segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Espirito natalino

Anteontem tive a brilhante idéia de ir ao shopping procurar algumas bugigangas que precisava comprar já fazia um bom tempo. Que burrada. O que eu observei foi um cenário parecido com o de uma praça de guerra, da qual eu era um dos alvos em potencial. Resultado da empreitada: tomei três pisões no pé, um chute (involuntário, mas não menos nocivo) na canela e a frase mais humanitária que ouvi foi um “Vá se foder seu bosta! Não olha por onde anda não?”

Não sei se sou só eu (santa assonância), mas acho que o Natal mudou radicalmente nos últimos anos. Mudou pra pior. E olha que o maldito especial de fim de ano da Xuxa passa todo ano.

É bem verdade que esse espírito capitalista tão comum atualmente sempre existiu: não é de hoje que as pessoas fazem do dia 25 de dezembro um ótimo pretexto pra torrar as economias e encher a cara. O que me assusta, é que esse sentimento nunca esteve tão aflorado na mente das pessoas.

Antigamente existia um mínimo de cerimonial em preparação para a festa, todo um processo de reflexão e autoanálise. Hoje em dia, parece que toda essa conduta foi classificada como atitude supérflua. O que importa é o presente debaixo da árvore e a cerveja gelada encima da mesa. O resto é o resto.

Crenças à parte, o Natal é uma época propícia pra gente refletir à respeito de toda a nossa existência e de nossa conduta com relação às pessoas que nos cercam. Será que somos bons filhos, bons pais, boas pessoas? Foi assim que eu aprendi a fazer e é assim que eu pretendo agir por muito tempo. Não custa nada parar um pouquinho pra pensar no assunto. Experimente.

Outra coisa que me irrita profundamente é observar que esse maldito materialismo está infestando a mente das crianças. Antigamente, qualquer lembrancinha, por mais simplória e simbólica que fosse, era recebida com um sentimento de satisfação enorme. Felizes eram os tempos em que um carrinho sem controle remoto já era considerado um baita de um presente. Hoje em dia é capaz de algum garoto, ao ganhar uma bola de capotão (será que ainda existe?), perguntar “onde é que se coloca a pilha pra ela funcionar?”.

Enfim: chega desta reflexão cretina e pedante.

Obrigado a todos os amigos que se lembraram de mim nesta data mandando e-mails, mensagens e telefonemas desejando um feliz Natal. A recíproca é verdadeira.

Boas festas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Mundo pequeno

Me lembro que disse certa vez aqui nesta espelunca que Deus tinha um senso de humor bastante peculiar. O que eu não esperava era que ele levasse a piada a sério e demonstrasse como eu de fato estava certo.

Recebi ontem à tarde um comentário de um leitor deste Blog chamado Paulo Moreira Neto. Até aí, tudo bem. O problema é que este gentil senhor é homônimo (eu seja, tem exatamente o mesmo nome) de um dos personagens que citei em uma de minhas histórias datada de abril, chamada “O Beijo”. Até aí, tudo bem também. O problema é que eu atribuí um apelido não muito ortodoxo para o personagem “xará” deste leitor: Zorba. Educadamente, ele me pediu para esclarecer que o Paulo da crônica não é ele, já que sua esposa não está acreditando que o personagem em questão não tem nada a ver com a sua pessoa.

Ok, vamos por partes:

Lembro que a idéia desta “crônica” me surgiu ao acaso. Tinha lido algumas matérias na internet falando sobre o famigerado “dia do beijo”, data comemorativa que tinha acontecido durante aquela semana. Para não perder o embalo, resolvi redigir alguma crônica sacana que aproveitasse o gancho da data.

A história é fictícia. E quem já leu este blog algumas vezes sabe que eu tenho fetiche narrativo por casais discutindo, o que de certa forma justifica o formato da crônica. Todos os textos marcados com a palavra chave “desventuras” tem personagens falsos que foram criados pela mente doentia deste aprendiz de blogueiro que vos fala. Ou seja: o Paulo Moreira Neto em questão foi apenas uma coincidência. Aliás, nem sei bem o porquê da escolha do nome. Foi a primeira idéia que me surgiu. Não costumo perder muito tempo pensando neste tipo de detalhe. Aprendi que é melhor repensar esta conduta. Na próxima vou checar no Google!

