domingo, 28 de outubro de 2007

Inocência

Filho de seis anos conversando com seus pais:

-Como é que vocês me tiveram?

-Como assim?

-Como é que vocês me tiveram? Quando é que vocês resolveram que queriam que eu nascesse?

-Bem... Na verdade você não foi planejado!

-Júlio!!

-O que foi?

-Isso lá é coisa que se diga pra criança?

-Só falei a verdade, ué?!

-Então vocês não queriam que eu tivesse nascido?

-É claro que queríamos, meu filho. Seu pai é que não soube te explicar direito.

-Mas é a verdade. Eu só estava...

-Ssshhh! Quieto!

-Vocês queriam, então?

-Lógico!

-Bem... Querer a gente não queria, mas aconteceu e foi algo muito bom pra gente.

-Júlio!!

-O que foi?

A Marisa pediu licença pro menino e foi dar uma bronca no esposo num canto da sala.

-Pare com isso! Vai confundir o menino. É claro que a gente queria o Pedrinho!

-Querer sim... Mas não naquela época. Vamos ser francos. A gente não esperava que você ficasse grávida. Nem namorado a gente era. Mas foi ótimo, porque isso uniu a gente. À força, mas uniu.

-Mas ele não precisa saber de todos esses detalhes. Não agora. Ele é muito inocente. Não entende direito como são estas relações afetivas entre homens e mulheres.

-Relações afetivas? Eu achei que a gente só tinha transado à toa e...

-Engraçadinho. Você entendeu muito bem o que eu quis dizer!

Minutos depois, o filho continuou a sabatina.

-Então vocês realmente não queriam que eu tivesse nascido?

-Não naquele momento!

-Chega Júlio. Não bota minhoca na cabeça do garoto!

-Mas eu só estou falando a verdade. Quero ser franco com o Pedrinho. Não é isso que você quer filho? Que a gente sempre fale a verdade para você?

O garoto balançou a cabeça afirmativamente, com a cara mais inocente do mundo. A Marisa não concordou.

-Não dá bola para o que seu pai está dizendo filho. A gente queria ter você sim. Não importa o que seu pai diga, a verdade é que nós queríamos.

O Júlio percebeu que discutir era inútil. Resolveu fazer coro com a esposa só para tentar dar um ponto final ao assunto.

-Sim filho: a gente queria tê-lo. Aconteceu cedo, mas foi ótimo. Você foi o maior presente que Deus já nos deu.

-Entendi. Mas porque aconteceu cedo?

-Como assim?

-Vocês queriam me ter. Mas ainda era muito cedo. Então, como é que aconteceu? O que foi que vocês fizeram pra que eu tivesse nascido tão cedo?

O casal se entreolhou tentando achar uma desculpa plausível. A resposta correta, teria que passar obrigatoriamente por detalhes de uma noitada mal planejada que acabou com uma gravidez precoce.

-Olha: Você quer saber mesmo a verdade? – Perguntou cuidadosamente a Marisa.

-Quero sim!

-Então tá: a verdade é que a gente se amava tanto, mas tanto, que você não esperou e resolveu nascer cedo!

O Júlio entrou na onda:

-Isso aí filho: eu e sua mãe gostávamos tanto um do outro, tínhamos tanto amor sobrando, que você resolveu vir bem rápido pra aproveitar tudo isso!

-Isso aí! Entendeu filho?

O garoto refletiu nas respostas durante algum tempo. Cara de pensativo.

-Acho que sim.

Missão cumprida. A Marisa e o Júlio tinham conseguido contornar a difícil situação. Existiam certos detalhes que deveriam ser poupados, sobretudo para um garoto naquela idade. A inocência do Pedrinho estava preservada.

-Mas vocês têm certeza mesmo que foi por isso que eu nasci?

-Temos sim, por quê?

-É que eu achei que vocês não tinham usado camisinha.

O silencio constrangedor que tomou conta da sala só foi cortado quando o Pedrinho declarou estar cansado e resolveu ir dormir. Algum tempo depois, já na cama, a Marisa estava sentada, imóvel, com cara de perplexa, tentando entender o que tinha acabado de presenciar. O Júlio, sem esconder um sorrisinho de contentamento com a sacada do garoto, desejou boa noite à esposa e foi dormir. Antes de adormecer ainda comentou:

-E depois ainda dizem que TV a cabo não ensina nada que preste para as crianças...

Diário de bordo

Sim, eu estou vivo. Os motivos da ausência? Falta de tempo, trabalhos de sobra e outros probleminhas de ordem particular. Em resumo: estava muito, mas muito atarefado.

O consolo? Dentro de algumas semanas terei mais tempo livre. Aí, quem sabe, eu consiga criar alguma coisa mais criativa e botar o papo em dia com meus parceiros e amigos da blogosfera.

Esperança não falta.

Ah sim: essa semana Curitiba vai receber o show de uma das minhas bandas favoritas, os Arctic Monkeys (já comentei deles aqui no blog), que vão participar do Tim Festival. Como terei compromisso no dia (entenda-se por aula na faculdade), e não poderei ir (entenda-se por falta de dinheiro) só me resta de consolo ouvir um dos seus novos e últimos sucessos em casa.

