domingo, 13 de abril de 2008

Comentário inútil do blogueiro 3

Eu já falei aqui, há algum tempo, do rockeiro Kurt Cobain, ex líder do Nirvana, uma das (senão a maior), banda dos anos 90.

Pois é: quem conhece um pouquinho da história do cara, sabe que um dos maiores motivos que levaram-no ao suicídio, foi o sucesso. Ele revelou em várias entrevistas que odiava o status que o Nirvana tinha conseguido. A mídia, a ovação, o puxa-saquismo... Para ele não existia nada pior do que aquílo.

Sendo assim, vocês devem compreender minha surpresa ao ler a notícia de que uma marca famosa irá produzir tênis com trechos do diário pessoal de Kurt Cobain impressos nele.

Não sou fã, muito menos admirador da personalidade do cara. Apenas gosto de uma ou outra canção da banda. Mesmo assim, é inevitável perguntar: quer coisa mais Anti-Kurt do que isso?

É impressionante como a indústria arranja meios de lucrar com tudo. Tudo mesmo. Mais estranho ainda é pensar que vai ter algum fã que vai comprar isso para se sentir um pouquinho mais parecido com seu ídolo.

Seria cômico se não fosse trágico.

Se alguém não sabe o que é ironia, agora aprendeu.

Confissões – versão interpretada

Eu demorei, mas voltei.

Lembram dos milhões de projetos que tinha relatado? Pois é... Agora eles estão na casa dos centenas de milhares.

Tenho tido dias corridos. Corridos e cansativos. Mesmo assim estava sentindo uma baita falta de escrever minhas bobagens.

Volto quando puder, prometo. Daqui a um mês, ou uma semana. Depende da quantidade de trabalho e do ânimo que eu tiver.

Mas, vamos ao que interessa:

Vocês provavelmente não vão se lembrar, mas fiz um texto o ano passado chamado “Confissões”. Ele contava a história de um quarteto de amigos que, reunidos num bar, resolveram contar uns aos outros seus maiores segredos.

Pois é: mês passado, tivemos que criar uma rádionovela para um trabalho de faculdade, e, na falta de idéia melhor, resolvemos interpretar esse texto.

Tivemos que fazer algumas adaptações, principalmente em função do grande número de mulheres que tínhamos no grupo. Sendo assim, os quatro “amigos” viraram as quatro “amigas”. O único homem que restou na história fui eu, o narrador.

Modéstia à parte, ficou legal. Sobretudo em função da interpretação das meninas.

Para quem quiser curtir a baixaria, aí vai o áudio da história na íntegra.


P.s.: agradecimentos especiais à minhas colegas que cederam suas belas vozes para a história.


Quem quiser ler a crônica original, clique aqui.

domingo, 16 de março de 2008

Nogueira, o mito

Ninguém tinha entendido como o Nogueira, justo o Nogueira, tinha conseguido conquistar o coração da Helena. Ele, que nunca tinha sequer completado o ensino fundamental, estava namorando uma mulher que já era quase doutora.

Não que escolaridade sirva de parâmetro para regular “quem pode namorar quem”, mas a união dos dois era no mínimo improvável, sobretudo se levarmos em conta que o rapaz era um verdadeiro troglodita com pedigree. Nem a própria Helena sabia explicar direito como tinha se deixado conquistar pelo Nogueira:

-Sei lá... Ele é engraçado!

Mas, engraçado mesmo foi observar o exercício intelectual do Nogueira num almoço de confraternização promovido pela família de sua namorada.

Ao redor da churrasqueira, tios, primos, pai e demais familiares da Helena, todos mestres e especialistas em alguma área de estudo específica, conversavam animadamente sobre todo tipo de assunto: economia, filosofia, história, sociologia, física... Em alguns momentos, o debate ficava tão acirrado que uma pequena força tarefa composta pelos debatedores menos exaltados tinha que intervir para evitar que alguns deles saíssem no tapa em defesa de seus pontos de vista.

Apesar da “rivalidade”, os encontros daquele tipo já eram tradicionais na família, bem como os diálogos acalorados que, apesar de tudo, sempre terminavam em boas risadas.

O Nogueira assistia a tudo quieto, com um sorriso amarelo. Sentia-se como um peixe fora d’água. No fundo, ainda mantinha a esperança de que hora ou outra alguém entrasse em um assunto que ele tivesse alguma intimidade.

