domingo, 27 de julho de 2008

Estômago

O Everson era uma espécie de lenda entre os amigos. Quando se reuniam em busca de diversão, era ele quem comandava as hordas bárbaras de beberrões com a autoridade de um general em combate. Dava ordens aos garçons, administrava e distribuía os aperitivos, e bebia tal qual um possante de oito cilindros num posto de gasolina. Um “Genghis Khan” do boteco, como era conhecido informalmente.

Ninguém ali era capaz de fazer frente ao espírito kamikaze do rapaz, que tinha em seu currículo boêmio comas alcoólicos suficientes para registrar em catálogo. Alguns, inclusive, dignos de admiração pelos demais colegas.

-Lembra daquele porre do Everson?

-Se eu lembro? Fui eu quem tive que levar ele pra casa, tá lembrado?

-Como será que ele conseguiu, hein? Nunca tinha visto ninguém beber tanto.

-Vai por mim... O Everson é um fenômeno. As cervejarias deveriam construir estátuas a ele em praça pública como forma de agradecimento.

Mas um dia tudo mudou.

O Everson mal tinha consumido a primeira dúzia de garrafas de cerveja quando sentiu uma fisgada no estômago. À medida que o tempo passava a sensação ruim piorava. Uma ânsia cada vez mais incontrolável ia, sorrateira, vencendo seu autocontrole. Não demorou muito para que a situação ficasse insustentável. Sem alternativa, correu para o banheiro, onde, segundo ele próprio, só não vomitou a própria alma porque felizmente ela não era liquida.

Mesmo a contragosto aceitou a sugestão de passar alguns dias afastado dos eventos etílicos promovidos pela galera. Afinal de contas, tanto abuso no decorrer dos anos certamente teria seu preço, nem que esse fosse o de passar algum tempo longe do bar.

Na semana seguinte, já aparentemente recuperado, foi ao encontro dos colegas. Mas a tão aguardada volta triunfal parou nos primeiros goles. A sensação ruim não só voltou, como dessa vez as conseqüências foram ainda mais vorazes. Foi levado para casa às pressas, antes que a situação ficasse pior, e que o banheiro do local fosse permanentemente interditado.

Inconformado, perguntou a si mesmo o que estava acontecendo. Nunca tivera tido aquele tipo de “frescura” antes.

Insistente, continuou tentando sistematicamente reassumir o controle sobre o seu estômago... Em vão. A coisa piorara a tal ponto, que até o cheiro de uma bebida qualquer lhe causava asco.

Depois de algumas semanas de golfadas persistentes e incontroláveis, contrariou seus próprios princípios e resolveu ir a um médico.

Exames e mais exames chegaram ao mesmo diagnóstico: ele estava absolutamente saudável.

-Mas doutor... Eu nem posso chegar perto de uma bebida com um pouquinho de álcool que eu começo a passar mal. Tem que ter alguma coisa fora do lugar!

-Acredite: você está mais saudável do que a maioria das pessoas por aí.

-Não tem de errado nada mesmo?

-Nada!

-Nem no estômago, no fígado... Sei lá!

-Não, tudo em ordem.

-Nem uma cirrosezinha?

-Olha: pelo que você me descreve, isso é absolutamente psicológico.

-Mas não tem sentido.

-Pois é. Mas só pode ser isso. Fisicamente você está em perfeitas condições.

A coisa era pior do que ele imaginava. Se um beberão que não conseguia nem ao menos ser repreendido pelo médico era motivo de vergonha, que dirá então um que era classificado como “saudável”... Era a humilhação suprema.

Desesperado, partiu em busca de uma cura para sua insólita “maldição”.

Psicólogos, psiquiatras, gastroenterologistas, videntes, pais-de-santo... Todas as alternativas possíveis de melhora foram buscadas, fossem elas ortodoxas ou não. No entanto, nenhuma surtiu resultado.

Resignado, concluiu que seu estômago tinha se tornado uma espécie de “chacota divina”, uma prova inexorável que Deus não só tinha um senso de humor bastante peculiar, como adorava fazer uma piada. Afinal de contas, quer algo mais irônico do que um boêmio de pedigree que não consegue mais beber, por mais saudável que ele estivesse?

O Todo Poderoso deveria estar lá em cima, rindo pra valer da própria anedota.