Algumas das histórias foram sim inspiradas em alguma situação que presenciei, mas nesses casos, sempre faço questão de mudar o nome dos personagens envolvidos. Queimar o filme de alguém que eu conheço (e de quem eu nunca ouvi falar), é a última coisa que eu quero.

Quem ler a história vai sacar que nas circunstâncias da narrativa, só conseguiria ter um efeito cômico (sim, eu tento fazer humor) se conseguisse causar algum tipo de impacto ao atribuir um apelido para o personagem Paulo. Zorba foi o que me veio à mente.

Esse, aliás, era o pseudônimo de um amigo de um amigo meu. Zorba. Ficava me perguntando o que leva um sujeito a ser chamado assim. Admito que nunca quis descobrir.

O fato é que é um nome inusitado, diferente... engraçado. E a crônica até que ficou bacana. E olha que eu não gosto da maioria das coisas que coloco aqui.

Trocando em miúdos: tudo não passou de uma grande, e se me permite dizer Paulo, engraçada coincidência. Quem diria que eu conseguiria achar um Paulo Moreira Neto dando sopa por aí. Esse mundo é realmente do tamanho de um ovo.

Enfim: faço votos de um bom fim de ano pra você e pra sua esposa. E me desculpe por qualquer possível inconveniente.

É isso pessoal.

Um beijo no cérebro de quem por ventura passar por aqui.

Até breve!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A volta dos que não foram

Maldito Blogger! Sabem há quanto tempo eu estou tentando atualizar esta porcaria?

Tudo começou num belo dia em que decidi escrever mais uma de minhas abobrinhas. Estava deprimido por ter comido demais e enchido a cara de tubaína, e decidi que precisava afogar minhas mágoas fazendo alguém perder tempo lendo minhas imbecilidades. Arrumei tudo certinho, corrigi as maiores atrocidades à língua portuguesa que por ventura tinha cometido no meio da digitação, e quando clico no botão de publicar... nada.

Achei que era um erro momentâneo. Algumas horas depois tentei de volta, inutilmente. E assim foi, sucessivamente, durante alguns dias. Depois foram semanas. Quando vi, já tinha se passado um mês e pouco. Larguei os bets!

Cansado de apanhar, consultei um amigo entendido nesses assuntos de html que felizmente descobriu qual era o tal do problema. Pronto. Aqui estou eu de volta.

Isso rende até um devaneio: a mania que a gente tem de não depender dos outros. Parece um tema promissor. Vou anotar isso em algum lugar.

O ponto positivo destas férias forçadas é que tive que arranjar meios alternativos de matar minhas horas vagas, e com isso descobri um bocado de coisas novas. O ponto negativo é que certamente um monte de gente que passava por aqui acabou deixando de me visitar (acreditem: eu já tinha mais de quatro leitores. E olha que eu não estou contado nem meu pai, nem minha mãe) por achar que eu tinha abandonado minhas pretensões blogueiras. Além disso, perdi um bocado de horas vagas que tive à disposição para exercer mudanças e melhorias que vinha planejando já fazia um bom tempo. Agora, só no ano que vem.

O problema é que eu fiquei meio sem assunto. Quer dizer: assuntos não faltam. O que falta é uma idéia fixa que me chute o útero e peça pra vir ao mundo (putz... Que metáfora desprezível).

Enfim: vou refletir à respeito e voltar em breve. A menos que, é claro, esse blog volte a me sacanear.


P.S. (1): Ah sim... descobri também que os comentários anônimos no blog ficaram bloqueados por um bom tempo. Ou seja: quem não tinha uma conta do blogger, e por ventura quisesse fazer um comentário, elogio ou desejasse xingar alguma das gerações da minha família, acabou não conseguindo. O Beto (o amigo que me ajudou a concertar o blog) jurou que isso não vai mais acontecer. Se o problema continuar me avisem.

P.S. (2): Cena que presenciei hoje no ônibus, voltando pra casa: pai careta e filho pré-adolescente discutindo sobre presente natalino antecipado.


-Pô pai... Eu tinha pedido um MP3!

-E não foi o que eu te dei?

-Não! Isso daqui é um radinho de pilha.

-A moça que me vendeu falou que dava na mesma. Que esse tal de MP3 é igual um rádio, só que mais caro.

-Mas tem muita diferença.

-Que diferença?