No entanto, o tempo passava, e nada do Nogueira conseguir destilar seu conhecimento sobre os assuntos que lhe eram familiares.

Foi logo depois de uma explanação de um tio da Helena, mestre em história, sobre os motivos do declínio do Império Romano que o Nogueira, já cansado do papel de figurante na conversa, resolveu entrar no papo com estilo:

-Pois é... Falando nisso, vocês sabiam que o Nero botou fogo em Roma enquanto fazia um churrasco? Ouvi dizer que ele exagerou no carvão, e, quando viu, já tinha pegado fogo em metade do lugar!

Ninguém entendeu ao certo se o Nogueira tinha feito uma piada ou não. Por via das dúvidas, todos riram. A Helena, desesperada com a demonstração dos conhecimentos históricos do namorado, fez questão de tirá-lo imediatamente da roda antes que alguém procurasse interrogá-lo a fim de descobrir maiores detalhes sobre a sua exótica teoria.

O Nogueira protestou:

-Pô, amor! Agora que eu estava começando a me enturmar você me tira de lá?! Pré-história é o meu forte!

A Helena permitiu que o Nogueira voltasse para a roda de conversa, mas apenas depois dele prometer que não abriria mais a boca sob hipótese alguma.

No fim das contas, depois de cada assunto debatido, o Nogueira apenas fazia uma cara reflexiva e balançava a cabeça afirmativamente, ou não. Os tios da Helena ficaram impressionados com a capacidade de análise do rapaz que, mesmo sem dizer nenhuma palavra, aparentava, só pela fisionomia, estar interado sobre todos os assuntos debatidos pelos doutores presentes. Chegou a virar uma espécie de oráculo:

-Então você realmente acha que a deriva genética, aquela que controla a freqüência alélica dos indivíduos, teve um papel fundamental na teoria da evolução humana?

O Nogueira fez uma careta, pensou, pensou, e, com um ar de superioridade balançou a cabeça afirmativamente como quem diz: “é evidente que sim!”

Sensação ao redor da churrasqueira. De uma hora para outra tinham descoberto que estavam diante de um intelectual dos mais conceituados, um Charles Darwin do século XXI. Para eles o Nogueira era polêmico, ousado e questionador... Mesmo sem abrir a boca.

Ao fim do evento, todos os parentes da Helena fizeram questão de apertar a mão do Nogueira e convidá-lo para fazer uma visita a fim de “conversar” melhor sobre algumas das tantas teorias debatidas.

A Helena mal podia acreditar no que estava vendo. O namorado, de figurante, tinha virado protagonista do bate papo.

-Ei! Amor?! Já posso falar agora?

O Nogueira, quem diria, virou mito.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Alcachofra

Ao contrário de toda sexta-feira a noite, quando o Márcio chegava em casa todo feliz depois da já tradicional ida no bar com os amigos, dessa vez ele estava meio esquisito: quieto, desanimado... Mais reflexivo que o comum. A Luiza estranhou:

-Aconteceu alguma coisa, Márcio? Você está estranho desde que chegou. Não disse uma palavra!

-Aconteceu sim!

-O que houve homem de Deus?

-A alcachofra Luiza, a alcachofra!

O Márcio explicou o ocorrido: é de conhecimento público que toda conversa de bar entre homens tem quatro fases distintas que se sobrepõe à medida que o número de garrafas vazias sobre a mesa aumenta. A primeira diz respeito aos assuntos do trabalho. A segunda, que só é alcançada depois de umas duas doses de cerveja, trata do futebol. Na terceira, as mulheres passam a ser o assunto principal na mesa, quando, finalmente, depois de uma dúzia de chopps somadas a intervenção de algumas generosas doses de whisky e vodca, chegamos até a quarta fase, conhecida como a das “filosofias de botequim”. Nesse estágio, tudo pode virar assunto (e geralmente vira): desde a política econômica do governo até a cor do cabelo do garçom.

Foi mais ou menos nesse período que os amigos do Márcio começaram a falar de um tema relativamente inusitado: as alcachofras.

O Daniel comentou, meio ao acaso, que sua mulher tinha cozinhado uma dúzia de alcachofras, todas maravilhosas, no dia anterior. Já o Fábio reclamou que sua esposa não preparava alcachofras a pelo menos um ano. O Tavares por sua vez, descreveu com “requintes de crueldade” uma alcachofra com molho de manteiga, divina, que tinha degustado certa vez num restaurante em São Paulo. Comoção geral. O testemunho do Tavares arrancou suspiros de toda a mesa, exceto do Márcio. De uma hora para outra, tinha se dado conta: jamais tinha comido uma alcachofra na vida!