Aproveitem o embalo e ouçam também a canção “Fluorescent Adolescent”, single do mais recente álbum da banda chamado “Favourite Worst Nightmare”.

Divirtam-se.

Até qualquer dia desses.

Um beijo no cérebro.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Matosinho

A cena: pai aposentado e filho marmanjo discutindo sobre futebol na mesa de jantar. Na poltrona ao lado, a dona Célia, mãe do marmanjo e esposa do aposentado, tenta assistir mais um capítulo de sua novela.

-O Matosinho é seleção!

-Pára com isso. Vê lá se isso é coisa que se diga. O Matosinho?

-Claro... Me diz se tem alguém com mais vontade do que ele ali na “meiuca”?

-Vontade é uma coisa. Mas o cara não acerta um passe. Até eu consigo tocar melhor na bola do que ele.

-Não exagera!

-Não estou exagerando. Pelo contrário: o Matosinho chora de ruim.

-Vocês podiam falar um pouquinho mais baixo?

-Agora não querida. O papo aqui é sério. Estou tentando ensinar alguma coisa pra esse nosso filho.

-Mas vocês estão fazendo muito barulho!

-Querida: não sei se você sabe, mas nunca se interrompe um debate sobre futebol. Ainda mais quando ele chega num nível assim, de intensa discordância.

-Isso aí, mãe! Fica na sua que agora o papo é pra homem!

-Ah, é assim? Pois fiquem sabendo que...

-Volta pra sua novela amor, volta... A gente já dá atenção pra você.

A dona Célia ficou indignada, mas, para evitar briga, se calou.

-Pois então: o Matosinho pode não acertar um passe, mas o cara é um poço de raça. Lembra daquele lance no jogo passado em que ele dividiu a bola com o beque e por pouco não saiu sozinho na cara do goleiro?

-Pois é. Falou tudo: quase ganhou... Por pouco. Não existe um “quase grande jogador”. Ou o cara é bom, ou não é.

-Mas ele é bom.

-Não é não. O cara é grosso de bola.

-Você não tem argumento.

-Ah sim... O seu argumento é ótimo! O cara “quase conseguiu” ganhar uma bola no jogo passado. Só por isso ele merece ir pra seleção. Imagine então se ele tivesse conseguido desarmar o cara. Estaria no nível do Beckenbauer.

-Eu não disse isso!

-Como não? Você acabou de falar!

-Vocês podiam falar um pouco mais bai...

-Sssshhhh... Eu citei uma ocasião do jogo passado. Mas não foi só esse lance, isso é óbvio!

-Me fale de outra grande jogada dele, então.

-Ahhh... Têm tantas!

-Me diz uma só.

-Não lembro.

-Tá vendo? O cara não presta!

-Mas isso não quer dizer nada. Só porque eu não me lembre de outro lance, não é motivo pra você dizer que ele não presta.

-Me poupe, né pai?

-E o que você entende de futebol afinal de contas, hein? Quantos grandes jogadores você viu por aí?

-Você pergunta antes ou depois do Matosinho? Sim, porque do jeito que você fala, a história do futebol deveria ser dividida em AM e DM: "Antes de Matosinho" e "Depois de Matosinho". Para você, o cara está no nível de um craque.

-Já disse que ele não é craque. Só o acho um grande jogador, de muita raça, muita dedicação.

-Ele é um grande “pereba”, isso sim.

-Mas você ainda não me respondeu: quantos grandes craques você viu jogar para estar tão cheio de certeza no que fala?

-Ah tá! Agora você vai começar com esse joguinho cretino de insinuar que eu não sei do que estou falando só porque sou mais novo que você!

-E eu não tenho razão?

-Claro que não. Se fosse assim, o técnico da seleção teria que ter obrigatoriamente mais que 90 anos.

-Chega. Não adianta discutir. Você não entende nada de futebol.

-Se eu não entendo, você também não entende.

-Cresça meu filho... Tem muito o que aprender ainda.

-Cresça você pai! Precisa estudar um pouco sobre futebol. Seus conceitos estão todos defasados.

-Hunf!

-Hunf!

A discussão parecia ter chegado ao fim. A dona Célia, satisfeita, finalmente estava conseguindo ouvir com clareza o que os personagens da novela diziam. Pai e filho estavam ali, emburrados, inconformados com a teimosia alheia.

A situação parecia ter chegado num desfecho, até que, num gesto claro de provocação à figura da dona Célia, seu filho alfinetou:

-Pai! Para terminar o assunto: porque a gente não pede a opinião de quem realmente entende de futebol nesta casa? Mãe?! O que a senhora acha do Matosinho, hein?

O pai gargalhou com a dose concentrada de ironia do filho. A dona Célia, que eles soubessem, jamais tinha assistido a um jogo de futebol na vida. Na cabeça deles, ela mal sabia qual era o objetivo do esporte. Deveria ser daquelas que perguntava “pra que time jogava o homem de preto no meio do gramado”.