Vez por outra ele ainda comparece aos encontros promovidos pelos colegas, apenas como espectador. Mas não é a mesma coisa. Descobriu que ser o único são numa mesa de bar tira toda a graça da brincadeira.

Hoje o Everson é um outro homem: vive uma vida regrada, só toma água, come apenas alimentos saudáveis, perdeu peso, arranjou uma bela namorada, passou a aproveitar melhor seu tempo, prosperou profissionalmente e etc, etc, etc...

Mesmo assim, há quem diga que às vezes é possível encontrá-lo num canto qualquer, chorando feito criança, com saudades de seus tempos de boêmio.

Pobre Everson... Que mundo cruel!

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Ódio

Conheceu-a numa festa. Tinham uma amiga em comum que lhes apresentou um ao outro, achando que a dupla combinava. Mas ele não achou. Não era feia, mas tinha algo nela (nem ele sabia dizer o que) que tinha lhe despertado uma intolerância ímpar. Não era nem antipatia. Odiou-a de uma vez.

Semanas mais tarde, por uma dessas ironias do destino, descobriu que não só trabalhavam na mesma empresa, como dividiriam o mesmo setor. Os cargos eram parecidos, e exigiam colaboração mútua.

A convivência diária só fez aflorar ainda mais repugnância de sua parte para com ela.

Odiava o jeito que ela lhe dizia “bom dia” pela manhã. Odiava a forma como sua voz esganiçada tomava conta de todo o ambiente inundando seus ouvidos. Odiava seus comentários a respeito de qualquer coisa, fosse um assunto ligado ao trabalho ou não. Odiava sua pretensiosidade oculta, seu ego inflado que fazia questão de esconder de todos com falsos sorrisos inocentes. Odiava a maneira paciente com que lhe dava conselhos técnicos sobre a empresa, tratando-o como um ignorante qualquer. Odiava o seu olhar moralista que parecia sempre fazer questão de analisá-lo após cada atitude. Odiava a simpatia complacente e consoladora que manifestava, quase que por pena, após suas falhas. Odiava suas congratulações efusivas, obviamente falsas, após cada um de seus acertos. Odiava a maneira com que ela agia nas negociações do trabalho, dando sempre a entender que não confiava nele. Mas, acima de tudo, odiava ouvir dos demais colegas que eles faziam uma grande dupla, e que a empresa tinha conseguido ótimos resultados graças ao esforço conjunto deles. Odiava ter que dividir os seus méritos com aquela mulher.

Um dia (por pura formalidade, deduziu) ela o convidou para um encontro com alguns conhecidos. Sentiu náuseas quando ouviu o convite. Odiava pensar na hipótese de ter que transformar sua noite de descanso numa tortura semelhante a que tinha todos os dias durante o horário de trabalho. No entanto, odiava ainda mais dar a ela a oportunidade de classificá-lo como um chato que vivia enclausurado em casa.

Aceitou o convite.

Encontraram-se num bar ele, ela e uns conhecidos. Pediram umas cervejas e começaram a conversar. Odiava ter de escutar seus comentários fúteis. Odiava a forma irônica com que defendia seus argumentos, quase que desmoralizando seus parceiros de conversa. Odiava o sorriso entreaberto de satisfação que manifestava após cada colocação bem sucedida.

Entediado, tentou puxar assunto com os outros colegas de mesa, mas não conseguiu. Odiava a forma como ela falava alto e monopolizava as atenções. Tentou deixa-la sem argumentos, ousou questiona-la. Foi vencido. Odiava admitir que ela tinha se mostrado mais esperta que ele. Lhe odiava ainda mais por isso.

Sem ter o que fazer, passou a observá-la, como que tentando encontrar alguma coisa digna de empatia, mesmo apostando com si mesmo que isso era impossível.

Não encontrou.

Odiava o seu cabelo: liso, bicolor e cheio de pontas duplas. Tão opaco quanto os seus olhos negros. Odiava a geometria de seu rosto, que era plano, quase que esquadrinhado numa prancheta. Odiava seu corpo esguio, sem grandes atrativos exceto os seios, cujo tamanho avantajado destoava do resto de seu corpo. Gostava de seios, mas odiava corpos desproporcionais. Odiava a forma com que caminhava, quase que rebolando, numa marcha semi-ritmada que se fosse de outra pessoa talvez que despertasse risos, mas que no caso dela só lhe gerava ainda mais antipatia. Odiava também a forma com que usava as mãos de forma expansiva e escandalosa para gesticular enquanto falava. Só não odiou o fato de constatar que não existia nada nela que não lhe irritasse. Odiaria descobrir que estava errado.