-Tá... Mas por que diabos você está triste? Isso eu ainda não entendi!

-E não é óbvio, Luiza?

-Não!

-Ora: você não vê? Eu tenho quase 40 anos e nunca pus uma alcachofra na boca!

-Tá, e daí?

-Que tipo de pessoa tem a minha idade e ainda não comeu uma alcachofra? Entende? Isso mostra como minha vida é vazia! Como eu perdi tempo com coisas inúteis! Como eu deixei de aproveitar os prazeres mais básicos da minha existência!

-Mas...

-E tem mais Luiza: as alcachofras precisam ser comidas rápido, você sabia? Eu andei pesquisando. Elas têm toxinas! Quer um simbolismo maior do que esse? Se a gente não aproveita a vida rápido, se a gente não come logo a alcachofra, ela perde o sentido, fica imprópria para o consumo... Se torna venenosa!

-Mas se esse é o problema, eu posso comprar umas alcachofras amanhã e preparar para você!

-Não é isso! A alcachofra é só uma metáfora! Um símbolo do vazio que a minha vida se tornou!

-Sua vida não é vazia, Márcio!

-É vazia sim, Luiza!

-Você está exageran...

-É VAZIA LUIZA!!!

A Luiza demorou um pouco para dissuadir o marido da idéia de largar tudo para ir morar em uma chácara qualquer, no meio do nada, lá no interior. Segundo ele, iriam “viver de amor”. Disse que os filhos já estavam grandes, tinham 17 e 13 anos, podiam se virar sozinhos na cidade grande.

Só quando Márcio já estava colocando uma placa de “vende-se” no quintal, foi que sua esposa conseguiu convencê-lo a permanecer ali, alegando que “não teriam TV a cabo no meio do mato”.

No dia seguinte, só por garantia, a Luiza escondeu o caderno de culinária do jornal que trazia uma receita de “Couve-de-Bruxelas ao Fricassê”.

Sabem como é: melhor prevenir!

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Frescuras

A história a seguir parece ser engraçada. Só parece. Ela relata a trajetória de um homem normal, assim como eu e você. Um homem normal, com uma característica incomum. Algo que algumas pessoas podem classificar simplesmente como uma mera frescura, mas que no fundo não é.

O Samuel, vulgo Samuca, era um cara comum. Bem apessoado, inteligente, articulado... Um típico exemplar daqueles que as mulheres em geral costumam chamar de “bom partido”. Mas do alto de todas as suas virtudes, o pobre rapaz tinha um ponto fraco. Uma excentricidade específica que já tinha feito com que ele terminasse inúmeros relacionamentos, todos pelo mesmo motivo: o “ai guria!”.

Para quem nunca ouviu a expressão, o “ai guria” geralmente é dito durante um diálogo protagonizado por duas mulheres. Uma espécie de recurso lingüístico usado como prenúncio de “grandes acontecimentos”. Um exemplo? Lá vão três:

-Ai Guria! Você não sabe com quem eu falei hoje!

-Ai Guria! Estou tão feliz!

-Ai guria! O que eu faço?

Para o Samuca o “ai guria”, mais do que uma simples frase, era a representação lingüística da futilidade de todo o hemisfério ocidental. Era praticamente impossível ele ouvir o “ai guria” sem sentir um calafrio subir sorrateiro por sua espinha e uma vontade incontrolável de arrancar os próprios cabelos. Inclusive, o “ai guria” não só podia, como já tinha destruído alguns de seus relacionamentos.

O momento em que o “trauma” começou, nem ele sabe dizer. Lembra-se apenas das conseqüências iniciais de sua intolerância à frase.

A primeira vez que algo grave aconteceu foi com a Marcinha. Moça alegre, sorridente. Meiga do dedão do pé ao último fio de cabelo. Começaram a namorar meio que ao acaso, depois de uma festa de fim de ano. Parecia ser um romance com boas chances de prosperar. Por coincidência foi logo depois de outra festa que tudo acabou. O Samuca escoltava a Marcinha enquanto ela levava um bate-papo animado com algumas amigas. Foi então que, meio distraída, disparou:

-Ai guria! Você tinha que ter visto a cara que ela fez!

