de Natal para poder escolher a trilha sonora.

Alguém sabe o que é cear ouvindo Rick e Renner, César Menotti e Fabiano, Calypso e outros fenômenos musicais do gênero?

Como diria aquela velha canção do Milton Nascimento, trilha de uma novela antiga: "Irmão, é preciso coragem..."

Ainda bem que não tocou NX Zero, senão... bem, melhor nem pensar nas conseqüências.

Agora voltamos com nossa programação normal.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Espirito natalino

Anteontem tive a brilhante idéia de ir ao shopping procurar algumas bugigangas que precisava comprar já fazia um bom tempo. Que burrada. O que eu observei foi um cenário parecido com o de uma praça de guerra, da qual eu era um dos alvos em potencial. Resultado da empreitada: tomei três pisões no pé, um chute (involuntário, mas não menos nocivo) na canela e a frase mais humanitária que ouvi foi um “Vá se foder seu bosta! Não olha por onde anda não?”

Não sei se sou só eu (santa assonância), mas acho que o Natal mudou radicalmente nos últimos anos. Mudou pra pior. E olha que o maldito especial de fim de ano da Xuxa passa todo ano.

É bem verdade que esse espírito capitalista tão comum atualmente sempre existiu: não é de hoje que as pessoas fazem do dia 25 de dezembro um ótimo pretexto pra torrar as economias e encher a cara. O que me assusta, é que esse sentimento nunca esteve tão aflorado na mente das pessoas.

Antigamente existia um mínimo de cerimonial em preparação para a festa, todo um processo de reflexão e autoanálise. Hoje em dia, parece que toda essa conduta foi classificada como atitude supérflua. O que importa é o presente debaixo da árvore e a cerveja gelada encima da mesa. O resto é o resto.

Crenças à parte, o Natal é uma época propícia pra gente refletir à respeito de toda a nossa existência e de nossa conduta com relação às pessoas que nos cercam. Será que somos bons filhos, bons pais, boas pessoas? Foi assim que eu aprendi a fazer e é assim que eu pretendo agir por muito tempo. Não custa nada parar um pouquinho pra pensar no assunto. Experimente.

Outra coisa que me irrita profundamente é observar que esse maldito materialismo está infestando a mente das crianças. Antigamente, qualquer lembrancinha, por mais simplória e simbólica que fosse, era recebida com um sentimento de satisfação enorme. Felizes eram os tempos em que um carrinho sem controle remoto já era considerado um baita de um presente. Hoje em dia é capaz de algum garoto, ao ganhar uma bola de capotão (será que ainda existe?), perguntar “onde é que se coloca a pilha pra ela funcionar?”.

Enfim: chega desta reflexão cretina e pedante.

Obrigado a todos os amigos que se lembraram de mim nesta data mandando e-mails, mensagens e telefonemas desejando um feliz Natal. A recíproca é verdadeira.

Boas festas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Mundo pequeno

Me lembro que disse certa vez aqui nesta espelunca que Deus tinha um senso de humor bastante peculiar. O que eu não esperava era que ele levasse a piada a sério e demonstrasse como eu de fato estava certo.

Recebi ontem à tarde um comentário de um leitor deste Blog chamado Paulo Moreira Neto. Até aí, tudo bem. O problema é que este gentil senhor é homônimo (eu seja, tem exatamente o mesmo nome) de um dos personagens que citei em uma de minhas histórias datada de abril, chamada “O Beijo”. Até aí, tudo bem também. O problema é que eu atribuí um apelido não muito ortodoxo para o personagem “xará” deste leitor: Zorba. Educadamente, ele me pediu para esclarecer que o Paulo da crônica não é ele, já que sua esposa não está acreditando que o personagem em questão não tem nada a ver com a sua pessoa.

Ok, vamos por partes:

Lembro que a idéia desta “crônica” me surgiu ao acaso. Tinha lido algumas matérias na internet falando sobre o famigerado “dia do beijo”, data comemorativa que tinha acontecido durante aquela semana. Para não perder o embalo, resolvi redigir alguma crônica sacana que aproveitasse o gancho da data.

A história é fictícia. E quem já leu este blog algumas vezes sabe que eu tenho fetiche narrativo por casais discutindo, o que de certa forma justifica o formato da crônica. Todos os textos marcados com a palavra chave “desventuras” tem personagens falsos que foram criados pela mente doentia deste aprendiz de blogueiro que vos fala. Ou seja: o Paulo Moreira Neto em questão foi apenas uma coincidência. Aliás, nem sei bem o porquê da escolha do nome. Foi a primeira idéia que me surgiu. Não costumo perder muito tempo pensando neste tipo de detalhe. Aprendi que é melhor repensar esta conduta. Na próxima vou checar no Google!