Já em casa, tentou dormir, mas o sono não vinha. A voz chata da colega de trabalho ecoava em sua cabeça como um arranhar de unhas num quadro negro. Odiava lembrar do dia horrível e humilhante que tinha tido graças a ela. Odiava imaginar que teria que encontrá-la novamente pela manhã.

Ódio. Puro e simples ódio.

Perguntou a si mesmo porque ela o incomodava tanto. Sua intolerância transcendia os limites normais que conhecia. Odiava sua personalidade, sua aparência, seus conhecimentos... Sentia-se fraco diante de tanta repulsa.

Refletiu, refletiu e refletiu.

Concluiu que nunca tinha tido um sentimento tão forte, mesmo ruim, por ninguém antes. Odiá-la, de certa forma, dava um sentido a sua vida.

Devia ser amor.

Namoraram, casaram-se e tiveram três filhos... Mas ele continuou odiando-a secretamente durante todos aqueles anos. Odiava sua comida, odiava o sexo com ela, odiava acordar ao seu lado todos os dias, odiava ver a forma como ela educava os filhos, odiava ouvir suas histórias, odiava dividir um mesmo teto com ela...

E, acima de tudo: odiava admitir, mas faziam um belo casal.

Farsante 1

À pedido de algumas de minhas fervorosas e histéricas fãs (a Ju, a Anna e a Bia, mais precisamente), venho por meio desta postagem publicar dois dos momentos mais constrangedores de minha vida: minhas aventuras no ramo da atuação.

No ano passado tivemos uma atividade na faculdade que se consistia na elaboração de uma história que deveria ser interpretada. Uma espécie de “novelinha”, bem simples, com o objetivo teórico de exercitarmos a linguagem áudio-visual. Já nesse ano, tivemos a “simples” tarefa de produzir um curta-metragem. Olhando assim parece fácil, né? Vão tentar fazer um pra vocês verem o que é bom pra tosse...

E, nessas duas oportunidades, adivinhem pra quem sobrou a tarefa de “pagar o king-kong”? Se você pensou neste blogueiro charlatão, acertou em cheio.

Eu morro de vergonha de aparecer em frente às câmeras. Para se ter uma idéia, sou o fotógrafo oficial da família, tamanho o meu pavor em dar as caras. Sendo assim, deve ser fácil para vocês entenderem os motivos de minha resistência em mostrar isso.

Eu sei que vou me arrepender disso, mas postarei o primeiro vídeo (a historinha) hoje e o segundo quando conseguir “upar” o curta-metragem (o arquivo é grande e minha internet funciona movida à carvão).

A sinopse é simples: um homem embriagado (entenda-se como um bêbado caindo pelas paredes) tenta abrir a porta de casa. Performance digna de Framboesa de Ouro.

Ah sim: o aspecto deprimente e mulambento do bêbado não faz parte do personagem. É que eu geralmente sou assim...

Enfim: divirtam-se... Ou não!


P.s.: satisfeitas agora, meninas? Hunf!!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Essas mulheres incríveis, e suas conversas maravilhosas

Eu tenho o ótimo hábito (ou péssimo, depende do ponto de vista) de ouvir a conversa alheia. É um negócio meio involuntário, mas que proporciona para nós, ouvintes atentos, momentos memoráveis.

Mesmo assim, tem certos diálogos que você só ouve numa semana de São Paulo Fashion Week...

***

-Menina do céu... Você viu o desfile da Gisele?

-Gisele?

-A Bündchen!

-A Magrela?

-Essa mesmo.

-O que é que tem?

-Ela só entrou duas vezes na passarela.

-Sério?

-E ganhou uma fortuna.

-Poxa vida.

-Acredita nisso?

-Ô... Mas ela merece.

-Nada!

-Porque não?

-Tudo fachada.

-Jura?

-Sim.

-Acho que não, hein?

-Te garanto.

-Ela é linda.

-Tudo plástica!

-Tá brincando?

-Te juro. Sabe o nariz?

-O que é que tem?