Mas a dona Célia parecia ter levado a sério a pergunta. Parou, pensou durante alguns instantes e emendou:

-Depende: o Matosinho, quando joga no meio campo, precisa ser mais acionado. Ele é um jogador limitado tecnicamente, mas tem um bom aproveitamento quando é colocado efetivamente pra jogar. Ele se infiltra bem e tem uma noção de espaço excelente. Além disso, sabe prender a bola na hora certa. Não o acho um jogador brilhante, mas creio que ele pode render bastante quando colocado na função certa. Acho também que pelas características dele, talvez melhorasse jogando como ala direita, chegando à linha de fundo. É bem verdade que o time joga no 4-4-2 e para se fazer isso, a formação teria que mudar pro 3-5-2. De qualquer forma, vejo que valeria a pena se pensar na mudança tática. A equipe provavelmente renderia mais, sobretudo com uma cobertura defensiva bem feita pelos volantes. Isso iria favorecer a liberação ofensiva dos alas, onde, como falei, acho que o Matosinho poderia fazer a diferença.

Boquiabertos. Assim ficaram pai e filho depois de ouvir a opinião da dona Célia.

-O que foi gente? Não concordam?

-Você gosta de futebol?

-Ouço as partidas sempre que posso. Antigamente, eles interrompiam a programação no rádio para transmitir os jogos. Acabei me acostumando e gostando da coisa. Assisto alguns na TV à cabo também. Além disso, sempre leio o caderno de esportes do jornal.

-E porque nunca comentou isso com a gente?

-Sei lá... Vocês nunca perguntaram! Além do mais, homem é muito palpiteiro. Acha que entende muito dessas coisas, quando na verdade mal sabe a diferença entre um sistema de jogo ofensivo e defensivo. Preferi ficar na minha, entendem?

O pai, desconsolado, pediu licença e saiu. O Filho ainda surpreso, também pediu licença, e foi ver o que tinha acontecido, deixando a mãe finalmente livre para desfrutar de sua novela.

-O que houve pai?

-Ah filho... sei lá! A gente passa 30 anos vivendo com uma pessoa e de uma hora para outra descobre que mal a conhece! Isso doi, sabe?

O filho entendeu os motivos da tristeza do pai. Como dormir numa mesma cama com uma esposa que entende mais de futebol do que si próprio? Como sair em lugares públicos sabendo que a qualquer momento a dona Célia poderia pormenorizar o esquema tático vigente na seleção e fazer um discurso em defesa do antigo futebol arte, tomando como exemplo de revolução técnica a criação do "Carrossel Holandês"? E ele também não estava imune. Como contar para os amigos que a própria mãe entendia tanto de novela quanto de esquemas de marcação? Seria humilhação pública na certa.

No dia seguinte, a dona Célia ainda não tinha entendido a súbita mudança de comportamento do marido. O Filho explicou que ele estava chateado, e que era melhor não interferir. Ela até pensou em pedir desculpas, mesmo sem saber bem de quê, mas o jogo já ia começar e ela resolveu deixar o papo com o esposo para mais tarde. Não podia deixar de ouvir seu futebolzinho por nada nesse mundo.

-Chuta Matosinho... Chuta!

sábado, 22 de setembro de 2007

Adjetivos

Essa semana tive a oportunidade de ir assistir a uma apresentação do espetáculo “Alegría”, do mundialmente conhecido Cirque du Soleil. Sim, a palavra correta para o caso é “oportunidade”. Não, eu não ganhei na loteria e não sou milionário. Não que quem tenha condições de pagar um ingresso para o espetáculo (os valores das entradas variam de R$130,00 até R$400,00 aqui em Curitiba) seja necessariamente um capitalista selvagem. Apenas acho que seria uma loucura um universitário bolsista pé-rapado que nem eu, desembolsar tamanha quantia de dinheiro. Pude ir, graças a uma boa ação da empresa que trabalho, que num gesto de incentivo aos funcionários, bancou todos os ingressos.

De qualquer forma, deixo claro que não pretendo contar aqui minhas impressões a respeito do espetáculo. O que me motiva a escrever esse devaneio é outra coisa: fui acusado (injustamente, que fique bem claro) de não ter curtido o circo. O motivo? Minha falta de originalidade na hora de adjetivar o que tinha visto.

***

-Quer dizer então que você foi no Cirque, né José?

-Sim. Fui sim!

-Mas e aí?

-Aí o quê?

-Ora... como é que foi?

Esse é o tipo de pergunta difícil de ser respondida. Não parece, mas é. Pense comigo: como compilar duas horas e meia de espetáculo em uma frase curta ou em uma única palavra, em um único adjetivo? Como conseguir retratar através disso todos os inúmeros fatos que você presenciou e suas impressões a respeito? Eu até que tentei:

-Ah... Foi bom!

Silêncio. O interlocutor fica me encarando, como que esperando o desfecho de meu relato. Eu, fico impávido.

-Bom?

-Sim!

-Como assim?

-Foi bom, ué?! Divertido!

-Cara: você vai ao melhor circo do mundo, e tudo o que tem a dizer é que foi “bom”?

-Sim.

-Ora! Me poupe! “Bom”? Isso lá é adjetivo que se dá a um show desse porte? Seja mais esforçado...

-Tá bom, tá bom!

-E então, como é que foi?

-Muito bom.

-Ahh Zé!

-O que foi?

-Muito bom? Você não gostou, não é?

-Gostei sim. Claro que gostei.

-Então como é que você tem coragem de chamar isso de “muito bom”? Seja criativo.

-Ué? E “muito bom” não serve?