-Dá pra baixar música da Internet pra tocar aqui.

-Você nem tem computador.

-Ahhhhh pai...

-Esse radinho é bem mais completo que MP3. Tem até toca fita. E quem saber? Só não comprei ele por um motivo.

-Qual?

-É que a moça da loja disse que o MP3 só tem FM e esse radinho aqui tem AM e FM.

-E pra que é eu vou querer ouvir AM????

-Ora... E como é que você acha que eu ia conseguir ouvir meus joguinhos de futebol? Não ouço esporte em FM de jeito nenhum!


Eu não sei quanto a vocês, mas eu adoro essa época de Natal.

domingo, 28 de outubro de 2007

Inocência

Filho de seis anos conversando com seus pais:

-Como é que vocês me tiveram?

-Como assim?

-Como é que vocês me tiveram? Quando é que vocês resolveram que queriam que eu nascesse?

-Bem... Na verdade você não foi planejado!

-Júlio!!

-O que foi?

-Isso lá é coisa que se diga pra criança?

-Só falei a verdade, ué?!

-Então vocês não queriam que eu tivesse nascido?

-É claro que queríamos, meu filho. Seu pai é que não soube te explicar direito.

-Mas é a verdade. Eu só estava...

-Ssshhh! Quieto!

-Vocês queriam, então?

-Lógico!

-Bem... Querer a gente não queria, mas aconteceu e foi algo muito bom pra gente.

-Júlio!!

-O que foi?

A Marisa pediu licença pro menino e foi dar uma bronca no esposo num canto da sala.

-Pare com isso! Vai confundir o menino. É claro que a gente queria o Pedrinho!

-Querer sim... Mas não naquela época. Vamos ser francos. A gente não esperava que você ficasse grávida. Nem namorado a gente era. Mas foi ótimo, porque isso uniu a gente. À força, mas uniu.

-Mas ele não precisa saber de todos esses detalhes. Não agora. Ele é muito inocente. Não entende direito como são estas relações afetivas entre homens e mulheres.

-Relações afetivas? Eu achei que a gente só tinha transado à toa e...

-Engraçadinho. Você entendeu muito bem o que eu quis dizer!

Minutos depois, o filho continuou a sabatina.

-Então vocês realmente não queriam que eu tivesse nascido?

-Não naquele momento!

-Chega Júlio. Não bota minhoca na cabeça do garoto!

-Mas eu só estou falando a verdade. Quero ser franco com o Pedrinho. Não é isso que você quer filho? Que a gente sempre fale a verdade para você?

O garoto balançou a cabeça afirmativamente, com a cara mais inocente do mundo. A Marisa não concordou.

-Não dá bola para o que seu pai está dizendo filho. A gente queria ter você sim. Não importa o que seu pai diga, a verdade é que nós queríamos.

O Júlio percebeu que discutir era inútil. Resolveu fazer coro com a esposa só para tentar dar um ponto final ao assunto.

-Sim filho: a gente queria tê-lo. Aconteceu cedo, mas foi ótimo. Você foi o maior presente que Deus já nos deu.

-Entendi. Mas porque aconteceu cedo?

-Como assim?

-Vocês queriam me ter. Mas ainda era muito cedo. Então, como é que aconteceu? O que foi que vocês fizeram pra que eu tivesse nascido tão cedo?

O casal se entreolhou tentando achar uma desculpa plausível. A resposta correta, teria que passar obrigatoriamente por detalhes de uma noitada mal planejada que acabou com uma gravidez precoce.

-Olha: Você quer saber mesmo a verdade? – Perguntou cuidadosamente a Marisa.

-Quero sim!

-Então tá: a verdade é que a gente se amava tanto, mas tanto, que você não esperou e resolveu nascer cedo!

O Júlio entrou na onda:

-Isso aí filho: eu e sua mãe gostávamos tanto um do outro, tínhamos tanto amor sobrando, que você resolveu vir bem rápido pra aproveitar tudo isso!

-Isso aí! Entendeu filho?

O garoto refletiu nas respostas durante algum tempo. Cara de pensativo.

-Acho que sim.

Missão cumprida. A Marisa e o Júlio tinham conseguido contornar a difícil situação. Existiam certos detalhes que deveriam ser poupados, sobretudo para um garoto naquela idade. A inocência do Pedrinho estava preservada.