Vocês tinham que ter visto a cara que o Samuca fez, isso sim. Aquílo tinha doído na sua alma. Sentia-se do lado de um monstro.

Alguns minutos depois ele deu um jeito de levar a Marcinha num canto isolado para, nem ele sabia explicar direito o por quê, terminar tudo. Foi a primeira vez que o “ai guria” tinha acabado com um de seus namoros.

Na segunda vez, o processo foi ainda mais traumático. O Samuca tinha conhecido uma garota fantástica, a Flávia. Ambos eram quase feitos um para o outro. A empolgação com era tanta que ele próprio tinha tomado a iniciativa de pedir sua mão em noivado.

Mas tinha uma coisa que atormentava o Samuel. Será que a Flávia poderia dizer um “ai guria” uma hora ou outra? Gostava dela. Gostava muito. Deus era testemunha do tamanho do carinho que sentia por ela. Mesmo assim não sabia dizer a si próprio como reagiria se tivesse que ouvir da boca da Flávia a expressão que mais abominava no mundo.

Resolveu arriscar. Convenceu a si próprio que a Flávia não seria capaz de tal ato, e resolveu levar adiante o noivado.

O desfecho desse relacionamento ocorreu numa noite em que o Samuca decidiu levar sua futura noiva e o resto de suas famílias para um jantar de confraternização num restaurante da cidade. A Flávia conversava com a irmã do Samuel. Animação total.

-E então Flávia? Muito assustada com o noivado?

-Aaiiiiiii guria! To ansiosa demais!

O Samuca quase caiu da cadeira. Aquílo não tinha sido um “ai guria” comum, tinha sido um “Aaiiiiiii guria”, que tinha um potencial de destruição significativamente maior para seus ouvidos.

Ainda perdido, pediu licença da mesa de jantar e, para surpresa de todos, não voltou mais. Alguns chegaram a cogitar que o motivo do abandono do recinto tinha sido um purê de batatas meio suspeito. Só mais tarde descobriram que o Samuel tinha resolvido terminar tudo... De novo.

Tais acontecimentos fizeram-no reavaliar seus conceitos de seleção. A partir daquele dia ele resolveu fazer uma pré-triagem de todas as suas possíveis futuras namoradas. Tão importante quanto ter bons modos, ser bonita e inteligente uma pretendente não podia dizer, sob hipótese alguma, o “ai guria”. Descobriu que a tarefa era mais difícil do que pensava. O mundo estava tomado pelo “ai guria”. O “ai guria” era dito por todas as faixas de idade femininas (e algumas masculinas também). O “ai guria” era como um daqueles vírus de filmes de zumbis que já tinham contaminado praticamente todos os habitantes do mundo. Achar uma “sobrevivente” ao “ai guria”, não seria fácil.

Foi então que o Samuca conheceu a Joana. Moça fina, inteligente e muito, muito bonita. Mas o melhor nem era isso. Mais do que todas as suas grandes virtudes a Joana se destacava para o Samuel em função do seu repúdio declarado ao “ai guria”. Parecia mentira, mas não era. Logo que soube dos seus problemas com o termo ela não só apoiou o Samuca como se disse atormentada pelo mesmo problema. Só podia ser o destino. Quem diria que existiam duas pessoas nesse mundo que partilhavam do mesmo inconformismo, e, mais improvável ainda: quem diria que elas iriam se encontrar.

As coisas iam tão bem que quando se deram conta, já eram noivos. Agora só faltava o casamento.

Mas a vida... Bem... A vida é irônica.

No dia do enlace, o Samuel e Joana acertavam os últimos detalhes para a cerimônia que aconteceria à noite.

-Está tudo certo então?

-Certíssimo! Já liguei pros meus parentes lá do interior e parece que eles logo chegam!

-Que bom, que bom! E o vestido?

-Prontinho!

-Ufa... Finalmente está chegando a hora! Parece mentira! Mal consigo esperar o momento de ver você dentro dele! Como é mesmo que se diz? “Ai guria! Estou tão feliz!” Hahahaha

-Hahahaha... Não abusa, não abusa!

-Hahaha... Ok, ok! Agora seja uma garota boazinha e venha cá me dar um beijo!

-Vou sim!

-Opa! Peraí... Telefone!

-Tá!

