domingo, 27 de abril de 2008

Terremoto

Nesta última semana o país foi chacoalhado (com trocadilho, por favor) pela notícia de um terremoto de 5,2 graus na escala Richter, cujo epicentro do abalo foi a cerca de 270 quilômetros da costa brasileira. Mesmo relativamente longe de "terra firme", o fenômeno foi sentido em pelos menos quatro Estados brasileiros, incluindo o meu, o aprazível Paraná. Um susto e tanto para quem achava que o maior risco de catástrofe que atormentava nosso país era o caráter e a honestidade de nossos políticos.

Não há registro de grandes estragos nem de vítimas fatais, já que o principal feito do tremor, segundo relatos dados à mídia do país inteiro, foi fazer com que os mais idosos pensassem que estavam tendo uma crise de pressão ou de labirintite.

Aqui em Curitiba, apenas alguns bairros sentiram os tremores, e mesmo assim, só em edifícios mais altos. Eu por exemplo, que no momento estava em aula, não senti absolutamente nada... Quer dizer: senti sono, cansaço e fome, coisas que, acredito eu, não dependem da ocorrência de abalos sísmicos para acontecer.

De qualquer forma, não deixa de ser interessante constatar um fato: eu sobrevivi a um terremoto. O sexto maior da história do nosso País. Um dia direi isso para o meu neto e ele provavelmente vai pensar que eu sou uma versão real do John Mclane, Magaiver, Jack Bauer ou Chuck Norris... Isso se ele ouvir falar de algum deles até lá.

Mas o assunto nem é esse. Juro que ouvi dúzias de relatos de amigos e colegas falando que presenciaram todo tipo de histeria coletiva em função do ocorrido: desde gente se recusando a sair debaixo de mesas, até choro desesperado.

Isso nos leva a refletir sobre como um determinado fato pode ter influências distintas de pessoa para pessoa.

Dá até pra imaginar certas coisas:

***

-Alô?

-Alô! Bianca?

-Sim?

-É o Rafael!

-Rafael?

-Sim... Lembra de mim?

-Ai! Desculpe... Deve ser o cansaço! Não estou lembrando.

-Ah não? Fui seu colega no colegial!

-Colegial?

-É! Colegial! Você sabe... O ensino médio, antigo segundo grau!

-Sim, isso eu sei. Mas isso foi há quase 15 anos atrás!

-Pois é... E então, lembrou de mim?

-Bem... Rafael, né? Deixa eu pensar um pouco.

-Um loirinho, baixinho.

-Olha, sinceramente... Não me vem nada na cabeça!

-Ah... Bem... Fazer o que, né?

-Desculpe mesmo. Deve ser a idade!

-Imagina! Você está super conservada. A idade te fez bem.

-Como?

-A idade te fez bem. Você está linda.

-Como é que você sabe disso?

-Do que?

-Que eu “estou linda”? Que eu saiba a gente não se vê faz uns 15 anos!

-Bem... É que eu ando te observando, sabe?

-Como é que é? Me observando?

-Sim! Eu sei muita coisa sobre você!

-Ai Meu Deus... O que você quer de mim, hein?

-Nada, não se preocupe. É que eu sempre te admirei... Mas não tinha coragem de admitir! Mesmo assim, não pude deixar de me manter interado sobre você durante todos esses anos.

-Você está me assustando!

-Não! Por favor, não faça isso. Não se assuste!

-Como é que você quer que eu fique calma? Um cara me liga dizendo que anda me observando secretamente nos últimos 15 anos e você quer que eu fique calma?

-Eu sei que é chato! Eu não pretendia revelar isso... Mas é que eu tive um sinal.

-Sinal?

-Sim! O terremoto!

-O que é que tem o terremoto?

-Ora: ele foi um sinal! Um aviso dos céus de que a gente tem que aproveitar a vida. Você já viu um terremoto antes no Brasil? Isso é a prova de que tudo está mudando! Que a vida é curta demais para se negar o que a gente sente.

-Você está louco!

-Não! Não estou. Estava pensando em você quando tudo aconteceu. Pensei comigo mesmo: “Poxa vida... De que me adianta amar uma mulher se ela não sabe disso? Daqui a pouco acontece uma tragédia de verdade, tipo um terremoto forte, um furacão, uma erupção vulcânica de grandes proporções e todo o amor que eu cultivei não vai ter valido de nada.”