-Serve, mas é pouco. “Bom” é o cirquinho de lona que a cada dois meses monta acampamento lá perto de casa. “Muito bons” são os circos que viajam pelo país. Mas você está falando do Cirque du Soleil. O melhor do mundo. Nem parece que você assistiu!

-Ok, desculpe. Não sabia que isso era errado.

-Errado não é! Mas isso lá é adjetivo que se dê? Francamente, hein José!

-Já pedi desculpas.

-Eu sei. Mas vá lá: prossiga!

-Com o quê?

-Com a descrição, né? O que mais poderia ser?

-Ah ta... Bem... O show tem números muito legais. É tudo muito bonito. Muito bem feito.

-Sei. O que mais?

-Ah... É tudo muito... Muito... Muito bom!

-Você está me sacaneando, né?

-Não! Mas é que a verdade é essa. Eu achei muito bom.

-É o melhor circo do mun...

-Eu sei que é o melhor do mundo, você já falou isso uma dúzia de vezes. Mas é que na minha escala de elogios, “muito bom” é algo muito... Muito bom, sabe?

-Não concordo. Olha, a gente é amigo. Pode abrir o coração. Você não gostou do show, não é?

-Já disse que gostei!

-Não é o que parece.

-E o que interessa para você saber se eu gostei ou não do tal circo? Qual a diferença que isso faz, afinal de contas?

-Esse é o melhor circo do mundo!

-Eu desisto...

-Quer saber? Chega... Continue contando como foi. Como você mesmo disse, não me interessa saber quais suas impressões. Quero os detalhes, só isso. Prometo que não vou interferir.

-Sei. Vou fingir que acredito.

-Pode apostar. A partir de agora, sem interferências. Mas do que você mais gostou afinal de contas?

-Ah... Os malabaristas são ótimos, o número do trapézio é super bonito. Tem umas meninas contorcionistas, um cara que faz acrobacias com fogo... Mas o mais bacana mesmo, foram os palhaços.

-Pára tudo Zé!

-O que foi agora?

-Você vai ao maior circo do mundo e diz que preferiu os palhaços?

-E qual o crime nisso?

-E não é óbvio? Eles têm artistas únicos. Profissionais que fazem acrobacias que mais ninguém no mundo é capaz de realizar. Desafiam os limites do corpo humano. Você assistiu a tudo isso na sua frente, a uns poucos metros, e diz que o que o circo apresentou de melhor foram os palhaços?

-Não disse que foram os melhores. Disse que foram os que eu mais gostei.

-E qual a diferença?

-Tem artistas mais completos no show, isso é fato, mas o número em que eu mais me diverti foi o dos palhaços.

-Não concordo.

-Concordar com o quê, homem de Deus?

-Com esse seu desprezo a um espetáculo tão fabuloso.

-Eu não estou desprezando porra nenhuma!

-Calma... Não se estresse!

-Como é que não vou me estressar se você fica falando um monte de abobrinhas? Quem foi no show fui eu, quem assistiu a tudo fui eu, portanto, só eu tenho o direito de afirmar se o espetáculo foi bom ou não. Eu uso os adjetivos que quiser, e ninguém tem nada a ver com isso, entendeu?

-Mas José: você não está sendo muito ameno nos seus elogios? Pense bem. Esse é o melhor circo do mundo e...

-Quer saber? Chega! Desisto! Juro que tentei agüentar, mas não deu.

-É que você parece muito desanimado. É até natural que alguém que tenha gasto uma nota preta num ingresso, como é o seu caso, acabe se decepcionando um pouco e fique com uma dor na consciência, pensando: “puxa, paguei tão caro e o circo não era isso que eu esperava!”

-Mas eu não paguei nada. Fui de graça.

-De graça?

-Sim. A empresa pagou nossas entradas.

-E você ainda tem coragem de reclamar?

-Como?

-Você está reclamando de um espetáculo que você nem ao menos pagou pra assistir? Que moral você tem pra falar alguma coisa, hein?

-Mas eu não estou reclamam...

-Isso é o cumulo do absurdo, José! Você menospreza um espetáculo desse porte mesmo sem ter desembolsado um centavo para assisti-lo. Como você tem coragem?

-Eu não menosprezei nada e...

-Você é um ingrato, ouviu bem? Um ingrato!

-Mas eu não queria ser ingrato. Desculpe!

-Quer saber José? Chega de conversar com você! Você vai ao melhor espetáculo do mundo, e não valoriza isso. A ingratidão é algo muito feio, sabia? Além do mais, você teve a coragem de dizer que odiou o circo.

-Mas eu disse que era muito bom!

-Tá vendo? É ainda pior! Está mentido! Diz uma coisa que obviamente não condiz com seus gestos. Acha que sou bobo?

-Por favor, me desculpe e...

-Chega! Outro dia a gente se fala. Quem sabe você tenha uma crise de consciência e perceba o gesto de ingratidão que está cometendo. Adeus...

O fulano vira de costas e me deixa ali, tentando me justificar. Eu ainda tento reagir... Em vão:

-Ei! Volta aqui... Era espetacular, ouviu bem? Espetacular!

sábado, 15 de setembro de 2007

Balanço 4

Fazia tempo que eu não aparecia. Tempo mesmo. Nem me lembrava ao certo da última vez que tinha publicado uma postagem. Sendo assim, resolvi aparecer “pessoalmente” aqui dar satisfações de como andam os dias desse dublê de blogueiro. Muita gente me ligou perguntando como eu estava ou como iam as coisas... me senti na obrigação de interromper a seqüência de “crônicas” que escrevi nos últimos tempos, para dar voz a mim mesmo, e contar em que pé anda a vida deste Zé. Chega de ser o narrador onisciente, pelo menos nessa postagem .