-Mas vocês têm certeza mesmo que foi por isso que eu nasci?

-Temos sim, por quê?

-É que eu achei que vocês não tinham usado camisinha.

O silencio constrangedor que tomou conta da sala só foi cortado quando o Pedrinho declarou estar cansado e resolveu ir dormir. Algum tempo depois, já na cama, a Marisa estava sentada, imóvel, com cara de perplexa, tentando entender o que tinha acabado de presenciar. O Júlio, sem esconder um sorrisinho de contentamento com a sacada do garoto, desejou boa noite à esposa e foi dormir. Antes de adormecer ainda comentou:

-E depois ainda dizem que TV a cabo não ensina nada que preste para as crianças...

Diário de bordo

Sim, eu estou vivo. Os motivos da ausência? Falta de tempo, trabalhos de sobra e outros probleminhas de ordem particular. Em resumo: estava muito, mas muito atarefado.

O consolo? Dentro de algumas semanas terei mais tempo livre. Aí, quem sabe, eu consiga criar alguma coisa mais criativa e botar o papo em dia com meus parceiros e amigos da blogosfera.

Esperança não falta.

Ah sim: essa semana Curitiba vai receber o show de uma das minhas bandas favoritas, os Arctic Monkeys (já comentei deles aqui no blog), que vão participar do Tim Festival. Como terei compromisso no dia (entenda-se por aula na faculdade), e não poderei ir (entenda-se por falta de dinheiro) só me resta de consolo ouvir um dos seus novos e últimos sucessos em casa.

Aproveitem o embalo e ouçam também a canção “Fluorescent Adolescent”, single do mais recente álbum da banda chamado “Favourite Worst Nightmare”.

Divirtam-se.

Até qualquer dia desses.

Um beijo no cérebro.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Matosinho

A cena: pai aposentado e filho marmanjo discutindo sobre futebol na mesa de jantar. Na poltrona ao lado, a dona Célia, mãe do marmanjo e esposa do aposentado, tenta assistir mais um capítulo de sua novela.

-O Matosinho é seleção!

-Pára com isso. Vê lá se isso é coisa que se diga. O Matosinho?

-Claro... Me diz se tem alguém com mais vontade do que ele ali na “meiuca”?

-Vontade é uma coisa. Mas o cara não acerta um passe. Até eu consigo tocar melhor na bola do que ele.

-Não exagera!

-Não estou exagerando. Pelo contrário: o Matosinho chora de ruim.

-Vocês podiam falar um pouquinho mais baixo?

-Agora não querida. O papo aqui é sério. Estou tentando ensinar alguma coisa pra esse nosso filho.

-Mas vocês estão fazendo muito barulho!

-Querida: não sei se você sabe, mas nunca se interrompe um debate sobre futebol. Ainda mais quando ele chega num nível assim, de intensa discordância.

-Isso aí, mãe! Fica na sua que agora o papo é pra homem!

-Ah, é assim? Pois fiquem sabendo que...

-Volta pra sua novela amor, volta... A gente já dá atenção pra você.

A dona Célia ficou indignada, mas, para evitar briga, se calou.

-Pois então: o Matosinho pode não acertar um passe, mas o cara é um poço de raça. Lembra daquele lance no jogo passado em que ele dividiu a bola com o beque e por pouco não saiu sozinho na cara do goleiro?

-Pois é. Falou tudo: quase ganhou... Por pouco. Não existe um “quase grande jogador”. Ou o cara é bom, ou não é.

-Mas ele é bom.

-Não é não. O cara é grosso de bola.

-Você não tem argumento.

-Ah sim... O seu argumento é ótimo! O cara “quase conseguiu” ganhar uma bola no jogo passado. Só por isso ele merece ir pra seleção. Imagine então se ele tivesse conseguido desarmar o cara. Estaria no nível do Beckenbauer.

-Eu não disse isso!

-Como não? Você acabou de falar!

-Vocês podiam falar um pouco mais bai...

-Sssshhhh... Eu citei uma ocasião do jogo passado. Mas não foi só esse lance, isso é óbvio!

-Me fale de outra grande jogada dele, então.

-Ahhh... Têm tantas!

-Me diz uma só.

-Não lembro.

-Tá vendo? O cara não presta!