-Mandou empinar.

-Não pode ser.

-Tô te falando...

-E o olho?

-Lente!

-Putz!

-Até o cílio é postiço.

-Me nego a acreditar!

-Tenho fontes, menina. Aquela ali, se chacoalhar, cai tudo. Se bobear até o cabelo é peruca!

-Gente do céu... To bege!

-Pois é.

-Mas ela tem um corpão.

-Tudo no bisturi minha filha, no bisturi!

-Ah? Pare!

-Família rica. Foi pra faca ainda menina.Gordinha, vesga e orelhuda. Mexeram em tudo. Quase construída em laboratório.

-Mas eu ouvi falar que ela veio de família humilde.

-Tudo boato.

-Até o peitão é fabricado?

-Lógico. Aquela ali tem silicone até na panturrilha.

-Mas eu ouvi falar que os seios dela eram naturais.

-Mentira.

-Tem certeza?

-Tudo marketing!

-Poxa vida... Até o peito?

-Pra você ver...

-E pensar que eu achava ela um modelo de beleza nacional.

-Iiii minha filha: Deus é perfeito, mas tem coisas que só o Pitanguy consegue fazer.

-Esse mundo tá perdido, gente.

-Ô se tá. Não dá pra viver seguindo esse padrão de beleza fútil que é imposto pela sociedade.

-Verdade. Quer um gole da minha Coca?

-É light?

-Lógico!

-Então eu quero.

domingo, 8 de junho de 2008

Histórias insólitas de um dia dos namorados qualquer

Depois de muito refletir, a Tânia chegou a uma decisão: não daria nenhum presente pro Josué no dia dos namorados.

Não, eles não estavam brigados. Explica-se:

A Tânia foi arrebatada pelas opiniões polêmicas e o jeitão sério de falar do Josué. O Josué ficou fascinado pelo olhar atento e a candura inocente da Tânia. Não demorou muito, e eles engataram um romance que os amigos de ambos classificaram como “improvável”. Ela, uma consumista desenfreada. Ele, um idealista, com fortes inclinações ao socialismo.

Mas contrariando todas as apostas, três anos já tinham se passado, e nada do romance enfraquecer. Era uma dupla estranha, mas feliz.

No primeiro dia dos namorados que passaram juntos, ela fez questão de comprar-lhe um belo presente: um relógio, lindíssimo, que tinha lhe consumido quase quatro meses de economia do salário. Era caro, mas segundo ela o investimento valia a pena. Amava o Josué de verdade.

Ele não lhe deu absolutamente nada. Agradeceu, mas argumentou que o dia dos namorados não passava de uma data feita para os comerciantes lucrarem. Que toda aquela aura de romantismo espalhada pela mídia nada mais era do que uma forma deslavada de manipular a classe trabalhadora, obrigando-a a consumir ainda mais. Amava ela, mas não poderia ir contra seus próprios pontos de vista.

A Tânia, apesar de um pouco desapontada, entendeu. Sabia que estava sujeita a situações como aquela. Mesmo assim, no ano seguinte, repetiu o gesto de lhe dar um presente na data. Ele novamente agradeceu, e fez o mesmo discurso, desculpando-se por não lhe dar nada e justificando sua atitude como uma forma de protesto.

No ano seguinte a Tânia resolveu aderir. Era no mínimo um desrespeito de sua parte ir contra os preceitos filosóficos do homem que amava. Se ele achava o dia dos namorados uma data criada com o único objetivo de influenciar o consumismo, teria o seu apoio naquele ano. Ia provar de uma vez por todas que ela entendia o seu namorado.

Mas, ele não entendeu. Quando a Tânia disse que naquele ano não lhe daria nenhum presente, o Josué protestou.

-Poxa amor... Eu achei que você gostava de mim!

-Ué... Você sempre me falou que o dia dos namorados era uma besteira, uma data criada pelos capitalistas para influenciar o consumismo. Só resolvi seguir os seus pontos de vista.

-Mas esses são os meus pontos de vista, não os seus.

-Mas Josué...

-Me deixa sozinho, vai. Por favor.

A Tânia, completamente perdida com a situação, atendeu o pedido do namorado. Quem sabe depois de um tempo a sós ele colocasse a cabeça o lugar.

O Josué, sozinho, cochichava para si mesmo, reflexivo:

-Que traição meu Deus, que traição!