Algumas das histórias foram sim inspiradas em alguma situação que presenciei, mas nesses casos, sempre faço questão de mudar o nome dos personagens envolvidos. Queimar o filme de alguém que eu conheço (e de quem eu nunca ouvi falar), é a última coisa que eu quero.

Quem ler a história vai sacar que nas circunstâncias da narrativa, só conseguiria ter um efeito cômico (sim, eu tento fazer humor) se conseguisse causar algum tipo de impacto ao atribuir um apelido para o personagem Paulo. Zorba foi o que me veio à mente.

Esse, aliás, era o pseudônimo de um amigo de um amigo meu. Zorba. Ficava me perguntando o que leva um sujeito a ser chamado assim. Admito que nunca quis descobrir.

O fato é que é um nome inusitado, diferente... engraçado. E a crônica até que ficou bacana. E olha que eu não gosto da maioria das coisas que coloco aqui.

Trocando em miúdos: tudo não passou de uma grande, e se me permite dizer Paulo, engraçada coincidência. Quem diria que eu conseguiria achar um Paulo Moreira Neto dando sopa por aí. Esse mundo é realmente do tamanho de um ovo.

Enfim: faço votos de um bom fim de ano pra você e pra sua esposa. E me desculpe por qualquer possível inconveniente.

É isso pessoal.

Um beijo no cérebro de quem por ventura passar por aqui.

Até breve!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A volta dos que não foram

Maldito Blogger! Sabem há quanto tempo eu estou tentando atualizar esta porcaria?

Tudo começou num belo dia em que decidi escrever mais uma de minhas abobrinhas. Estava deprimido por ter comido demais e enchido a cara de tubaína, e decidi que precisava afogar minhas mágoas fazendo alguém perder tempo lendo minhas imbecilidades. Arrumei tudo certinho, corrigi as maiores atrocidades à língua portuguesa que por ventura tinha cometido no meio da digitação, e quando clico no botão de publicar... nada.

Achei que era um erro momentâneo. Algumas horas depois tentei de volta, inutilmente. E assim foi, sucessivamente, durante alguns dias. Depois foram semanas. Quando vi, já tinha se passado um mês e pouco. Larguei os bets!

Cansado de apanhar, consultei um amigo entendido nesses assuntos de html que felizmente descobriu qual era o tal do problema. Pronto. Aqui estou eu de volta.

Isso rende até um devaneio: a mania que a gente tem de não depender dos outros. Parece um tema promissor. Vou anotar isso em algum lugar.

O ponto positivo destas férias forçadas é que tive que arranjar meios alternativos de matar minhas horas vagas, e com isso descobri um bocado de coisas novas. O ponto negativo é que certamente um monte de gente que passava por aqui acabou deixando de me visitar (acreditem: eu já tinha mais de quatro leitores. E olha que eu não estou contado nem meu pai, nem minha mãe) por achar que eu tinha abandonado minhas pretensões blogueiras. Além disso, perdi um bocado de horas vagas que tive à disposição para exercer mudanças e melhorias que vinha planejando já fazia um bom tempo. Agora, só no ano que vem.

O problema é que eu fiquei meio sem assunto. Quer dizer: assuntos não faltam. O que falta é uma idéia fixa que me chute o útero e peça pra vir ao mundo (putz... Que metáfora desprezível).

Enfim: vou refletir à respeito e voltar em breve. A menos que, é claro, esse blog volte a me sacanear.


P.S. (1): Ah sim... descobri também que os comentários anônimos no blog ficaram bloqueados por um bom tempo. Ou seja: quem não tinha uma conta do blogger, e por ventura quisesse fazer um comentário, elogio ou desejasse xingar alguma das gerações da minha família, acabou não conseguindo. O Beto (o amigo que me ajudou a concertar o blog) jurou que isso não vai mais acontecer. Se o problema continuar me avisem.

P.S. (2): Cena que presenciei hoje no ônibus, voltando pra casa: pai careta e filho pré-adolescente discutindo sobre presente natalino antecipado.


-Pô pai... Eu tinha pedido um MP3!

-E não foi o que eu te dei?

-Não! Isso daqui é um radinho de pilha.

-A moça que me vendeu falou que dava na mesma. Que esse tal de MP3 é igual um rádio, só que mais caro.

-Mas tem muita diferença.

-Que diferença?

-Dá pra baixar música da Internet pra tocar aqui.

-Você nem tem computador.

-Ahhhhh pai...

-Esse radinho é bem mais completo que MP3. Tem até toca fita. E quem saber? Só não comprei ele por um motivo.

-Qual?

-É que a moça da loja disse que o MP3 só tem FM e esse radinho aqui tem AM e FM.