Aos interessados digo que está tudo muito bem, obrigado. A vida está numa fase ótima nos mais distintos e fascinantes pontos de vista. Realmente não tenho do que reclamar. Aliás, tenho sim: falta de tempo. Pra variar, ando completamente atarefado, e isso tem me tirado horas preciosas que pretendia utilizar na criação de novos projetos. Bem que Deus poderia pensar naquela minha idéia de criar uma lojinha que vendesse tempo. Enquanto o todo poderoso não analisa a proposta, cabe a mim continuar aprendendo a lidar com essas 24 horas diárias que tenho à minha disposição. É pouco, mas serve.

O blog também está me trazendo bons motivos de felicidade. Muita gente tem me visitado, e sobretudo, muita gente tem lido o que eu escrevo. Redundância? Não. Eu explico: na maioria dos “blogs amadores” (como o meu) que surgem por aí, quase 70% das visitas são oriundas do Google. Geralmente o internauta está procurando alguma informação específica na web, digita algumas palavras chave na busca, e coincidentemente elas batem com alguma das abobrinhas que escrevo por aqui. No meu caso, termos como “aprender a fazer uma poesia” e “contos românticos” (referência ao título desta crônica escrita em fevereiro) são os que mais trazem pessoas até aqui (Um exemplo bem recente é o termo "vergonha nacional", que se colocado no Google nos leva direto para... adivinhem... o site do senado federal). Entretanto, ao perceber que a busca dele não encontrou exatamente um manual virtual de como se fazer poesias, o visitante vai embora sem nem ao menos ler o que está escrito nessa birosca. Tenho percebido que isso está mudando aos poucos. Apesar da enorme maioria de visitantes ainda ser oriunda das buscas do Google, um número razoável de pessoas está passando por aqui de livre e espontânea vontade. Não que eu tenha alguma pretensão de ser famoso, ou de conseguir mais repercussão. Apenas fico contente de saber que tem gente que se identifica com meus devaneios pouco inspirados.

Idéias, como sempre, não me faltam. O que falta, como já disse anteriormente, é tempo útil pra pôr tudo em prática. Parafraseando Ricardo III: “Meu reino por uma hora livre!!”

Não sei se alguém percebeu, mas promovi algumas sutis mudanças visuais por aqui. Exercitei minhas pseudo-habilidades em Photoshop para confeccionar um cabeçalho novo para o blog. Tive outras idéias que não deram tão certo. Estou resistindo, por exemplo, a tentação de colocar elementos em HTML espalhados pela página. Acho que uma das características mais marcantes que quero passar aqui é a simplicidade visual: algo meio quadrado, nostálgico, sem muitos recursos tecnológicos, mas arrumadinho. Estou aberto (no bom sentido, que fique claro) à sugestões. Se alguém tiver alguma idéia de otimização visual para me sugerir, entre em contato. Pago uma tubaína depois como forma de agradecimento.

Ah sim: a todos que possuem, ou vierem a possuir algum ódio reprido em relação a este calhorda que vos fala, deixo aqui um brinde sugerido “carinhosamente” por uma de minhas inventivas amigas. Trata-se de um game on-line no melhor estilo “chute o traseiro deste infeliz”. O legal da história é que você pode personalizar a baixaria e colocar o seu rosto (ou o do seu desafeto) no personagem. Além desse jogo, existem outras versões bem bacanas. Vale a pena dar um conferida, nem que seja pra zoar um amigo seu. Para visitar o site, clique aqui. Para chutar o este blogueiro, é só ir logo aí abaixo.

Obrigado a todos pelo carinho.

Um beijo no cérebro.

Até mais.


domingo, 2 de setembro de 2007

Celular

O Fonseca chegou no trabalho empolgadíssimo:

-Gente... vocês não sabem da última!

-Oi Fonseca! Bom dia pra você também, né?

-Bom dia! Desculpem. É que eu estou tão empolgado que nem ao menos me lembrei de cumprimentá-los!

-É... percebemos! Mas está empolgado com o quê afinal de contas?

-Com isso: meu celular novo! O XVR 7000!

De dentro do bolso, o Fonseca sacou a novidade: um aparelhinho prateado, bonitinho, apenas um pouco maior que a média dos aparelhos celulares convencionais.

-Nossa... legalzinho!

-Legalzinho? Legalzinho??? Você está brincando, né?! Isso daqui é o supra sumo da tecnologia mundial, meu amigo!

-É?

-É sim!

-Não vi nada de diferente nele...

O Fonseca quase se ofendeu. Estavam subestimando a capacidade do seu recém adquirido monstro tecnológico.

-Ok. Vamos aos fatos: Para começar: essa belezinha aqui é feita de titânio. É tão resistente que suportaria um impacto de duas toneladas!

-É?

-Sim... além disso é completamente impermeável. Você pode derramar o que quiser nele: água, álcool, ácido. Pode escolher. Continua funcionando mesmo com temperaturas acima de 400°C e inferiores a -300°C.