Homens... Quem entende?


***

25 anos de casamento e eles, a Nilma e o Haroldo, nunca tinham deixado de se presentear no dia dos namorados. É verdade que a paixão tinha esfriado um pouco (para não dizer muito) nos últimos tempos, mas aquele gesto de carinho continuava sagrado.

Só que naquele ano algo deu errado.

-Toma amor... É pouquinho mas é de coração.

-Ô Haroldo... Brigada.

-O que é isso, imagina!

Enquanto a Nilma abria o presente, um pacote vermelho cuidadosamente embrulhado, o Haroldo se deu conta do erro terrível que tinha cometido. Aquele não era o embrulho do suéter tamanho GG que tinha comprado no brechó da esquina, mas era...

-Amor?! Uma lingerie??

-Éééé... Sim! Uma lingerie! Gostou?

-Mas Haroldo... Faz quase 15 anos que eu não uso uma dessas.

-Pois é. Mas eu... Eu... Eu achei que seria legal fazer isso, sabe? Para relembrar os velhos tempos!

-Mas ela é muito... Sei lá... Ousada! Isso daqui é totalmente transparente, e faz pelo menos cinco anos em que a gente só transa no escuro, que é para não termos, segundo você mesmo, uma visão desagradável. E o que são esses zíperes aqui? É no mínimo estranho uma mulher da minha idade usar uma coisa dessas.

-Não diga isso. Você está... Super em forma!

A Nilma estava desconfiada.

-Tá, ok. Mas você não acha que ela vai ficar um pouquinho apertada?

-Ah... Imagina! Acho que serve sim.

-Haroldo: eu não conseguiria entrar numa dessas nem antes da gente ter se cassado, quanto mais agora. É muito pequena para mim...

-Lógico que não. É que o... O... O modelo dela é assim mesmo, é feita pra ficar bem colada no corpo. Para realçar suas “curvas”.

-Curvas? Eu vou ficar parecendo uma ogiva nuclear. Não dá pra entrar! É fisicamente impossível.

-Sério? Bem, devo ter me confundido com o tamanho. Você sabe como eu sou ruim com essas coisas.

-Haroldo, fala a verdade: esse presente não era para mim, não é?

Ele fez cara de ofendido.

-Como assim? Como é que você tem coragem de insinuar uma coisa dessas Nilma? Ô Nilma... É esse o juízo que você faz de mim?

-Não sei. Sinceramente não sei. Eu achei que o homem que estava casado comigo a tanto tempo iria no mínimo deduzir que eu não entraria numa lingerie vermelha tamanho M desde a década de 80.

-Ok, eu errei. Desculpe. Deve ter sido um lapso momentâneo.

-Sei...

-Um homem apaixonado não pode se confundir de vez em quando, hein? É crime querer agradar a própria esposa, tentar reascender a chama do amor que está se apagando cada dia mais?

A Nilma resolveu relevar a situação. Afinal de contas, o Haroldo era o Haroldo.

-Ok Haroldo, ok. Obrigado pelo presente. Mas eu vou ter que ir trocar isso na loja.

-Tá bom. Sem problemas amor.

O Haroldo suspirou aliviado, mas agora tinha novos problemas. Teria que explicar pra Manoela, a verdadeira dona da lingerie, que ela teria que esperar um pouco mais para receber o seu presente. Isso sem contar que a partir de agora, todas as suas supostas saídas com os amigos seriam supervisionadas de perto pela dona Nilma. Todo cuidado seria pouco.

Mas o pior nem era isso. Chato mesmo seria ter que observar a patroa na lingerie que ele tinha lhe dado por engano. Mas ele ainda tinha esperança:

-Quem sabe, se eu sugerir, eu convença ela a trocar a lingerie por um chambre ou umas pantufas?

***

-Uma batedeira?

-Ué, não gostou?

-Claro que não!

-Mas a vendedora me garantiu que era a melhor que tinha. Ela tem quatro velocidades diferentes e...

-Eu lá tenho cara de quem gosta de receber eletrodomésticos num dia dos namorados, Armando?

-Mas veja bem: é um item doméstico importante.

-Essa não é uma data pra isso. E nós somos namorados. A gente nem vive junto. Pra que cargas d’água eu vou usar uma batedeira? Eu nem pudim de caixinha sei preparar!