-Alô? ... Tudo bem sim! ... Ah tá, pode deixar! Fique tranqüilo! ... Firmeza mano, firmeza! ... Eu sei, tô ligado! ... Ok, beleza! ... Um abraço!

Silêncio. Enquanto ouvia o Samuel no Telefone a Joana não conseguiu controlar algumas caretas esquisitas.

-Quem era?

-O Beto! Disse que talvez ele se atrase pro casamento!

-Ah tá!

-Que foi? Você parece nervosa!

-Não! Não é nada! Só estou meio... Meio... Sei lá! Esquisita!

-Sei! Tem alguma coisa que eu possa fazer?

-Não! É só eu ficar um pouco sozinha, já passa!

-Então tá! Vou trabalhar nos últimos preparativos e mais tarde a gente se fala, ok?

-Está bem!

Mais tarde, já no altar, o Samuca descobriu que a Joana, a mulher de sua vida, não iria aparecer.

Dias depois ela explicou que descobriu que o relacionamento não daria certo, no dia do casamento. Segundo a Joana, ela não suportava o “firmeza mano”, muito menos o “tô ligado” que para ela significavam a decadência dos bons costumes verbais de toda a sociedade. Como viver todos os dias da vida com uma pessoa que a qualquer momento poderia soltar um “firmeza mano”? Como morar num mesmo teto com alguém que ao invés de dizer “eu sei” poderia optar por um “tô ligado”? E ter filhos então? Como correr o risco de ter os próprios primogênitos usando esses tipos de expressão?

Ele ainda tentou reverter a situação, mas não teve jeito. A Joana estava irredutível.

O Samuca ficou se perguntando que tipo de pessoa teria a coragem de por fim a um lindo futuro só por causa de duas expressões bobas. Chegou à conclusão de que a sociedade estava em decadência, e que ele era uma dos únicos e solitários modelos de conduta que ainda restavam. Uma voz de coerência em meio a tantas frescuras que assolavam o mundo.

Os amigos tentaram consolar:

-Que puta mundo injusto, hein Samuca?

-Tô ligado... Tô ligado!

Comentário inútil do blogueiro 2

A mamata acabou. Ou melhor: acabaram-se as férias da faculdade. O que isso significa? Basicamente terei pouquíssimo tempo livre para escrever aqui, e provavelmente, quando tiver um tempo livre, tudo o que eu não vou querer vai ser topar com um computador.

Sendo assim, espero que vossas senhorias mantenham a paciência. Favor não entrar em pânico nem tentar o suicídio. Sei que é quase impossível viver em plenitude sem ter acesso aos meus fabulosos (e acima de tudo modestos) escritos, mas peço que façam um esforço.

É isso!

Caso tenham alguma sugestão, crítica ou queiram atentar contra a minha ilibada moral, favor entrar em contato.

Beijo no cérebro!

sábado, 9 de fevereiro de 2008

God Bless América

Não sou daqueles que faz questão de ler o caderno de economia todos os dias. Aliás, pensando bem, acho que não conheço quase ninguém que se dedique a ler as páginas desta injustiçada vertente do jornalismo. De qualquer forma, foi inevitável acompanhar nas últimas semanas as dúzias de notícias divulgadas pelos veículos de imprensa falando sobre a recessão na economia americana. Tal fato gerou uma reação em cadeia nas bolsas de valores ao redor do mundo, que tiveram que rebolar para não sofrerem as conseqüências do verdadeiro abalo sísmico monetário provocado.

Quem diria... Até eles passam por isso!

A verdade é que chega a ser difícil de acreditar que os americanos também podem ter crises econômicas semelhantes à de qualquer outro país deste planetinha mixuruca. Fomos “ensinados” desde cedo a compreender e aceitar a posição de superioridade dos herdeiros do Tio Sam em relação ao restante do mundo. Talvez isso explique tamanha surpresa por parte de todos com as notícias dos últimos dias.

Tais acontecimentos me levaram a conceber uma hipótese bastante improvável, mas que não deixaria de ser relativamente interessante (pelo menos do ponto de vista sociológico): já pensaram se daqui a alguns anos a toda poderosa América se tornasse um país pobre? Eu sei que tal insinuação é absurda, mas tentem pensar nisso. Em como teríamos que explicar para nossos filhos e netos qual era o grau de importância daquele país para o resto do mundo.

Vocês podem até discordar, mas eu acho que seria divertido...

***

-Pai: que país é esse?