-Mas isso não quer dizer nada. Só porque eu não me lembre de outro lance, não é motivo pra você dizer que ele não presta.

-Me poupe, né pai?

-E o que você entende de futebol afinal de contas, hein? Quantos grandes jogadores você viu por aí?

-Você pergunta antes ou depois do Matosinho? Sim, porque do jeito que você fala, a história do futebol deveria ser dividida em AM e DM: "Antes de Matosinho" e "Depois de Matosinho". Para você, o cara está no nível de um craque.

-Já disse que ele não é craque. Só o acho um grande jogador, de muita raça, muita dedicação.

-Ele é um grande “pereba”, isso sim.

-Mas você ainda não me respondeu: quantos grandes craques você viu jogar para estar tão cheio de certeza no que fala?

-Ah tá! Agora você vai começar com esse joguinho cretino de insinuar que eu não sei do que estou falando só porque sou mais novo que você!

-E eu não tenho razão?

-Claro que não. Se fosse assim, o técnico da seleção teria que ter obrigatoriamente mais que 90 anos.

-Chega. Não adianta discutir. Você não entende nada de futebol.

-Se eu não entendo, você também não entende.

-Cresça meu filho... Tem muito o que aprender ainda.

-Cresça você pai! Precisa estudar um pouco sobre futebol. Seus conceitos estão todos defasados.

-Hunf!

-Hunf!

A discussão parecia ter chegado ao fim. A dona Célia, satisfeita, finalmente estava conseguindo ouvir com clareza o que os personagens da novela diziam. Pai e filho estavam ali, emburrados, inconformados com a teimosia alheia.

A situação parecia ter chegado num desfecho, até que, num gesto claro de provocação à figura da dona Célia, seu filho alfinetou:

-Pai! Para terminar o assunto: porque a gente não pede a opinião de quem realmente entende de futebol nesta casa? Mãe?! O que a senhora acha do Matosinho, hein?

O pai gargalhou com a dose concentrada de ironia do filho. A dona Célia, que eles soubessem, jamais tinha assistido a um jogo de futebol na vida. Na cabeça deles, ela mal sabia qual era o objetivo do esporte. Deveria ser daquelas que perguntava “pra que time jogava o homem de preto no meio do gramado”.

Mas a dona Célia parecia ter levado a sério a pergunta. Parou, pensou durante alguns instantes e emendou:

-Depende: o Matosinho, quando joga no meio campo, precisa ser mais acionado. Ele é um jogador limitado tecnicamente, mas tem um bom aproveitamento quando é colocado efetivamente pra jogar. Ele se infiltra bem e tem uma noção de espaço excelente. Além disso, sabe prender a bola na hora certa. Não o acho um jogador brilhante, mas creio que ele pode render bastante quando colocado na função certa. Acho também que pelas características dele, talvez melhorasse jogando como ala direita, chegando à linha de fundo. É bem verdade que o time joga no 4-4-2 e para se fazer isso, a formação teria que mudar pro 3-5-2. De qualquer forma, vejo que valeria a pena se pensar na mudança tática. A equipe provavelmente renderia mais, sobretudo com uma cobertura defensiva bem feita pelos volantes. Isso iria favorecer a liberação ofensiva dos alas, onde, como falei, acho que o Matosinho poderia fazer a diferença.

Boquiabertos. Assim ficaram pai e filho depois de ouvir a opinião da dona Célia.

-O que foi gente? Não concordam?

-Você gosta de futebol?

-Ouço as partidas sempre que posso. Antigamente, eles interrompiam a programação no rádio para transmitir os jogos. Acabei me acostumando e gostando da coisa. Assisto alguns na TV à cabo também. Além disso, sempre leio o caderno de esportes do jornal.

-E porque nunca comentou isso com a gente?

-Sei lá... Vocês nunca perguntaram! Além do mais, homem é muito palpiteiro. Acha que entende muito dessas coisas, quando na verdade mal sabe a diferença entre um sistema de jogo ofensivo e defensivo. Preferi ficar na minha, entendem?

O pai, desconsolado, pediu licença e saiu. O Filho ainda surpreso, também pediu licença, e foi ver o que tinha acontecido, deixando a mãe finalmente livre para desfrutar de sua novela.

-O que houve pai?

-Ah filho... sei lá! A gente passa 30 anos vivendo com uma pessoa e de uma hora para outra descobre que mal a conhece! Isso doi, sabe?