-Caramba!

-Mas não é só isso: tem tela sensível ao toque e é acionado através de um código de voz ou com o escaneamento de impressão digital. É praticamente à prova de roubo.

-Puxa vida!

-Tem GPS, rastreamento via satélite, tradutor de voz para cinco idiomas... toca MP3 e MP4 e tem 7 gigas de memória para armazenamento. Som de CD e qualidade de imagem de DVD.

-Vixi!!

-Além disso ele sintoniza as principais TV’s a cabo do mundo. Tem acesso à internet via wireless. Tira fotos com até 7,5 mega pixels e é capaz de gravar até 5 horas de vídeo em excelente resolução.

-Ô loco!

-Também é uma espécie de controle remoto universal. Liga e desliga quase qualquer coisa: da sua TV ao alarme do seu carro.

-Afff...

-Deixe-me ver o que mais... ah sim: tem uma bateria auto-suficiente. Na extensão do aparelho existem fotocélulas que captam a luz solar e a transformam em energia.

-Caraca, maluco!

-Isso sem contar o visual: foi feito por um dos maiores designers do mundo. Seu formato já foi premiado diversas vezes ao redor do planeta.

Durante os minutos seguintes, o Fonseca continuou relatando todas as milhares de qualidades “high-tec” de seu aparelho japonês, sob atentos olhares do resto de seus colegas de escritório.

-É Fonseca... Desculpe! Acho que subestimamos a capacidade do seu aparelhinho!

-Subestimaram sim, mas estão perdoados. Vocês não tem culpa. Não entendem muito de alta tecnologia. Até eu acabo me equivocando de vez em quando com algumas coisas.

-Ele realmente parece ser incrível. Deve ter custado uma nota, imagino.

-Sim. Realmente seu preço é bem alto. Mas, como um legítimo apreciador da boa comunicação, me dei ao luxo de comprá-lo.

Missão cumprida. O Fonseca tinha conseguido impressionar a todos. Pelo menos até aquele momento.

-Bem... mas já que você está de celular novo, trate de passar logo o número pra gente!

-Isso aí Fonseca! Qual é o número do super, mega, hiper XVR 7000?

-Número?

-É Fonseca, o número! Que eu saiba todo celular tem um número!

O Fonseca coçou a cabeça, pensou durante alguns segundos, e chegou à conclusão de que, surpreendentemente, não sabia o número do próprio celular. Isso se o celular tivesse um número. Pelo que tinha lido no manual de instruções, que tinha quase 700 páginas e explicações em 10 línguas diferentes, inclusive braile, não existia menção alguma sobre realizar ou receber ligações.

-Bem... é... sabem... eu acho que ele é...

-Não vai dizer que o Godzilla com teclas não funciona?!

-É claro que funciona! O XVR 7000 é o que existe de mais moderno e avançado do ponto de vista da tecnologia em todo o mundo!

-Super avançado! Só não faz nem recebe ligações! Hahahaha

O Fonseca ainda tentou reagir, mas não adiantou. Já tinha virado motivo de piada no escritório. O tal celular, que segundo o manual era o novo marco das comunicações mundiais, fazia de tudo, menos o que um telefone comum deveria fazer.

Mas, segundo o "feliz" proprietário do XVR 7000, o pior não era ter que agüentar as tirações de sarro. O chato mesmo era depender dos outros para fazer ligações.

-Ei Silva... dá pra me emprestar o celular rapidinho? Depois te pago!

-Toma, Fonseca... toma...




Sugestões: imagem enviada pelo meu colega Oscar. E não é que tem a ver mesmo com o meu texto?

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Confissões

O Carlos, o Vitor, o Alberto e o Noronha tinham chegado num acordo: iriam revelar ali, naquela mesa de bar, seus maiores segredos uns aos outros. Já eram amigos a pelo menos duas décadas, sendo assim, na visão deles, nada mais justo do que colocar na roda aqueles fatos que sempre tentaram esconder do resto do mundo. Seria a prova definitiva da união daqueles quatro “quase irmãos”. Prova de que confiavam uns nos outros a tal ponto, que teriam coragem de expor ali seus maiores dramas e frustrações. Depois disso, definitivamente, ninguém poderia se atrever a questionar a amizade do bando.

Foi o Vitor que, motivado pelo dever cívico de fortalecer a união do grupo e pela décima segunda rodada de cerveja, teve a idéia de realizar a sessão de confissões. Os outros três integrantes da mesa, visivelmente comovidos com a iniciativa e com o alto nível etílico que lhes guiava, concordaram prontamente. O único que questionou um pouco a empreitada foi o Noronha, sem sucesso.

Como autor da idéia, o Vitor tomou a palavra.

-Pois é pessoal! Vou começar... todo mundo me ouvindo?

O Carlos e o Noronha balançaram a cabeça afirmativamente. O Alberto só teve forças para emitir um soluço, o que no consenso dos demais significava um “sim”.

-Ok... lá vou eu!

O resto do grupo aplaudiu a iniciativa do Vitor. Todos os tipos de apoio e manifestações de incentivo eram válidos naquele momento.