-Para começar: o Brasil não tem nenhum vulcão!

-Pode começar a ter. Já pensou nisso? Tudo é possível. Foi pensando nisso, no quanto a nossa vida é vulnerável diante do poder na natureza, é que eu resolvi tomar coragem e te ligar.

-Escuta Roger...

-Rafael!

-Desculpe... Rafael: eu nem lembro direito de você! Como é que você quer que aconteça alguma coisa entre a gente?

-Eu já pensei em tudo! Vamos sair para beber alguma coisa? Um copo de leite, sei lá! Daí, a gente bota o papo dos 15 anos em dia e você pode me conhecer de verdade.

-Eu sou casada!

-Eu sei! Mas o seu marido é um chato, com todo o respeito. Acho que se você me conhecesse de verdade, iria largar ele.

-Pelo amor de Deus... Eu amo ele! Tenho filhos com ele! Como é que você acha que eu vou largar tudo pra ficar com um cara que eu nem lembro que passou pela minha vida?

-Eu sabia que você ia agir assim. Mas com o tempo você vai me dar razão! Eu vou esperar por você o tempo que for preciso! Aquele tremor não foi à toa.

-É mais fácil acontecer outro terremoto do que eu dar bola para um maluco como você!

-Pode falar, pode falar... Quer saber? No fundo no fundo você lembra quem eu sou. Só está se fazendo de difícil!

-Eu não acredito no que eu estou ouvindo!

-Eu estou certo não estou? Pode dizer “eu te amo!”. Vamos lá, não negue seus sentimentos, estou esperando. A natureza quer nos unir meu docinho!

-Tchau Roger...

-É Rafael... Tá ouvindo? Rafael! Alô? Alô??

domingo, 13 de abril de 2008

Status

Abre aspas. Uma das melhores definições não oficiais que eu já li sobre uma determinada coisa é a da palavra status, feita por algum anônimo. Ele é mais ou menos assim: “Status é comprar uma coisa que você não quer, com um dinheiro que você não tem, para mostrar para gente que você não gosta, uma pessoa que você não é”. Se alguém descobrir quem escreveu isso, favor avisar que eu dei-lhe os cumprimentos pela frase. Posto isso, vamos à história propriamente dita.

***

Escritório. Amigos reunidos. Celulares em punho. Assunto em discussão: toques dos aparelhinhos e o eventual sucesso que fazem com quem por ventura ouvisse o som.

-O meu toca Funk. Sabe o “Créu”? Então... A mulherada gosta!

-Bacana...

-O meu é Beatles. “Love Me Do”. Sabem qual? É só tocar, que o pessoal pede para repetir.

-Ah... Beatles é Beatles, né?

-É sim! Não tem quem não goste.

-Já o meu toca Beethoven. A nona sinfonia. Já deixei de atender a ligação uma porção de vezes porque tenho dó de interromper.

-Faz bem. Música assim a gente não pode parar.

-Concordo.

-O meu tem punk, hardcore, metal... Toca de tudo! Mudo o toque de acordo com o meu humor.

-Ah é? E hoje? Que toque você escolheu?

-Wando!

-Xiiii...

-Eu coloco uma música diferente para cada pessoa. Assim já sei quem está ligando, antes de olhar pro identificador de chamadas.

-Sério? Então me esclareça uma coisa: ontem eu ouvi que o seu celular tocou a música tema daquele filme... “Jurassic Park”! Desculpe perguntar, mas quem era?

-Minha sogra!

-Ah Sim! Faz todo sentido!

-E você Jadilson? Seu celular toca o quê?

-Ah, vocês sabem: aquele tradicional!

-Como assim “tradicional”? Qual é?

-Aquele... “trim, trim”!

-“Trim, trim”?

-É! Igual todo telefone antigo fazia!

O pessoal se entreolhou.

-Porra Jadilson! Isso lá é celular que se apresente?

-Ué? Porque?

-Ah Jadilson! Faça-me o favor! Vê se toma vergonha nessa cara e compra um aparelho decente!

O Jadilson não entendeu a súbita mudança do comportamento dos colegas para com ele. Tentou esclarecer os motivos, mas tudo o que ouviu foi que seu status dentro do grupo estava em baixa.

Também, quem mandou não caprichar no celular?