-Eu ia te comprar um vestido, mas sei lá... Achei que você ia gostar da batedeira!

-Pelo amor de Deus, né Armando? Vê lá se isso é coisa que se dê de presente.

-Mas dá pra trocar. Se você quiser, a moça falou que você pode pegar um liquidificador, um ferro de passar ou um espremedor de laranjas em troca.

-Puta que pariu Armando!

-Que foi que disse?

-Você não tem noção nenhuma, não é?

-Desculpe. É que eu fiquei nervoso. É o nosso primeiro dia dos namorados juntos. Eu sou péssimo em dar presentes. Fiquei inseguro. Achei que você ia gostar.

-Ok, desculpe. Eu sei que você não fez por mal. Homem sempre é, sem ofensa, meio ignorante pra presentear mulher.

-É, eu sei. Desculpe. Prometo que vou comprar alguma coisa do seu agrado.

-Não precisa.

-Precisa sim, eu insisto. É o nosso primeiro dia dos namorados juntos, tenho que caprichar.

-Você que sabe.

-Imagina, faço questão. A batedeira eu dou pra mim mãe, sei lá.

-Então tá... Ah sim: toma o seu presente. Feliz dia dos namorados!

-Ô amor, não precisava...

-Lógico que precisava.

-Hehehe. Obrigado mesmo. Vamos ver o que é...

-Algum palpite?

-Não sei. Pelo tamanho do pacote, pequenininho, deve ser alguma coisa cara.

-Mais ou menos.

-Deve ser um... Um... Ah... Puxa... Um par de meias...

-E então? Gostou??

-Ô!

-Pois é... Tinha certeza que você ia gostar. É de lycra.

-Sério? Bacana...

-E então? Não vai experimentar?

-Não precisa não... Tenho certeza que vai servir.

-Que foi? Você parece tão desanimado.

-Não, não... Impressão sua.

-Já sei: deve estar chateado por não ter acertado o presente para mim. Não fica assim amor... Nem todo mundo sabe escolher algo bacana. Mas isso não quer dizer nada. Nem todos são tão bons nisso quanto eu.

O Arnaldo deu um sorriso amarelo. Pensou em dizer o que sentia, mas deu de ombros, afinal de contas, coitada, ela certamente não agüentaria a verdade. É como dizem: "os grandes romances não são feitos pelas declarações de amor proclamadas aos quatro ventos, e sim pelos impropérios guardados a sete chaves."

-Pois é amor... Pois é!

E viveram felizes para sempre.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Feio

Sou feio. Ponto. Quando digo isso não existe qualquer tipo de falsa modéstia ou propaganda às avessas. É fato! Meu físico é franzino. Meu rosto é tão proporcional quanto um quadro do Picasso. Meu sorriso já fez dentistas pedirem aposentadoria. Isso para não citar o resto da obra.

Mesmo assim, acreditem, sou feliz. É bem verdade que minha aparência, aliada a minha língua presa e minha timidez mórbida não me fizeram o maior dos “pegadores” da cidade.

E quem disse que isso é ruim? A verdade é que minha lista de namoradas, apesar de não muito extensa é relativamente “caprichada”. Além de belas (isso é meio contraditório, eu sei), todas eram inteligentes, interessantes, bem humoradas e, o melhor de tudo, me conheciam de verdade. Aliás, essa é a grande vantagem de ser feio: as pessoas te valorizam muito mais pelo que você é, pelo que pensa, do que por um rostinho simpático. E tem coisa melhor do que ficar com quem realmente gosta da gente?

Mas não é para me vangloriar de minha feiúra que escrevo aqui.

Não sei se vocês viram por aí, mas nos últimos meses um argentino chamado Gonzalo Otálora, um “trubufu” assumido, apareceu em diversos meios de comunicação defendendo uma proposta um tanto inusitada: segundo ele, as pessoas deveriam pagar impostos por sua beleza.

É claro que a história é uma grande piada, mas o argumento do rapaz é até certo ponto lógico: os belos conseguem quase tudo de uma maneira mais fácil do que um feio consegue. Emprego, por exemplo. Mesmo que os “patrões” não admitam, é muito mais fácil alguém bem apessoado ser contratado do que um pobre feioso qualquer. A menos, é claro, que o emprego em questão diga respeito a uma vaga no “túnel do terror” de algum parque de diversões por aí.