-Bem... vocês devem saber que eu sempre fui um defensor da boa música, não é? Sempre fiz questão de escutar tudo aquílo que existe de melhor, seja no rock, na MPB, no jazz, no soul, nos grandes compositores eruditos...

Todos concordaram. De fato ninguém entendia melhor de boa música no grupo do que o Vitor. E ele realmente só ouvia o que existia de melhor. Chegou ao cúmulo de convidar todos os colegas de colégio da filha para uma festa de aniversário em sua casa, e pôr para tocar a nona sinfonia de Beethoven. A festa foi um fracasso, para desespero da filha que jurou nunca mais permitir que o pai organizasse qualquer evento em seu nome.

-Pois bem: admito, com muita, mas muita vergonha, que nos últimos dias eu tenho ouvido uma banda meio... meio...

-Coragem Vitinho! – Bradou o Carlos!

-Obrigado! Pois então: minha filha comprou um CD dessa banda, e pôs pra tocar o dia inteiro! No começo eu achei horrível. Mal feito, mal executado, ruim aos ouvidos... mas com o tempo... com o tempo tudo começou a ficar poético, entendem? É como se a música começasse a fazer sentido, e quando eu me vi, eu estava cantarolando ela em todo o canto. Tentei parar. Juro que tentei. Mas não pude, era mais forte que eu. Mais forte!

Silêncio. O resto da mesa ouvia o relato respeitosamente.

-Gente... eu, Vitor de Almeida Barreto, admito: nos últimos tempos, eu tenho ouvido RBD!

-Meu Deus! – Exclamou Carlos.

-Caramba! – Bradou Noronha.

-Hic! – Soluçou Alberto.

-Pois é gente... é triste! Eu sei que é! Mas é tão forte, é um ritmo tão sedutor. Eu tive que continuar. Comprei todos os CD’s e DVD’s, me filiei ao fã clube, decorei todas as músicas... lembram que eu furei naquele dia em que nós tínhamos um jogo marcado? Pois é... eu tinha ido no show deles aqui no Brasil!

-Poxa vida, cara... o caso é sério mesmo!

-É sim! E o pior gente: semana passada, minha filha veio reclamar que eu estava cantando uma das músicas deles alto demais! Que ela não conseguia se concentrar na lição de casa! Imaginem isso! Minha própria filha me repreendendo por eu cantar uma música do RBD!? Isso é demais pra minha cabeça!

-Acontece cara... acontece!

Como forma de reconhecimento pela coragem, o Vitor recebeu uma nova salva de palma dos colegas, ainda mais efusiva, chamando a atenção de todo o resto do bar.

-Obrigado gente! Sabia que podia confiar em vocês! E que isso fique só entre nós, ok?

Todos concordaram. A discrição era parte do acordo. O próximo a pôr seus segredos na roda foi o Carlos:

-Bem... vocês devem se lembrar do gato da dona Filomena. Sabem qual?

O gato em questão, chamado Floquinho, era o mascote dos quatro quando pequenos. Estava junto com eles em todos os momentos: das brincadeiras na rua ao bate papo embaixo da árvore depois de um dia inteiro de traquinagens. Coisa bonita de se ver. A dona Filomena adorava ver o seu gatinho de estimação interagindo com a garotada e não se importava com as tardes inteiras em que ele desaparecia. Sabia que estava em boas mãos, e que invariavelmente no fim do dia, lá estaria ele deitado na varanda, descansando e esperando o jantar. Infelizmente, certo dia, ele não voltou. Sumiu sem deixar pistas. O consenso foi de que ele teria sido roubado por alguém, ou tivesse se perdido. De qualquer forma, todos sentiram muito a falta do bichinho, principalmente a dona Filomena, que dizia nunca mais ter encontrado felino igual.

-Sim, acho que todos lembramos! O Floquinho... nosso velho mascote! O que tem ele?

-Lembram que ele sumiu?

-Sim!

-É claro!

-Hic!

-Pois então... a culpa foi minha! Eu o vendi pra um dos meus tios que mora lá no interior! Ele veio nos visitar e se apaixonou pelo tal gato! Me ofereceu alguns tostões, e eu não pude evitar: acabei vendendo ele!

A confissão era pesada. O Carlos tinha vendido o mascote da turma, um animal que, inclusive, nem era dele.

-Poxa vida!

-Cacete!

-HIC!

-É... eu sei! Isso foi terrível, né? Não acredito que tive coragem de fazer aquílo! Sempre que penso nisso, ainda hoje, fico com a consciência pesada!

-...

-Vocês ficaram quietos! Não engoliram a história do gato, não é? Sabia que não devia ter contado!

-Você há te entender que o caso é grave...

-Você vendeu o gato da dona Filomena, cara! Isso é terrível! A velha quase teve um treco quando percebeu que o gato tinha sumido!

-Hic!

-Eu sei gente, eu sei! Se pudesse voltar no tempo, eu não teria vendido ele... ou pelo menos teria cobrado mais caro! Eu era criança, bobinho. Não tinha idéia do que estava fazendo. Além do mais, vocês prometeram perdoar tudo! Era parte do acordo!

Era verdade. A compreensão também era fundamental para que a rodada de confissões fosse bem sucedida.

-Ok, Carlos... você foi corajoso botando pra fora esse fato! Foi preciso ter muita coragem e confiar muito no grupo! Parabéns!