Nomes

Certo dia alguém olhou para sua cara, na época diminuta, e concluiu que você, aquele joelho com olhos, se chamaria...

Sim, o nome é uma das muitas coisas da vida que nós simplesmente não podemos escolher. Pelo menos não, sem um bom advogado. De fato, se houvesse justiça, jamais teríamos nossas alcunhas escolhidas por nossos pais. Eles nos chamariam por codinomes como “Filho Número 1”, “Fulaninho”, “Coisinha”, ou, em último caso, o já tradicional “Ei, você!”, até que tivéssemos discernimento e sabedoria suficientes para que pudéssemos escolher nossas próprias denominações. Ou seja: lá pelos 50 anos de idade.

Que fique claro: não digo isso por insatisfação própria. Sou um feliz proprietário de um nome composto: José Luiz , vulgo Zé. Não poderia existir melhor alcunha para me definir. Afinal de contas, apesar de eu ser fisicamente parecido com o rapaz, acho que “Brad Pitt” não tem muito a ver com o meu estilo.

Mas volto a minha defesa original: existem nomes que simplesmente não deveriam existir. Não sem o consentimento do dono, o pobre infeliz que tem que sofrer com a conseqüência da mente inventiva dos pais. Sim, eu disse sofrer.

Acreditem ou não (se eu fosse vocês, não acreditaria), existem estudiosos ao redor do mundo que analisam o papel social e a influência psicossomática que um determinado nome tem sobre seu dono. Para facilitar o entendimento do grau de influência de cada tipo de estirpe, estes cientistas criaram categorias específicas, as quais tentarei exemplificar adiante.

Vou apresentar apenas alguns dos gêneros existentes. A variedade é infinita, não teria como esmiuçar tudo. Mesmo assim, dá pra ter uma idéia das principais.

Para começar, vamos tratar daquele que é considerado o caso mais típico de todos: o nome feio, ou, na denominação cientifica, a “nomenclatura exótica”.

***

A Joana estava em polvorosa com a novidade. Para conta-la, reuniu as duas facções da família (a dela e a do recém adquirido marido) e declarou:

-Estou grávida!

A emoção foi enorme. A família inteira entrou em festa com a notícia. O Célio, marido da Joana, chorava copiosamente de felicidade em função da novidade recém contata pela esposa. O novo rebento estava à caminho.

Depois que os ânimos já estavam mais controlados, uma pergunta foi inevitável:

-E qual o nome que vocês pretendem dar à criança?

-Se for menina, vai ser Marina!

Todos suspiraram. Era uma bela escolha, um lindo nome.

-Adorei! – Disse a vó.

-Pois é... E se for Menino será Nabucodonosor!

Silêncio. Boa parte dos presentes ficou sem reação diante da revelação. Um tio da Joana chegou a gargalhar, achando que tratava-se de uma piada.

-Hahahaha... Essa minha sobrinha é uma piadista!

Mas não era gozação. A Joana estava falando sério, e parecia ter o consentimento do marido. O resto da família, escandalizada, tentou intervir... Com jeitinho:

-Ahhhh... Bacana! Mas, assim, só para garantir, você não acha que esse vai ser um nome meio... Como é que eu posso dizer? Meio exótico demais para uma criança?

A Joana pensou um pouco.

-Não... Acho que não!

-Mas Joaninha, pense bem: como é que você acha que os coleguinhas vão chama-lo no colégio? Nabuconodosor é um nome meio difícil pra uma criança pronunciar. Eu mesma estou me enrolando!

-Imagina tia! Já pensei em tudo. Eles vão chama-lo de “Nabu”! Vai ser o apelido dele!

O vô, que até então observava a tudo sem se manifestar protestou pela primeira vez:

-Ótimo! Meu neto agora vai ter apelido de raiz comestível!

-Vai ser “Nabu”, não “Nabo”!

-E você acha que alguém vai notar a diferença? Vocês não vão botar esse nome na criança de jeito nenhum!

-Mas vô: é um nome bíblico!

-Pedro, José e João também são... É só mudar!

A Joana protestou:

-O filho é meu, sendo assim, ponho o nome que eu quiser!

Guerra na família. Protestos por todos os lados. No fim da briga chegou-se a conclusão de que ninguém iria interferir na escolha dos pais, desde que eles tivessem o bom senso de tornar o nome composto, acrescentando mais uma alcunha para popularizar mais o nome do menino. Algo como “João Nabuconodosor” ou “Júlio Nabuconodosor”.