O filho entendeu os motivos da tristeza do pai. Como dormir numa mesma cama com uma esposa que entende mais de futebol do que si próprio? Como sair em lugares públicos sabendo que a qualquer momento a dona Célia poderia pormenorizar o esquema tático vigente na seleção e fazer um discurso em defesa do antigo futebol arte, tomando como exemplo de revolução técnica a criação do "Carrossel Holandês"? E ele também não estava imune. Como contar para os amigos que a própria mãe entendia tanto de novela quanto de esquemas de marcação? Seria humilhação pública na certa.

No dia seguinte, a dona Célia ainda não tinha entendido a súbita mudança de comportamento do marido. O Filho explicou que ele estava chateado, e que era melhor não interferir. Ela até pensou em pedir desculpas, mesmo sem saber bem de quê, mas o jogo já ia começar e ela resolveu deixar o papo com o esposo para mais tarde. Não podia deixar de ouvir seu futebolzinho por nada nesse mundo.

-Chuta Matosinho... Chuta!

sábado, 22 de setembro de 2007

Adjetivos

Essa semana tive a oportunidade de ir assistir a uma apresentação do espetáculo “Alegría”, do mundialmente conhecido Cirque du Soleil. Sim, a palavra correta para o caso é “oportunidade”. Não, eu não ganhei na loteria e não sou milionário. Não que quem tenha condições de pagar um ingresso para o espetáculo (os valores das entradas variam de R$130,00 até R$400,00 aqui em Curitiba) seja necessariamente um capitalista selvagem. Apenas acho que seria uma loucura um universitário bolsista pé-rapado que nem eu, desembolsar tamanha quantia de dinheiro. Pude ir, graças a uma boa ação da empresa que trabalho, que num gesto de incentivo aos funcionários, bancou todos os ingressos.

De qualquer forma, deixo claro que não pretendo contar aqui minhas impressões a respeito do espetáculo. O que me motiva a escrever esse devaneio é outra coisa: fui acusado (injustamente, que fique bem claro) de não ter curtido o circo. O motivo? Minha falta de originalidade na hora de adjetivar o que tinha visto.

***

-Quer dizer então que você foi no Cirque, né José?

-Sim. Fui sim!

-Mas e aí?

-Aí o quê?

-Ora... como é que foi?

Esse é o tipo de pergunta difícil de ser respondida. Não parece, mas é. Pense comigo: como compilar duas horas e meia de espetáculo em uma frase curta ou em uma única palavra, em um único adjetivo? Como conseguir retratar através disso todos os inúmeros fatos que você presenciou e suas impressões a respeito? Eu até que tentei:

-Ah... Foi bom!

Silêncio. O interlocutor fica me encarando, como que esperando o desfecho de meu relato. Eu, fico impávido.

-Bom?

-Sim!

-Como assim?

-Foi bom, ué?! Divertido!

-Cara: você vai ao melhor circo do mundo, e tudo o que tem a dizer é que foi “bom”?

-Sim.

-Ora! Me poupe! “Bom”? Isso lá é adjetivo que se dá a um show desse porte? Seja mais esforçado...

-Tá bom, tá bom!

-E então, como é que foi?

-Muito bom.

-Ahh Zé!

-O que foi?

-Muito bom? Você não gostou, não é?

-Gostei sim. Claro que gostei.

-Então como é que você tem coragem de chamar isso de “muito bom”? Seja criativo.

-Ué? E “muito bom” não serve?

-Serve, mas é pouco. “Bom” é o cirquinho de lona que a cada dois meses monta acampamento lá perto de casa. “Muito bons” são os circos que viajam pelo país. Mas você está falando do Cirque du Soleil. O melhor do mundo. Nem parece que você assistiu!

-Ok, desculpe. Não sabia que isso era errado.

-Errado não é! Mas isso lá é adjetivo que se dê? Francamente, hein José!

-Já pedi desculpas.

-Eu sei. Mas vá lá: prossiga!

-Com o quê?

-Com a descrição, né? O que mais poderia ser?

-Ah ta... Bem... O show tem números muito legais. É tudo muito bonito. Muito bem feito.

-Sei. O que mais?

-Ah... É tudo muito... Muito... Muito bom!

-Você está me sacaneando, né?