Eu particularmente, sou mais a favor do resto do mundo pagar um imposto por não ter nascido na Argentina, mas aí já é outra história (é brincadeira, gente, é brincadeira...).

De qualquer forma, a história ganhou notoriedade e fez muita gente pensar duas vezes sobre o papel que a aparência tem em nossa sociedade.

Pode não parecer, mas acreditem, ser feio é uma benção.

***

O João, o Gustavo e o Antônio se conheciam a tanto tempo que resolveram abrir um clã (o Gustavo preferia que fosse um”clube”, mas os outros dois argumentaram que “clã” era um termo mais bacana): os “Feiosos Unidos”.

Semanalmente eles se reuniam na casa de um dos integrantes para conversar sobre aquela que era a grande maldição que lhes tinha sido imposta pelo destino: a falta de beleza.

Não, não tratava-se de exagero dos meninos. Eles realmente eram feios. O resto da humanidade era testemunha disso.

Cientes de que seriam alvo fácil diante do olhar crítico da sociedade, sempre sedento por uma boa aparência, resolveram se unir a fim de bolar estratégias de defesa.

Os encontros semanais tinham todo um rigoroso protocolo e uma escala de assuntos, que começava no relato das visões que tinham tido durante a semana das beldades do colégio, e terminava quase que invariavelmente em suspiros ora emocionados, ora desanimados.

-E a Maria?

-Que joelhos, meu Deus, que joelhos!

-E a boca então?!

-Nem me fale da boca, nem me fale...

-Ai, ai...

Mas não se enganem. Apesar de tudo o trio de amigos era feliz. Um tanto inconformado com a “sacanagem” do destino para com eles, é verdade, mas cientes de que ao menos tinham bons olhos para admirar a beleza abundante que lhes faltava (exceto o João, que tinha pouco mais de seis graus de miopia).

Mas dentre todas as similaridades que possuíam uma era ainda mais latente: a inveja que sentiam do Valdir.

O Valdir era o bom partido do colégio. Loiro, olhos azuis, braços fortes, sorriso perfeito... O típico clichê ambulante do tipo de cara que as mulheres admiram. Mas o pior nem era isso. O Valdir era inteligente, tinha uma lábia envolvente e fugia do estereotipo do “bonito/burro”, que de certa forma servia para consolar os meninos que vez por outra argumentavam que “fulano pode até ser bonitinho, mas é uma anta!”.

A prova inexorável do sucesso do Valdir para com a mulherada podia ser medida em números: todas as garotas que já tinham povoado os sonhos dos integrantes do clã dos “Feiosos Unidos”, invariavelmente já tinham passado pelas mãos do rival. E olha que a lista não era pequena.

Para eles, o Valdir era a prova definitiva da injustiça divina, dá má distribuição de renda estética empregada pelo Todo Poderoso. O Antônio, mais radical, chegou até a cogitar a possibilidade de mudar o nome do clã para “Feiosos Unidos Contra o Valdir”, mas não teve aprovação.

O fato é que, conformados, e já as vésperas de completarem o colegial, não lhes restava outra alternativa a não ser a de desejar dias melhores no futuro, e mulheres menos exigentes.

Foi então que, certo dia, logo depois de saíram do colégio, o grupo de amigos se deparou com uma cena inusitada: o Valdir, sentado na calçada, chorando copiosamente.

Os meninos se olharam. O que será que estava acontecendo com o cara? O Antônio sugeriu que eles fossem embora de uma vez. O Gustavo, mais diplomático, sugeriu que puxassem papo com o Valdir. O João não tinha opinião formada, faria o decidissem fazer. Depois de uma rápida discussão, concluíram que valia a pena seguir o velho lema de Don Vito, personagem do filme “O Poderoso Chefão”: mantenha seus amigos perto, e seus inimigos mais perto ainda.

Tal qual uma esquadra em formação de ataque, se posicionaram dois a esquerda, e um a direita do Valdir, que continuava a chorar. Sentaram-se.

-Valdir... Tá tudo bem contigo?

O Rapaz levantou a cabeça, enxugou as lágrimas mais pesadas e respondeu num tom amigável.

-Mais ou menos, gente!

-Aconteceu alguma coisa? A gente pode ajudar de algum jeito?