Mesmo assim, depois daquele dia, a torcida geral foi pelo nascimento de uma menina.

***

Outra categoria são a dos pais que resolveram homenagear seus ídolos.

***

O rapaz chega na portaria de um prédio qualquer. Vai visitar alguém no 3º andar. O porteiro pede para ele preencher uma ficha.

-Preciso do seu nome, por favor.

-Martin Luther King de Almeida!

-Hahahahaha... Muito bom! O Senhor é um cara bem humorado, né? Deu pra perceber...

-Acho que sim! Hehehe

-Pois é! Gosto de gente assim, gente que costuma fazer piada.

-Ah... Legal! Eu também!

-Bacana... Mas falando sério agora: qual seu nome?

-Martin Luther King de Almeida.

O porteiro, repentinamente, fica sem ação.

-Você estava falando sério? Esse é o seu nome?

-Sim!

-Pelo amor de Deus, me desculpe! Achei que...

-Não, imagina! Não precisa se desculpar! Acontece o tempo todo. Eu não ligo. Até acho engraçado, sabe? Meu pai é muito fã daquele período histórico. Resolveu homenagear o Martin no nome do filho.

-Entendo!

-No fim das contas não deixa de ser um orgulho ter o nome dele, né? Foi um grande homem!

-Poxa vida! Mesmo assim, me perdôe...

-O que é isso! Tá perdoado.

-Que bom, que bom. Mas, assine aqui, por favor!

-Ok!

-Ótimo! Pode ir...

-Muito obrigado senhor... Senhor...

-Pode me chamar de você! Me chamo Tonico... Tonico Tinoco da Silva!

-Ah... Muito prazer!

-O prazer é meu senhor Martin!

-Seu pai gostava de música sertaneja?

-Como é que você adivinhou?

***

Outra categoria é a dos nomes constrangedores... Nem tanto para o dono, mas principalmente para quem é obrigado a pronunciá-lo.

***

O chefe do Luiz chama-se André. André Paixão. Como já existiam outras dúzias de André’s na empresa, habituaram-se a chama-lo de Paixão.

Pegava mal, todo mundo sabia. Mas com o tempo ficaram tão acostumados que passaram a ignorar o duplo sentido intrínseco existente.

Mesmo assim, o Luiz não contava com o mal entendido:

-Alô? ... Fala Paixão! ... Ah, ok! Pode deixar que eu passo lá! ... Meu carro tá na oficina, mas eu pego o da minha esposa! ... Ok, paixão! ... Deixa comigo paixão! ... Até daqui a pouco! Tchau!

Maria, a esposa do Luiz, que ouvia a tudo num cantinho escondida, interpretou errado o conteúdo da ligação.

-Seu pilantra!

-Oi amo...

-Amor o cacete, desgraçado! Pensa que eu não ouvi você conversando com uma vadia no telefone?!

-Não é nada disso que você está pensando...

-Pensa que eu sou burra? E o pior é que você estava chamando ela de “paixão”! Como é que você teve coragem? E ia levar a piranha pra passear no meu carro!

-Você está enganada!

-Eu não sou burra, Luiz! Burro é você que achou que ia me enganar por muito tempo!

O Luiz tentou se explicar:

-Escuta amor... Você não está entendendo! O Paixão é homem!

Depois disso a Maria, que quase desmaiou com a revelação, pegou as malas e saiu de casa antes que o Luiz conseguisse desfazer o equívoco.

O assunto foi esclarecido, mas a história acabou se espalhando, inclusive dentro da empresa. Antes de conhecer todos os detalhes, o Paixão, chefe do Luiz, chegou a dar uma bronca:

-Porra Luiz! Como é que você apronta uma dessa com sua mulher? Aqui a gente valoriza a família!

***

E, para terminar com esta analise científica semi-pormenorizada da influência social das alcunhas pessoais na vida dos seres humanos, abordaremos uma das categorias mais interessantes: os nomes perigosos. Sim, perigosos. Aquele cujos portadores correm riscos apenas por pronunciá-los.

Esse é o caso do Abuda.

***

O Abuda voltava para casa, altas horas da noite, quando percebeu uma confusão próxima dali. Ouviu discussão, xingamentos, e logo viu uma correria. Não demorou muito e uma viatura policial chegou ao local.