O garoto estava ajoelhado no meio do Atlas recém comprado por seu pai. Tinha passado a tarde inteira ali, fuçando os continentes à procura de algum país que ainda não tinha ouvido falar. Tarefa difícil. O menino era craque em geografia, sobretudo se comparado a alguém na sua idade. Manjava quase tudo do assunto. Mas, para sua surpresa, tinha se deparado com uma bandeira meio esquisita, de listras vermelhas e brancas com um retângulo azul repleto de estrelas que remetia para uma nação meio encolhida, situada ao norte do continente americano, da qual nunca tinha se dado conta. Ficou curioso. Afinal de contas, que lugar era aquele?

-Ah filho... Esses são os Estados Unidos!

-Estados o quê?

-Unidos!

-Hum... Legal! Nunca tinha ouvido falar!

-Pois é: faz tempo que ninguém dá muita importância para eles.

-E eles já tiveram alguma importância?

-Acredite filho: esse já foi o país mais poderoso do mundo!

O garoto deu uma gargalhada gostosa, daquelas típicas de quem acabou de ouvir uma boa piada.

-Fala sério pai!

-Estou falando! Os americanos já foram importantíssimos pro planeta!

-Ahhh... Conta outra!

-É verdade!

A incredulidade do menino estava irredutível.

-Se é assim, como é que eu nunca tinha ouvido falar desses caras?

-É que eles tiveram uma crise econômica bem feia lá pelos anos de 2007, 2008... Depois disso foram caindo, perdendo importância!

-Sério?

-Sim. Sabe o George Bush?

-Aquele líder do Talibã?

-Esse mesmo! Ele era o presidente dos Estados Unidos naquela época! Uns dizem que ele só chegou ao governo pra sabotar a economia deles!

-E porque ele faria isso?

-É que muita gente não ia com a cara dos americanos, sabe? Eles eram conhecidos por serem muito metidos, prepotentes... Sua cultura e seus hábitos influenciavam o mundo inteiro! É mais ou menos o que acontece hoje com a China!

-Como assim?

-É simples... Tá vendo esse chapéu que você está usando?

-O que tem ele?

-Esse é um chapéu típico da China!

-Mas ele está na moda!

-Pois é: influência dos chineses! O mundo inteiro tem usado isso, porque está na moda lá! Quer ver outro exemplo? Qual é sua banda favorita?

-Os “Ling-Lings Dragons”, é claro!

-Eles são chineses, não são? É mais ou menos isso que acontecia com os Estados Unidos: tinha muita gente que adotava os hábitos culturais deles, justamente por eles serem a nação mais poderosa do mundo! Para você ter uma idéia, quando eu tinha sua idade, minha banda favorita era americana!

-Credo! Que estranho!

-No cinema também era assim! A maioria dos filmes que passavam nos cinemas era dos Estados Unidos!

-Eca! Até isso eles faziam? E eu que sempre achei que isso é coisa só de indiano!

Dessa vez quem riu foi o pai do garoto. Nem ele acreditava direito no que dizia! Quanta nostalgia. Quem diria que aquela super nação, uma potência econômica que dominava o mundo, se tornaria um país mequetrefe que foi obrigado a vender metade de seu território para os mexicanos a fim de pagar a própria divida externa.

Era até engraçado observar seu filho ali, com cara de incrédulo. Ah se ele soubesse que nos tempos do seu velho pai não existia “Bambu Cola”, nem espetinhos de gafanhoto no “Mc’Lee”. Que o super-herói de quadrinhos mais famoso não era o “Panda-Alado” e sim o “Super-Homem”. Que naqueles tempos o que existia eram protestos contra o “capitalismo selvagem”, e não contra o “comunismo imperialista”.

-Se você tivesse visto o que eu vi, não iria acreditar!

-Mas eu não estou acreditando mesmo! Isso é estranho! Os caras praticamente copiaram a bandeira de Porto Rico, e o senhor que eu acredite que eles já foram um grande país?

-O mais poderoso de todos, filho!

-Hunf... Daqui a pouco você vai me dizer que o Haiti já foi pobre!

-Hahahaha! Filho, filho: as coisas mudaram muito!

-Mudaram muito? Então o Brasil já foi um país rico e sem corrupção? Com educação, segurança e saúde de qualidade para todos?

-Não... As coisas mudaram, mas nem tanto! Isso ainda continua igual!