-Não! Mas é que a verdade é essa. Eu achei muito bom.

-É o melhor circo do mun...

-Eu sei que é o melhor do mundo, você já falou isso uma dúzia de vezes. Mas é que na minha escala de elogios, “muito bom” é algo muito... Muito bom, sabe?

-Não concordo. Olha, a gente é amigo. Pode abrir o coração. Você não gostou do show, não é?

-Já disse que gostei!

-Não é o que parece.

-E o que interessa para você saber se eu gostei ou não do tal circo? Qual a diferença que isso faz, afinal de contas?

-Esse é o melhor circo do mundo!

-Eu desisto...

-Quer saber? Chega... Continue contando como foi. Como você mesmo disse, não me interessa saber quais suas impressões. Quero os detalhes, só isso. Prometo que não vou interferir.

-Sei. Vou fingir que acredito.

-Pode apostar. A partir de agora, sem interferências. Mas do que você mais gostou afinal de contas?

-Ah... Os malabaristas são ótimos, o número do trapézio é super bonito. Tem umas meninas contorcionistas, um cara que faz acrobacias com fogo... Mas o mais bacana mesmo, foram os palhaços.

-Pára tudo Zé!

-O que foi agora?

-Você vai ao maior circo do mundo e diz que preferiu os palhaços?

-E qual o crime nisso?

-E não é óbvio? Eles têm artistas únicos. Profissionais que fazem acrobacias que mais ninguém no mundo é capaz de realizar. Desafiam os limites do corpo humano. Você assistiu a tudo isso na sua frente, a uns poucos metros, e diz que o que o circo apresentou de melhor foram os palhaços?

-Não disse que foram os melhores. Disse que foram os que eu mais gostei.

-E qual a diferença?

-Tem artistas mais completos no show, isso é fato, mas o número em que eu mais me diverti foi o dos palhaços.

-Não concordo.

-Concordar com o quê, homem de Deus?

-Com esse seu desprezo a um espetáculo tão fabuloso.

-Eu não estou desprezando porra nenhuma!

-Calma... Não se estresse!

-Como é que não vou me estressar se você fica falando um monte de abobrinhas? Quem foi no show fui eu, quem assistiu a tudo fui eu, portanto, só eu tenho o direito de afirmar se o espetáculo foi bom ou não. Eu uso os adjetivos que quiser, e ninguém tem nada a ver com isso, entendeu?

-Mas José: você não está sendo muito ameno nos seus elogios? Pense bem. Esse é o melhor circo do mundo e...

-Quer saber? Chega! Desisto! Juro que tentei agüentar, mas não deu.

-É que você parece muito desanimado. É até natural que alguém que tenha gasto uma nota preta num ingresso, como é o seu caso, acabe se decepcionando um pouco e fique com uma dor na consciência, pensando: “puxa, paguei tão caro e o circo não era isso que eu esperava!”

-Mas eu não paguei nada. Fui de graça.

-De graça?

-Sim. A empresa pagou nossas entradas.

-E você ainda tem coragem de reclamar?

-Como?

-Você está reclamando de um espetáculo que você nem ao menos pagou pra assistir? Que moral você tem pra falar alguma coisa, hein?

-Mas eu não estou reclamam...

-Isso é o cumulo do absurdo, José! Você menospreza um espetáculo desse porte mesmo sem ter desembolsado um centavo para assisti-lo. Como você tem coragem?

-Eu não menosprezei nada e...

-Você é um ingrato, ouviu bem? Um ingrato!

-Mas eu não queria ser ingrato. Desculpe!

-Quer saber José? Chega de conversar com você! Você vai ao melhor espetáculo do mundo, e não valoriza isso. A ingratidão é algo muito feio, sabia? Além do mais, você teve a coragem de dizer que odiou o circo.

-Mas eu disse que era muito bom!

-Tá vendo? É ainda pior! Está mentido! Diz uma coisa que obviamente não condiz com seus gestos. Acha que sou bobo?

-Por favor, me desculpe e...

-Chega! Outro dia a gente se fala. Quem sabe você tenha uma crise de consciência e perceba o gesto de ingratidão que está cometendo. Adeus...

O fulano vira de costas e me deixa ali, tentando me justificar. Eu ainda tento reagir... Em vão:

-Ei! Volta aqui... Era espetacular, ouviu bem? Espetacular!