Os policiais foram informados que um baderneiro puxou briga com alguns transeuntes, agrediu um deles, e logo depois tentou fugir. A descrição era de um rapaz jovem, com cerca de 25 anos, alto, cabelos negros trajando uma camisa branca e uma calça verde. Por ironia do destino, essa descrição batia exatamente com a do Abuda, que não tinha nada a ver com a história, mesmo passando ali por perto.

Vendo que a descrição do suspeito era exatamente igual com a do rapaz que perambulava pela rua, o policial não teve dúvidas: desceu correndo da viatura e mandou o rapaz levar as mãos à cabeça.

-Ei, você! Mão na cabeça, mão na cabeça!

O pobre Abuda, assustado, atendeu prontamente a ordem.

-Ok, ok. Vamos com calma.

-Calma o cacete vagabundo, calma o cacete!

-Desculpe... Foi mal!

-Cale a boca! Só fala quando eu mandar!

Nessas alturas o pobre rapaz já estava apavorado. Sabia que não tinha feito nada de errado, mas era óbvio que tinha sido confundido com alguém. O policial estava sendo truculento demais se não tivesse algum motivo específico que o levasse a crer que ele tinha feito alguma coisa errada.

-Qual que é o teu nome?

-O quê?

-Teu nome!

-Nome? Abuda! Abuda senhor!

-Como é que é? Minha bunda? Tá me xingando vagabundo?

-Não! Meu nome é Abu...

-Tu tá preso engraçadinho!

-Mas eu...

-Cale a sua boca suja ou vai tomar bordoada.

Na delegacia, o Abuda foi indiciado e preso. A acusação: desacato a autoridade. Segundo o relato do policial ele teria dito palavras obscenas ao ser questionado sobre seu nome.

No fim das contas, tudo acabou bem. A situação foi esclarecida depois da chegada dos advogados.

Mesmo assim, o Abuda estava inconformado:

-Puta que pariu! Meu nome ainda me mata!

Comentário inútil do blogueiro 3

Eu já falei aqui, há algum tempo, do rockeiro Kurt Cobain, ex líder do Nirvana, uma das (senão a maior), banda dos anos 90.

Pois é: quem conhece um pouquinho da história do cara, sabe que um dos maiores motivos que levaram-no ao suicídio, foi o sucesso. Ele revelou em várias entrevistas que odiava o status que o Nirvana tinha conseguido. A mídia, a ovação, o puxa-saquismo... Para ele não existia nada pior do que aquílo.

Sendo assim, vocês devem compreender minha surpresa ao ler a notícia de que uma marca famosa irá produzir tênis com trechos do diário pessoal de Kurt Cobain impressos nele.

Não sou fã, muito menos admirador da personalidade do cara. Apenas gosto de uma ou outra canção da banda. Mesmo assim, é inevitável perguntar: quer coisa mais Anti-Kurt do que isso?

É impressionante como a indústria arranja meios de lucrar com tudo. Tudo mesmo. Mais estranho ainda é pensar que vai ter algum fã que vai comprar isso para se sentir um pouquinho mais parecido com seu ídolo.

Seria cômico se não fosse trágico.

Se alguém não sabe o que é ironia, agora aprendeu.

Confissões – versão interpretada

Eu demorei, mas voltei.

Lembram dos milhões de projetos que tinha relatado? Pois é... Agora eles estão na casa dos centenas de milhares.

Tenho tido dias corridos. Corridos e cansativos. Mesmo assim estava sentindo uma baita falta de escrever minhas bobagens.

Volto quando puder, prometo. Daqui a um mês, ou uma semana. Depende da quantidade de trabalho e do ânimo que eu tiver.

Mas, vamos ao que interessa:

Vocês provavelmente não vão se lembrar, mas fiz um texto o ano passado chamado “Confissões”. Ele contava a história de um quarteto de amigos que, reunidos num bar, resolveram contar uns aos outros seus maiores segredos.

Pois é: mês passado, tivemos que criar uma rádionovela para um trabalho de faculdade, e, na falta de idéia melhor, resolvemos interpretar esse texto.

Tivemos que fazer algumas adaptações, principalmente em função do grande número de mulheres que tínhamos no grupo. Sendo assim, os quatro “amigos” viraram as quatro “amigas”. O único homem que restou na história fui eu, o narrador.