-Acho difícil, mas agradeço de coração a boa vontade de vocês!

O Gustavo insistiu:

-Tem certeza? Se quiser se abrir com alguém nós estamos à disposição.

O Valdir pensou durante algum tempo. Olhar perdido no horizonte.

-Ok pessoal, eu estou precisando mesmo disso. E vocês são pessoas bacanas, eu sei. Além do mais é sempre bom ter uma segunda opinião!

-E uma terceira e uma quarta também – disse o Antônio, que naquela altura já era o mais empolgado com o bate papo.

-Bem... Eu estou chorando é por causa... Putz! É até difícil de falar.

-Coragem, rapaz.

-Eu estou chorando... É por causa de mulher, gente!

O João quase gargalhou. Eles na seca, e é o cara que chora por mulher.

-Mas o que houve?

-Essa história de ficar com tudo quanto é garota que te dá mole... Isso não é vida, entendem?

Os três ficaram quietos. Percebendo que não teria uma resposta, Valdir prosseguiu.

-Passei a vida inteira dando em cima da mulherada, investindo em tudo quanto era “garota gostosa”. E olhem só pra mim. O que foi que eu consegui com isso? Nada!

-Como assim “nada”? Você pegou um monte de mulher e...

-É tudo vazio, sabe? Tá, é bacana ficar com mulheres gatas. É maneiro, é prazeroso... Mas é tudo tão insignificante! Chega uma hora que você cansa de bocas carnudas, de peitos fartos, de bumbuns empinados, de rostos simétricos...

Nessa altura os três garotos quase espumavam pela boca.

-Sabem o que eu realmente queria? Uma mulher inteligente, afetuosa, que gostasse de mim só pelo que eu sou, não por esse meu rosto simpático. Mas eu não consigo. Esse é o problema! As garotas não enxergam além dos meus olhos azuis, e isso é muito frustrante. Eu daria qualquer coisa para achar uma mulher que não quisesse só sexo, que me amasse de verdade. Vocês me entendem, né?

Os três estavam sem ação, quase que hipnotizados pelas palavras do Valdir. Gustavo, o mais lúcido do trio, teve forças para balançar discretamente a cabeça de forma afirmativa. Ainda conseguiu dizer, num tom reflexivo:

-Mulheres... Mulheres...

E completar:

-Mulheres!

-Pois é, amigos. Mulheres. Se elas ao menos me valorizassem pelo que eu penso, não pelo que eu aparento ser...

Comovido, o Valdir abaixou a cabeça e voltou a chorar. Pouco depois, resumiu sua angústia, aos soluços:

-Ser bonito é uma bosta, gente... Uma bosta!

Os três se olharam mais uma vez. Dessa vez, incrédulos com a sorte que repentinamente tinham descoberto possuir.

Quem diria: os feios eram felizes e não sabiam.

Diário de bordo

Sim, cá estou eu de volta.

É estranho, mas toda vez que fico um bom tempo sem postar nada me sinto na obrigação de escrever um texto inteiro só para justificar minha ausência... Como se alguém se importasse.

Pior que tem gente que se importa, e isso é muito legal. Teve gente que chegou a me ligar perguntando se eu estava bem e os motivos do longo tempo sem escrever alguma coisa (né Bia?).

Ok, vamos aos fatos:

Em síntese ando bem atarefado ultimamente. A faculdade anda me tomando um tempo preciso bem como boa parte de minha capacidade intelectual (que, convenhamos, já é bastante limitada). Sabe aqueles dias livres em que tudo o que você quer é entrar em coma, ou, como já disse aqui algumas vezes: “colocar seu cérebro num balde com gelo”? Pois então... Estou passando por uma fase assim.

Mais do que cansaço, o que tem me tirando a paciência é a falta de criatividade que tenho enfrentado, fruto, provavelmente, desse excesso de atividades. A coisa mais original que fiz nas últimas semanas foi ter usado minha cueca do avesso durante um dia inteiro... E o olha que nem foi de propósito!

Ok, já falei demais.

De qualquer forma, venho aqui para agradecer a todas as pessoas que passam por aqui de vez em quando e perdem seu tempo lendo minhas abobrinhas. A vocês, o meu sincero muito obrigado.

Se eu voltar a sumir, não se preocupem. Um dia eu volto. Ou não.

Beijo no cérebro!