-Obrigado gente! Vocês não fazem idéia do peso que e tirei das costas!

Efusivos aplausos seguiram a demonstração de coragem explicita protagonizada pelo Carlos.

-Bem... acho que agora, todos concordamos que quem está em melhores condições para fazer a confissão é o Noronha! O Alberto bebeu um pouco demais e...

-Que nada! Eu quero falar agora! – Bradou o Alberto, decidido, na primeira frase completa que ele tinha conseguido formular em horas.

-Ok... manda ver então!

-Olha... eu... eu sou um bosta! Um bosta, gente! Não fui eu que terminei com a Carmem! Foi ela! Eu disse pra todo mundo que eu tinha chutado ela, que tinha enjoado dela... mas não! Foi ela quem terminou comigo! Estava tudo normal, tudo lindo, até que ela chegou em mim, do nada, e falou: “Acabou Alberto...não quero mais você!”

-Nossa!

-Agora eu pergunto: o que foi que eu fiz de errado, hein? Sempre segui as regras, as normas. Sempre tentei ser um bom marido... e daí ela chega e diz que não me quer mais?! O que podemos concluir com isso? Que eu sou um bosta! Um b, o, x, d, t, a, e mais um ç que eu não lembro onde se coloca! Só isso! E o pior, sabem o que é? Eu ainda amo ela! Penso nela toda maldita noite! Choro de saudades feito uma criança, quando deveria estar odiando ela!

O Carlos e o Vitor se assustaram com a reação auto destrutiva do Alberto. Ele que sempre tinha se comportado como um legítimo machão, estava ali, quase aos prantos, admitindo que era submisso a sua ex mulher. O caso da separação, aliás, não estava bem explicado até então. Certo dia ele chegou afirmando que tinha se cansado do casamento, e que, sem motivo nem razão aparente, acabou com tudo. Fez chacota do caso, dando a entender que era areia demais para o caminhãozinho da esposa. Chegou a dizer que a Carmem chorou, berrou e esperneou, mas que nem assim ele tinha se compadecido com os pedidos de uma segunda chance feitos por ela.

-Calma cara... não precisa se auto flagelar!

-Que nada! Eu vivia uma fantasia! Fazendo todo mundo acreditar que eu era um cara durão, um dominador... quando na verdade eu tomei um fora da minha mulher! É deprimente gente, eu sei!

O Carlos e o Vitor consolaram o velho amigo:

-Que nada cara... você mostrou que é macho! Só alguém com muita coragem admitiria isso!

-Verdade! Tu é um exemplo pra todos os homens desse mundo!

-Bota exemplo nisso! Você é quase um herói rapaz! Devia ser saudado em praça pública!

-Verdade!

O Alberto ficou comovido com a atitude dos colegas!

-Poxa gente! Obrigado! Vocês são os melhores amigos desse mundo, mesmo!

-Imagina cara... aqui é assim mesmo! Um por todos e todos por um. Somos quase irmãos lembra?

-Isso aí!

-Verdade! Nunca me senti tão bem me libertando de uma mentira! Sabem? Eu Acho que eu nunca vou entender o porque ela me abandonou. Acho também que vou amar ela para sempre. Fazer o que, né? São coisas da vida!

Todos concordaram. Clichês à parte, eram coisas da vida.

-Pois é... mas vamos animar esse papo!

-Só sobrou você Noronha! Qual é o grande segredo que você quer revelar aos seus amigos?

-Eu to namorando a Carmem!

A declaração ecoou como uma bomba no recinto. Os três ficaram perplexos, sobretudo o Alberto, que com o baque da notícia quase se afogou com o gole de cerveja. Prevendo o pior, o Vitor tentou evitar que o Noronha continuasse, mas não teve tempo:

-Noron...

-E digo mais: ela terminou com você, Alberto, porque a gente já tinha ficado junto antes mesmo da separação de vocês!

-Noronha, vamos esquecer esse papo e...

-Fui eu que pedi pra ela terminar com você! Ela estava infeliz e eu não queria que ficássemos te enganando daquele jeito!

-Noronha...

-Eu to falando isso porque eu te amo cara! Você é quase um irmão pra mim e eu sei que vai me entender! Ela não guarda mágoas suas. Estamos até pensando em te convidar pra ser padrinho no nosso casamento. A notícia é meio repentina, eu sei, mas creio que em pouco tempo tudo vai voltar ao normal. O que acha?

O Alberto não esboçava reação alguma. Apenas ouvia os relatos, sem se mexer.

-É isso gente... esse é o meu segredo!

-...

-Vamos lá... falem! Alberto, meu irmão, me diz alguma coisa! Quero ouvir o que o meu grande amigo tem a dizer!

-Seu filho de uma puta!

Num pulo, o Alberto sobrevoou a mesa e por pouco não conseguiu agarrar o pescoço do Noronha, que se não fosse rápido, estaria em sérios apuros. O Carlos imediatamente agarrou o colega, antes que ele voltasse a tentar investir contra o novo namorado de sua ex-mulher. O Vitor não se conformou:

-Porra, Noronha!

A noite era para confissões, é verdade. Mas não para confissões tão reveladoras assim.

O Noronha ainda se defendeu...

-Eu falei que isso não ia dar certo, eu falei!