-E pra que é eu vou querer ouvir AM????

-Ora... E como é que você acha que eu ia conseguir ouvir meus joguinhos de futebol? Não ouço esporte em FM de jeito nenhum!


Eu não sei quanto a vocês, mas eu adoro essa época de Natal.

domingo, 28 de outubro de 2007

Inocência

Filho de seis anos conversando com seus pais:

-Como é que vocês me tiveram?

-Como assim?

-Como é que vocês me tiveram? Quando é que vocês resolveram que queriam que eu nascesse?

-Bem... Na verdade você não foi planejado!

-Júlio!!

-O que foi?

-Isso lá é coisa que se diga pra criança?

-Só falei a verdade, ué?!

-Então vocês não queriam que eu tivesse nascido?

-É claro que queríamos, meu filho. Seu pai é que não soube te explicar direito.

-Mas é a verdade. Eu só estava...

-Ssshhh! Quieto!

-Vocês queriam, então?

-Lógico!

-Bem... Querer a gente não queria, mas aconteceu e foi algo muito bom pra gente.

-Júlio!!

-O que foi?

A Marisa pediu licença pro menino e foi dar uma bronca no esposo num canto da sala.

-Pare com isso! Vai confundir o menino. É claro que a gente queria o Pedrinho!

-Querer sim... Mas não naquela época. Vamos ser francos. A gente não esperava que você ficasse grávida. Nem namorado a gente era. Mas foi ótimo, porque isso uniu a gente. À força, mas uniu.

-Mas ele não precisa saber de todos esses detalhes. Não agora. Ele é muito inocente. Não entende direito como são estas relações afetivas entre homens e mulheres.

-Relações afetivas? Eu achei que a gente só tinha transado à toa e...

-Engraçadinho. Você entendeu muito bem o que eu quis dizer!

Minutos depois, o filho continuou a sabatina.

-Então vocês realmente não queriam que eu tivesse nascido?

-Não naquele momento!

-Chega Júlio. Não bota minhoca na cabeça do garoto!

-Mas eu só estou falando a verdade. Quero ser franco com o Pedrinho. Não é isso que você quer filho? Que a gente sempre fale a verdade para você?

O garoto balançou a cabeça afirmativamente, com a cara mais inocente do mundo. A Marisa não concordou.

-Não dá bola para o que seu pai está dizendo filho. A gente queria ter você sim. Não importa o que seu pai diga, a verdade é que nós queríamos.

O Júlio percebeu que discutir era inútil. Resolveu fazer coro com a esposa só para tentar dar um ponto final ao assunto.

-Sim filho: a gente queria tê-lo. Aconteceu cedo, mas foi ótimo. Você foi o maior presente que Deus já nos deu.

-Entendi. Mas porque aconteceu cedo?

-Como assim?

-Vocês queriam me ter. Mas ainda era muito cedo. Então, como é que aconteceu? O que foi que vocês fizeram pra que eu tivesse nascido tão cedo?

O casal se entreolhou tentando achar uma desculpa plausível. A resposta correta, teria que passar obrigatoriamente por detalhes de uma noitada mal planejada que acabou com uma gravidez precoce.

-Olha: Você quer saber mesmo a verdade? – Perguntou cuidadosamente a Marisa.

-Quero sim!

-Então tá: a verdade é que a gente se amava tanto, mas tanto, que você não esperou e resolveu nascer cedo!

O Júlio entrou na onda:

-Isso aí filho: eu e sua mãe gostávamos tanto um do outro, tínhamos tanto amor sobrando, que você resolveu vir bem rápido pra aproveitar tudo isso!

-Isso aí! Entendeu filho?

O garoto refletiu nas respostas durante algum tempo. Cara de pensativo.

-Acho que sim.

Missão cumprida. A Marisa e o Júlio tinham conseguido contornar a difícil situação. Existiam certos detalhes que deveriam ser poupados, sobretudo para um garoto naquela idade. A inocência do Pedrinho estava preservada.

-Mas vocês têm certeza mesmo que foi por isso que eu nasci?

-Temos sim, por quê?

-É que eu achei que vocês não tinham usado camisinha.

O silencio constrangedor que tomou conta da sala só foi cortado quando o Pedrinho declarou estar cansado e resolveu ir dormir. Algum tempo depois, já na cama, a Marisa estava sentada, imóvel, com cara de perplexa, tentando entender o que tinha acabado de presenciar. O Júlio, sem esconder um sorrisinho de contentamento com a sacada do garoto, desejou boa noite à esposa e foi dormir. Antes de adormecer ainda comentou:

-E depois ainda dizem que TV a cabo não ensina nada que preste para as crianças...