Modéstia à parte, ficou legal. Sobretudo em função da interpretação das meninas.

Para quem quiser curtir a baixaria, aí vai o áudio da história na íntegra.


P.s.: agradecimentos especiais à minhas colegas que cederam suas belas vozes para a história.


Quem quiser ler a crônica original, clique aqui.

domingo, 16 de março de 2008

Nogueira, o mito

Ninguém tinha entendido como o Nogueira, justo o Nogueira, tinha conseguido conquistar o coração da Helena. Ele, que nunca tinha sequer completado o ensino fundamental, estava namorando uma mulher que já era quase doutora.

Não que escolaridade sirva de parâmetro para regular “quem pode namorar quem”, mas a união dos dois era no mínimo improvável, sobretudo se levarmos em conta que o rapaz era um verdadeiro troglodita com pedigree. Nem a própria Helena sabia explicar direito como tinha se deixado conquistar pelo Nogueira:

-Sei lá... Ele é engraçado!

Mas, engraçado mesmo foi observar o exercício intelectual do Nogueira num almoço de confraternização promovido pela família de sua namorada.

Ao redor da churrasqueira, tios, primos, pai e demais familiares da Helena, todos mestres e especialistas em alguma área de estudo específica, conversavam animadamente sobre todo tipo de assunto: economia, filosofia, história, sociologia, física... Em alguns momentos, o debate ficava tão acirrado que uma pequena força tarefa composta pelos debatedores menos exaltados tinha que intervir para evitar que alguns deles saíssem no tapa em defesa de seus pontos de vista.

Apesar da “rivalidade”, os encontros daquele tipo já eram tradicionais na família, bem como os diálogos acalorados que, apesar de tudo, sempre terminavam em boas risadas.

O Nogueira assistia a tudo quieto, com um sorriso amarelo. Sentia-se como um peixe fora d’água. No fundo, ainda mantinha a esperança de que hora ou outra alguém entrasse em um assunto que ele tivesse alguma intimidade.

No entanto, o tempo passava, e nada do Nogueira conseguir destilar seu conhecimento sobre os assuntos que lhe eram familiares.

Foi logo depois de uma explanação de um tio da Helena, mestre em história, sobre os motivos do declínio do Império Romano que o Nogueira, já cansado do papel de figurante na conversa, resolveu entrar no papo com estilo:

-Pois é... Falando nisso, vocês sabiam que o Nero botou fogo em Roma enquanto fazia um churrasco? Ouvi dizer que ele exagerou no carvão, e, quando viu, já tinha pegado fogo em metade do lugar!

Ninguém entendeu ao certo se o Nogueira tinha feito uma piada ou não. Por via das dúvidas, todos riram. A Helena, desesperada com a demonstração dos conhecimentos históricos do namorado, fez questão de tirá-lo imediatamente da roda antes que alguém procurasse interrogá-lo a fim de descobrir maiores detalhes sobre a sua exótica teoria.

O Nogueira protestou:

-Pô, amor! Agora que eu estava começando a me enturmar você me tira de lá?! Pré-história é o meu forte!

A Helena permitiu que o Nogueira voltasse para a roda de conversa, mas apenas depois dele prometer que não abriria mais a boca sob hipótese alguma.

No fim das contas, depois de cada assunto debatido, o Nogueira apenas fazia uma cara reflexiva e balançava a cabeça afirmativamente, ou não. Os tios da Helena ficaram impressionados com a capacidade de análise do rapaz que, mesmo sem dizer nenhuma palavra, aparentava, só pela fisionomia, estar interado sobre todos os assuntos debatidos pelos doutores presentes. Chegou a virar uma espécie de oráculo:

-Então você realmente acha que a deriva genética, aquela que controla a freqüência alélica dos indivíduos, teve um papel fundamental na teoria da evolução humana?

O Nogueira fez uma careta, pensou, pensou, e, com um ar de superioridade balançou a cabeça afirmativamente como quem diz: “é evidente que sim!”

Sensação ao redor da churrasqueira. De uma hora para outra tinham descoberto que estavam diante de um intelectual dos mais conceituados, um Charles Darwin do século XXI. Para eles o Nogueira era polêmico, ousado e questionador... Mesmo sem abrir a boca.

Ao fim do evento, todos os parentes da Helena fizeram questão de apertar a mão do Nogueira e convidá-lo para fazer uma visita a fim de “conversar” melhor sobre algumas das tantas teorias debatidas.

A Helena mal podia acreditar no que estava vendo. O namorado, de figurante, tinha virado protagonista do bate papo.

-Ei! Amor?! Já posso falar agora?

O Nogueira, quem diria, virou mito.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Alcachofra

Ao contrário de toda sexta-feira a noite, quando o Márcio chegava em casa todo feliz depois da já tradicional ida no bar com os amigos, dessa vez ele estava meio esquisito: quieto, desanimado... Mais reflexivo que o comum. A Luiza estranhou:

-Aconteceu alguma coisa, Márcio? Você está estranho desde que chegou. Não disse uma palavra!

-Aconteceu sim!

-O que houve homem de Deus?

-A alcachofra Luiza, a alcachofra!

O Márcio explicou o ocorrido: é de conhecimento público que toda conversa de bar entre homens tem quatro fases distintas que se sobrepõe à medida que o número de garrafas vazias sobre a mesa aumenta. A primeira diz respeito aos assuntos do trabalho. A segunda, que só é alcançada depois de umas duas doses de cerveja, trata do futebol. Na terceira, as mulheres passam a ser o assunto principal na mesa, quando, finalmente, depois de uma dúzia de chopps somadas a intervenção de algumas generosas doses de whisky e vodca, chegamos até a quarta fase, conhecida como a das “filosofias de botequim”. Nesse estágio, tudo pode virar assunto (e geralmente vira): desde a política econômica do governo até a cor do cabelo do garçom.

Foi mais ou menos nesse período que os amigos do Márcio começaram a falar de um tema relativamente inusitado: as alcachofras.

O Daniel comentou, meio ao acaso, que sua mulher tinha cozinhado uma dúzia de alcachofras, todas maravilhosas, no dia anterior. Já o Fábio reclamou que sua esposa não preparava alcachofras a pelo menos um ano. O Tavares por sua vez, descreveu com “requintes de crueldade” uma alcachofra com molho de manteiga, divina, que tinha degustado certa vez num restaurante em São Paulo. Comoção geral. O testemunho do Tavares arrancou suspiros de toda a mesa, exceto do Márcio. De uma hora para outra, tinha se dado conta: jamais tinha comido uma alcachofra na vida!

-Tá... Mas por que diabos você está triste? Isso eu ainda não entendi!

-E não é óbvio, Luiza?

-Não!

-Ora: você não vê? Eu tenho quase 40 anos e nunca pus uma alcachofra na boca!

-Tá, e daí?

-Que tipo de pessoa tem a minha idade e ainda não comeu uma alcachofra? Entende? Isso mostra como minha vida é vazia! Como eu perdi tempo com coisas inúteis! Como eu deixei de aproveitar os prazeres mais básicos da minha existência!

-Mas...

-E tem mais Luiza: as alcachofras precisam ser comidas rápido, você sabia? Eu andei pesquisando. Elas têm toxinas! Quer um simbolismo maior do que esse? Se a gente não aproveita a vida rápido, se a gente não come logo a alcachofra, ela perde o sentido, fica imprópria para o consumo... Se torna venenosa!

-Mas se esse é o problema, eu posso comprar umas alcachofras amanhã e preparar para você!

-Não é isso! A alcachofra é só uma metáfora! Um símbolo do vazio que a minha vida se tornou!

-Sua vida não é vazia, Márcio!

-É vazia sim, Luiza!

-Você está exageran...

-É VAZIA LUIZA!!!

A Luiza demorou um pouco para dissuadir o marido da idéia de largar tudo para ir morar em uma chácara qualquer, no meio do nada, lá no interior. Segundo ele, iriam “viver de amor”. Disse que os filhos já estavam grandes, tinham 17 e 13 anos, podiam se virar sozinhos na cidade grande.

Só quando Márcio já estava colocando uma placa de “vende-se” no quintal, foi que sua esposa conseguiu convencê-lo a permanecer ali, alegando que “não teriam TV a cabo no meio do mato”.

No dia seguinte, só por garantia, a Luiza escondeu o caderno de culinária do jornal que trazia uma receita de “Couve-de-Bruxelas ao Fricassê”.

Sabem como é: melhor prevenir!